70 anos da vitória soviética de Stalingrado

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Soviéticos defenderam Stalingrado casa a casa, cômodo a cômodo

O dia 2 de fevereiro deste ano marca não apenas o desfecho de uma das maiores batalhas da história das guerras, mas sobretudo que esta batalha definiu que a humanidade não estava condenada a viver sob o jugo da corrente mais criminosa do imperialismo, o nazi-fascismo.

Milhares de feitos heróicos poderiam ser relatados aqui e nenhum deles seria capaz de expressar a totalidade da importância da vitória das tropas do Exército Vermelho da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, sob o comando do Marechal Stalin, sobre a besta nazista, que com arrogância e selvageria se lançou à conquista da pátria operária, pensando tratar-se de um governo burguês qualquer, à semelhança dos que sua máquina de guerra havia trucidado anteriormente.

A toda bestialidade a população soviética, dirigida pelo Partido Comunista (bolchevique) da União Soviética, opôs fibra, disciplina, sacrifício e, principalmente, o ódio ao inimigo da humanidade, aos opressores imperialistas.

Os dois lados opostos sabiam que a vitória em Stalingrado poderia selar, como selou, o destino de toda 2ª grande guerra imperialista, daí a importância da tenacidade dos soldados do Exército Vermelho e da população da cidade, que a defenderam com o que tinham à mão.

Muitos ainda empenhados em minimizar o papel de Stalin como comandante em chefe do Exército vermelho, atacam até mesmo a Ordem 227, que continha aquela que ficou conhecida como uma das consignas das tropas soviéticas: “Nenhum passo atrás!”

E essa ordem foi dada por quem era o maior chefe militar da época, consciente da importância do sacrifício de abnegados soviéticos para que os trabalhadores do mundo inteiro se salvassem. E foi graças a essa ordem que quase 1,5 milhão de soldados nazistas encontraram em Stalingrado um grande túmulo.

Muito já se publicou sobre a defesa de Stalingrado, feita bairro a bairro, rua a rua, casa a casa, cômodo a cômodo. Segue mais um desses relatos, cheio de vida e sentimento.

O texto talvez seja inédito no Brasil. Foi extraído de uma revista chamada La Literatura Internacional, publicada em espanhol na União Soviética entre os anos 1942 e 1945.

Trata-se de uma reportagem de Boris Polevoi, romancista soviético, autor de vários livros, entre eles Um Homem de Verdade, publicado no Brasil nos anos de 1950 entre os livros da Coleção Romances do Povo, da Editorial Vitória.

Notável também a conduta dos artistas soviéticos. Alguns escritores foram designados correspondentes de guerra, enviando notícias do front. Uma grande parte, porém, preferiu se alistar como soldados e lutaram e morreram defendendo a pátria dos soviets.

A casa 21/A

Boris Polevoi

Uma rua larga, de altos edifícios, com jardins e álamos jovens, cujos brotos ainda não chegavam a se levantar, tão tranquila e pacífica, se não fosse pelo calçamento removido pelos obuses, se não fosse pelas barricadas e os tanques alemães incendiados junto a uma parede de pedra, também destruída.

Uma casa bonita de quatro andares, com janelas que adornam sua fachada, com uma larga escadaria e amplos cômodos limpos, cheios de luz. Tudo muito organizado, se não fosse por um canto da casa, derrubado por uma bomba, se não fosse pelos buracos abertos nas janelas quebradas, se não fosse pelas portas arrancadas com a força das explosões.

Por essa casa se luta há nove dias. Agora um punhado de valentes a defendem, sob o comando do tenente Tsvétkov. A casa em frente está nas mãos dos alemães. De vez em quando disparam seus fuzis automáticos. As balas, ao silvar roçando as janelas, tira a cal da parede, que cai em nuvenzinhas brancas.

Há pouco tempo esse cômodo servia de escritório a um engenheiro: uma mesa de trabalho, estantes com livros, os clássicos junto com a enciclopédia técnica e o dicionário Hutte; uma grande fotografia de uma fábrica de tratores. O móvel onde colocaram a foto está quebrado; há um divã forrado com tecido impermeável.

O tenente Tsvétkov, escolheu este cômodo que tem as paredes sólidas e uma pequena janela que dá para o pátio como seu “posto de comando”, como gosta de dizer de brincadeira.

Com voz rouca, o tenente nos conta animadamente a história da defesa dessa casa nº 21/A, situada numa rua do subúrbio de Stalingrado.

Em meados de setembro, os alemães, depois de reunirem nos arredores da cidade um grande punhado de homens, depois de prolongados bombardeios aéreos e apoiados pelos tanques, se apoderaram dessa rua. Imediatamente começaram a construir fortificações.

