Choro: uma resistência ativa da legítima arte das massas

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Maurício Carrilho e sua sócia, Luciana Rebello

Maurício Carrilho é compositor de choro e violonista. Nascido em uma família de chorões, filho de Álvaro e sobrinho de Altamiro Carrilho, começou sua carreira profissional há 25 anos, fazendo parte do conjunto de choro Os Carioquinhas, do qual também integravam os irmãos Luciana e Raphael Rabello, e Celsinho. "O grupo se desfez porque os seus componentes tinham outras profissões e optaram por seguir suas carreiras", conta.

Da base dos Carioquinhas formou-se um novo grupo chamado Camerata Carioca. "Esse teve uma importância muito grande, no final dos anos 70 e início dos anos 80, na modernização da linguagem do choro", lembra. Tendo como mentor desta formação o maestro Radamés Gnattali, o grupo trabalhava com uma linguagem musical mais próxima da música de câmera, sem perder a espontaneidade. "Tivemos uma música mais organizada, com arranjos bem mais elaborados. A Camerata virou uma referência para as novas gerações", recorda.

Surge a Gravadora Acari

Em 1999, juntamente com Luciana Rabello, e outros músicos de choro, criou a Gravadora Acari, única no Brasil especializada em choro, e tem realizado um importante trabalho de lembrança dos chorões do passado.

"Os últimos dois projetos que fizemos foram com compositores que nasceram até 1880. Esses foram os pioneiros e entre eles estão alguns conhecidos como: Joaquim Callado e Chiquinha Gonzaga. Quase todo o material é inédito e está dividido em 15 Cds", descreve. Esse trabalho é fruto de uma parceria que fez com o Instituto Saracuí, parte do projeto de um Centro de Referências que está sendo construído na Fundação Moreira Sales. O estudo partiu de uma pesquisa que fez, juntamente com sua mulher, a violonista e pesquisadora Anna Paes, sobre partituras antigas, cadernos de chorões, manuscritos do século dezenove e outras coisas guardadas muitas vezes por particulares.

"Esse levantamento durou alguns anos e tivemos parte dele apoiado pela Fundação Rio Arte, por meio de bolsa. De posse de uma imensa quantidade de material, levantamos mais de 1.300 compositores nascidos no século dezenove, que tiveram alguma ligação com o choro", explica.

O material colaborou na produção dos Cds gravados, até o momento, na Acari, com a participação de grandes músicos de choro, entre eles Altamiro Carrilho, Joel do Bandolim, Pedro Amorim, Paulo Sérgio, Toninho Carrasqueira e outros. Ainda falando em chorões do passado, a gravadora está produzindo em fase final de acabamento, uma série de cinco Cds contendo a obra completa de Joaquim Callado, que foi o primeiro flautista da história do choro. "Desde que morreu, em 1880, teve somente cerca de dez músicas gravadas. Até agora a Acari gravou 150 faixas, entre quadrilhas bem populares, polcas, valsas e outras", alegra-se Maurício.

Paralelo a esse trabalho de levantamento da história e repertório do choro, a gravadora está fazendo o registro da produção contemporânea. "Fizemos o disco da Luciana Rabelo, que é minha sócia na Acari, o primeiro do meu pai, Álvaro Carrilho, o do Pedro Amorim tocando violão tenor, único dedicado a esse instrumento, que é um violão especial de quatro cordas. Gravamos o disco do Índio, um músico que trabalhou na Rádio Nacional na década de 50, e desde então estava sem gravar", relata com entusiasmo.

A Acari realizou também outros trabalhos com artistas contemporâneos como um disco do Quarteto, grupo em que Maurício participa juntamente com Pedro Amorim e Jorginho do Pandeiro, e uma homenagem a mulheres compositoras de choro. "Pegamos desde a Chiquinha Gonzaga até o trabalho da Luciana Rabello. São quatorze mulheres compositoras de choro", indica.

Cursos livres de choro

Uma novidade é o lançamento das partituras dos discos lançados. "Cada álbum de partituras contém o repertório de três Cds. Creio ser um material muito útil para a educação de choro que temos feito e que o mercado não tem para oferecer", se orgulha. Maurício, juntamente com Álvaro Carrilho, Luciana Rabello, Celsinho e Pedro Amorim, vem, há três anos, ministrando um curso de choro. "É um curso livre, em forma de oficina, realizado todo sábado pela manhã, no prédio da Escola Nacional de Música da UFRJ, ao lado da Sala Cecília Meireles, na Lapa. Os alunos vão desde crianças na faixa dos onze anos de idade, até veteranos do choro que nos procuram para treinar", revela. Além desse curso, Maurício tem viajado pelo país com outros cursos livres em cidades como Curitiba, Florianópolis e Itajaí. "Tenho tentado levar o que aprendi nesses 25 anos de choro. Os resultados já estão aparecendo quando vemos muita gente nova tocando muito e bem", comenta o artista lembrando ainda que começou a trabalhar por volta dos dez anos de idade. "A falta de opção no mercado fonográfico brasileiro nos levou a criar uma gravadora especializada em choro".