O tenente me leva para a janela e diz para me aproximar com precaução: me mostra as escavações das profundas trincheiras que serpenteiam e cruzam o pátio e uma fortificação construída no centro dele, dissimulada atrás de um montão de lenha. Era uma sólida fortificação, mas os alemães não resistiram muito tempo nela. Com um forte e inesperado ataque pelo flanco, uma unidade nossa os expulsou dali e pela noite os empurraram dessa rua e de outras adjacentes a ela. Depois da luta, os combatentes encontraram no pátio da casa 21/A, nas trincheiras e no sótão onde estavam as caldeiras da casa, muitos cadáveres de alemães.

Uma visão horrível se mostrou ante os olhos dos combatentes na entrada do apartamento nº 3, no segundo andar. No umbral da porta, com a metade do corpo na escadaria, jazia uma velha mulher, com os cabelos brancos. Sob ela estava o cadáver de uma criança de um ano e meio de idade. A mulher tinha o peito atravessado de lado a lado por três balas. Antes de morrer conseguiu dizer seu nome: Anna Kapustina, aposentada, mãe de um empregado da fábrica de tratores.

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Ofensiva soviética no inverno de 1943 definiu a vitória

Contou aos combatentes uma história horrível. Junto com seu neto Egor e sua filha mais nova Vera, de quinze anos, ficaram sozinhos na casa vazia quando os alemães se apoderaram dela. Pouco depois nossas unidades começaram a pressionar o inimigo. Um oficial alemão, raivoso e bêbado, arrombou a porta do quarto de Kapustina. Gritava algo que a velha não compreendia e, sacando seu revólver, disparou contra a caminha onde o menino dormia. A avó se apressou a proteger o neto e se agarrou ao braço do verdugo; então ele apontou para o peito da velha e disparou três vezes. Os soldados alemães levaram Vera à força.

Enquanto contava essa história, o tenente se levantou bruscamente do divã e, impressionado, cruzou o quarto; depois tirou do bolso um pequeno brinquedo com um retrato pintado, meio borrado.

Encontramo-lo na caminha da criança, depois que o enterramos. Guardo para mim, guardo, e nunca perdoarei o que fizeram com essa criança.

Mas a história da luta pela casa nº21/A acaba de começar. Ao se apoderar dela, os combatentes organizaram imediatamente uma defesa circular, colocando a entrada da rua sob o fogo de suas metralhadoras. Os alemães empreenderam um contra-ataque pela manhã. Caiu uma torrente de obuses sobre a rua; os aviões de bombardeio, um após o outro, baixaram em voo picado sobre ela. Os combatentes resistiam firmemente em suas pequenas trincheiras, depois das barricadas e das janelas, esperando o ataque. Nisso os tanques alemães se lançaram ao combate. Doze tanques pesados marcharam ao longo da rua; levavam em cima de sua couraça um destacamento de soldados com fuzis automáticos.

No estreito espaço da rua se travou um combate de grande intensidade.

Os soldados com fuzis antitanques esperaram com sangue frio até que os tanques do adversário estivessem na mesma linha deles, então abriram um fogo certeiro contra suas laterais. Cinco tanques se incendiaram. Mas os outros, desviando-se cautelosamente dessas ardentes fogueiras, seguiram avançando. Acabaram-se as munições para os fuzis antitanques. Mudando de posições, correndo de uma janela a outra, os combatentes tratavam de se proteger do fogo em rajadas, aberto desde os tanques; escolhendo o momento oportuno, lançavam, do alto da casa, granadas: mais três máquinas ficaram paradas com as lagartas rompidas, mas quatro seguiam sua marcha. Das janelas dos pisos baixos os combatentes varriam os alemães que estavam em cima dos tanques. Mas os meios para lutar contra os tanques se esgotaram. Então um combatente alto, de quem todos falam com grande respeito, mas ninguém sabe o nome, apanhou uma granada antitanque e bradou:

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Fachada do Museu da Defesa de Tsaritsin, durante a batalha de Stalingrado

— Não passarão, répteis! Não deixarei! — apertou a mina contra seu peito e se lançou com ela sob as lagartas do tanque dianteiro. Ouviu-se uma forte explosão. Inclinando-se para o lado, o monstro de aço parou. O corpo do combatente ficou desfeito. Três tanques ainda avançavam. Chegaram à barricada e se aproximaram da própria casa nº21/A. então os defensores puseram em prática um velho, mas eficaz procedimento de combate. Do saguão saíram voando garrafas com líquido inflamável. Mas um grupo de soldados alemães conseguiu saltar dos tanques e, depois de vencer a resistência dos combatentes que se esforçavam para detê-los, adentraram ao primeiro portal da casa. Uma batalha feroz foi travada na escadaria. O número de alemães era o triplo, mas nossos combatentes rechaçaram firmemente seu ataque. O combatente Chupurnoy se deitou em um pequeno patamar e reteve os alemães com rajadas curtas, enquanto os companheiros levantavam uma barricada usando o mobiliário da casa. Os alemães conseguiram se apoderar somente dos apartamentos 9 e 10. Chupurnoy disparou sua última rajada e, cambaleando (estava ferido no ombro e nas pernas) começou a caminhar escadaria acima. Os companheiros o ergueram acima da barricada.

Os alemães receberam reforços. Depois de alguns disparos de morteiro de pequeno calibre contra as janelas da escadaria, os alemães tentaram o assalto à barricada; os cinco combatentes que a defendiam ficaram sem granadas e seus cartuchos estavam se esgotando. Por isso atiravam somente quando algum dos alemães tentava saltar ao reduto. Os combatentes defenderam a barricada até que os alemães, depois de subir ao segundo piso pela escada de incêndio, começaram a disparar contra eles pelas costas. Apesar disso, os combatentes conseguiram subir ao terceiro andar e se fortificar ali. O ferido Chupurnoy foi alojado na cozinha; ele vigiava a varanda e rechaçava os intentos dos alemães de penetrar na casa pela escada de incêndio. Travou-se de novo um combate desigual e ainda mais feroz. Os alemães se esforçavam para lançar granadas para este lado da barricada, mas antes que explodissem, os combatentes as apanhavam no ar e as lançavam sobre as cabeças dos alemães.

— Esta é por Stalingrado! Esta pela mãe Ucrânia! E esta pelo meu amado Kolkhóz, “A Estrada Vermelha” — repetia um soldado lançando audazmente as granadas alemãs.

Os alemães não puderam resistir. Suspenderam o assédio e se dirigiram aos apartamentos dos pisos de baixo. Mas ao anoitecer empreenderam uma nova tentativa de se apoderar da casa. Dessa vez seus morteiros dispararam por dez minutos seguidos contra as janelas da escadaria. A fumaça cinza das explosões e o pó de cal cobriram tudo com um véu espesso. Mas quando os alemães tentaram se lançar aos pisos superiores, eram aguardados por disparos não frequentes, mas certeiros, do outro lado da barricada. Os combatentes que haviam resistido ao bombardeio nos apartamentos ocuparam novamente seus postos de combate. Dispararam até esgotar seu último cartucho, preparando-se para o combate corpo a corpo, mas nisso ressoou acima um hurra! Ressoou inesperadamente e seguiu crescendo em vozes. Eram os combatentes do quarteirão vizinho que, saindo do telhado, vinham ajudar. Sobre as cabeças dos alemães caíram, uma depois da outra, muitas granadas. A surpresa deles foi tão grande, que se retiraram imediatamente, abandonando seus mortos e feridos.

Em seguida foram recuperados os apartamentos 9 e 10. A casa nº 21/A de novo se encontrou por completo em nossas mãos. O assalto fracassado custou aos alemães 53 soldados e 2 oficiais.

Pelas noites os combatentes fortificavam a casa, tapavam com tijolos os buracos nas janelas, construíram seteiras, cercaram o edifício com uma rede de trincheiras.

Nossa casa é uma casa de Stalingrado! — Disse o tenente, e me convidou a observar sua original fortificação, onde um mês atrás seus habitantes viviam uma vida pacífica.

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As coisas estavam ainda cada uma em seu lugar, cobertas de poeria e de vidros quebrados. Em um dos cômodos, que certamente servia de refeitório para aquela família, ao lado da janela fortificada por onde assomava o cano de um fuzil antitanque, em macios cadeirões estavam sentados dois combatentes, os operadores do fuzil antitanque, e à luz de uma pequena lamparina faziam, com os destroços de um Messerschimidt abatido, piteiras para fumar.

No outro cômodo próximo, os metralhadores Zhukov e Evtifeev entabularam uma tranquila conversação ao lado de uma metralhadora fixa. Nesse cômodo se conservava um canto infantil, havia um pequeno mobiliário e tapeçarias com animais desenhados cobriam as paredes. O tenente os olhou, depois tirou do bolso o brinquedo, lembrou da criança assassinada, e disse:

— Eu também tenho uma filha, Svieta, de quatro anos, e um filho, Jorge, de quase dois.

Depois se aproximou rapidamente da metralhadora e disparou duas rajadas curtas contra a janela da casa em frente, onde estavam os alemães, que responderam. Umas quantas bombas fizeram estremecer o piso. O tenente continuou.

— Só de pensar nos alemães fico furioso: as mãos sentem o desejo de disparar, de lançar granadas, de atacar com a baioneta.

Me vem à memória a frase do tenente: “Nossa casa é uma casa de Stalingrado!”. E assim como uma gota de chuva reflete o sol, a luta por esta casa reflete a épica e alta firmeza dos defensores da cidade de Stalin, que lutam por cada rua, por cada casa, por cada janela, por cada degrau. E em toda essa cidade heroica que luta e combate, todos odeiam os alemães, assim como os alemães odeiam irreconciliável e ardentemente os defensores da casa º 21/A.


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