A música urbana
mais antiga do Brasil


Quando Maurício começou a trabalhar profissionalmente, no final da década de 70, existiam várias gravadoras multinacionais que comandavam o mercado, e acabou por assinar contrato com uma delas. Já no final dos anos 80, percebeu que o espaço para gravação dessa música típica do Brasil estava se fechando cada vez mais e que artistas e interpretes se recusavam a fazer algo que as gravadoras insistiam. "Uma música fácil que apostava na ignorância musical e falta de sensibilidade do público", lamenta. Era um projeto feito para a massa com adesão da televisão e das rádios, a maioria com horários comprados. "Eles montaram uma armadilha e nos cercaram de uma maneira que nos impediu de trabalhar. Os únicos discos de choro gravados entre o final dos anos 80 e início dos 90, dos quais participei, foram feitos no Japão, França e Estados Unidos, no Brasil não houve nenhum", afirma.

Maurício percebeu então que a sobrevivência do choro e também a sua própria dentro do mercado de trabalho estavam ameaçadas. "Sem disco é muito difícil conseguir fazer shows, pois além de ser um documento, um registro, ele tem a função de cartão de visita ou apresentação para novas platéias. Sem o disco estávamos perdendo nosso espaço de trabalho dentro do nosso próprio país", acrescenta.

Foi assim que Maurício, juntamente com Luciana Rabello e muitos nomes do choro se juntaram, em forma de cooperativa. Nasceu então a Gravadora Acari e mais tarde a Acari Record para comercializar os Cds.

Os resultados surpreenderam toda a equipe, com uma excelente qualidade do som. "Os discos que gravamos estão sendo elogiados inclusive no exterior. Comercializamos através de certe na internet, distribuição em algumas lojas, parcerias com gravadoras maiores e portas de vendas no exterior, principalmente no Japão, onde existe um público fiel", acrescenta. De acordo com chorão a gravadora tem conseguido fazer um trabalho de pesquisa muito importante. "Em três anos de existência lançamos no mercado 24 discos e outros estão em processo final".

Segundo Maurício a gravadora está tentando resistir a colonização cultural, uma forma de desnacionalização. "A globalização a princípio seria uma coisa maravilhosa, imagina você ter acesso ao mundo e ele a você, isso seria ótimo. Entretanto, quando alguém, para fazer parte desta rede, tem que deixar de ser o que é, a coisa muda de figura e ao invés de integrar o mundo, desintegra, fazendo uma falsificação da identidade de cada povo em nome de uma idéia de integração" garante.

Para Maurício, essa integração é somente através de uma via, sem retorno. "Você somente cumpre as metas determinadas, sem que alguém queira saber o que interessa ou não. O choro além de ser a forma de expressão musical de música urbana mais antiga do Brasil, pois antes existiam somente manifestações folclóricas localizadas, foi a primeira música popular nacional, com compositores em todos os estados brasileiros", lembra.

O choro foi instituído como gênero musical somente a partir do início do século 20. O reduto dos chorões estava em vários bairros da cidade. Eles eram em sua maioria pequenos funcionários, carteiros, operários, pessoas que trabalhavam na estrada de ferro. "Por esse motivo o choro não tinha o aspecto de boemia, ou seja, os operários não podiam passar a noite inteira na rua, pois tinham que acordar cedo para trabalhar. O ritmo era desprezado pela elite, que só foi se dar conta da sua existência após algumas pessoas como Vila Lobos, passarem lhe creditar elogios publicamente", conclui.

O choro é um jeito de
tocar com sotaque

O surgimento do choro se deu ha aproximadamente 140 anos, de uma mistura de danças de salão européias, como polcas, valsas, quadrilhas, maxixes, com os batuques africanos dos negros, que na época eram escravos. "Essa mistura de ritmos foi criando uma forma de tocar brasileira. O músico brasileiro copiava a dança de salão com um sotaque mulato, influência que tinha dos batuques. Começava a tocar a música européia com um balanço diferente, uma espécie de sotaque brasileira, que acabou originando um novo ritmo ou gênero musical, o choro. O índio também teve influência no nascimento desse ritmo", esclarece.

No final dos anos 70 e início de 80 do século 19, alguns compositores, como Joaquim Callado, Henrique Alves Mesquita, Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazaré, perceberam esse sotaque e começaram a compor músicas originais para serem tocadas com ele. Nascia então a composição brasileira. "Com o decorrer do tempo o choro teve importância, não só pelo trabalho de si próprio, como também de outros ritmos. Os músicos que faziam a base harmônica no início do samba, nos anos 10 e 20 do século vinte, assim como os que acompanhavam os cantores de toda música brasileira nordestina, das emboladas, das rancheiras do sul, quando as rádios começaram as transmissões de programas, eram os músicos de choro", argumenta.

O nome choro tem várias explicações. Maurício lembra que Ari Vasconcelos defende a tese de que o nome surgiu devido ao fato dos primeiros grupos de choro serem formados por músicos oriundos dos grupos choromeleiros, que tocavam um instrumento chamado choromela. "Eles eram uma espécie de bandinhas bem rústicas que tocavam no final do século dezoito e início do dezenove", conta.

Outros defendem a idéia de que venha da palavra chulo, que quer dizer vagabundo, maneira como era visto no seu princípio. Também tem os que acham que se origina do jeito chorado de se interpretar. "No início da história do choro, Joaquim Callado já chamava o seu conjunto de choro, era o Choro Carioca", diz.

Uma coisa que quase nenhum artista de choro gosta é que se refira ao ritmo como chorinho. "O Pixinguinha, que foi talvez o maior símbolo desta música, usava essa palavra como um jeito carinhoso de se referir ao choro. Entretanto, algumas pessoas passaram a chamar querendo dizer musiquinha, tentando inferiorizar esse gênero musical. Acredito que da mesma maneira que ninguém fala jazzinho, rockinho, bolerozinho e outros, também não devem dizer chorinho. Na verdade, chorinho é um choro pequeno e sei que o choro é uma grande música", finaliza.

Ritmos brasileiros resistem à colonização

Sérgio Prata é um chorão do cavaquinho que se apresenta ha seis anos, todos os domingos, a partir das 18:30h, na Cobal do Humaitá, formando juntamente com Bruno Rian no bandolim, André Belieny no violão de sete cordas — que só existe no Brasil — e Agenor do Pandeiro, é claro, no pandeiro, o grupo de choro Sarau, firme na resistência musical e cultural a dominação estrangeira, que insisti em padronizar os ritmos.

Prata, aos 49 anos de idade, sendo 21 dedicados ao choro, afirma que o espaço da Cobal ajuda a manter a nossa cultura e evitar que nos entreguemos a outras, importadas, e seus ritmos. "Certos gêneros musicais como o choro, não podem ser tragados por situações de colonização, por terem raízes sociais. Possuem uma postura política de resistência cultural, e assim como o tango na Argentina, o fado em Portugal, a música flamenga na Espanha e outros, não se deixam tragar pela colonização por serem culturas nacionais", ressalta.

Para o artista, aquele espaço é um lugar democrático a disposição de artistas regionais que não se renderam à globalização, apresentarem os seus trabalhos.

A cada quinze dias o grupo promove uma atividade especial, que pode ser uma homenagem a velha guarda ou um lançamento de CD independente. "Quem não tem espaço para se apresentar, mostra o seu trabalho por aqui", conta.

Interesse dos jovens

O Sarau percebeu o interesse da geração dos anos 90 pelo choro. Muitos garotos que antes tocavam rock já preferem um cavaquinho, por exemplo. "Recebemos aqui três gerações do choro: 50, 70 e 90. Isso está acontecendo por conta de um esgotamento da música de baixa qualidade e de gênero comercial, feita somente para vender e sem nenhuma relação cultural com o povo. A garotada está se afeiçoando ao choro, maxixe, samba, salsa e outros ritmos que não estão na mídia. Hoje muitos jovens da faculdade de música se dedicando ao choro e outros ritmos nacionais como a embolada, um gênero musical que tem a mesma forma do rap americano. Estão vendo que podem tocar a embolada e não o rap, que na verdade é uma embolada tocada com guitarra e sotaque gringo", assegura com entusiasmo.

Até o último mês de outubro, o grupo Sarau pode ser visto fazendo parte de um projeto do Museu de Arte e Som do Rio de Janeiro, que promove shows em plena calçada em frente ao museu, no tradicional bairro carioca da Lapa, reduto da boemia do Rio, com o intuito de se achegar mais ao povo.

Sob a batuta da diretora Maria Trindade Barbosa, há um ano, o museu promove shows de choro, da velha guarda de escolas de samba, manifestações de danças e outros. "Toda quarta-feira é dia do choro. O Sarau abriu esse projeto e outros grupos, em rodízios, continuam se apresentando no local", diz o artista.

Pelo jeito, essa tentativa de resistência da cultura nacional tem dado certo, pois as quartas e aos domingos, o choro enche o calçadão da Lapa e as mesinhas do Espírito do Chope, na Cobal do Humaitá.

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