Fogo e ameaça de despejo em favela no Rio

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Dona Maria da Conceição teve sua casa destruída pelo incêndio e está vivendo com a ajuda de seus vizinhos

E não é só com estádios e megaconstruções para a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 que o dinheiro público está sendo despejado nos bolsos de empresários e banqueiros. Os recursos também estão sendo usados para expulsar os pobres das regiões centrais da cidade, removendo favelas e bairros miseráveis. Em troca, a massa ganha cheques de R$400, chamados de aluguel social, ou micro-apartamentos de 40m² em campos de concentração construídos a dezenas de quilômetros do Centro e da zona sul do Rio de Janeiro, onde são cada vez mais freqüentes os despejos. Qualquer faísca transforma-se em um argumento para o Estado reacionário — nesse caso, os gerenciamentos Paes e Cabral — apontarem seus tratores para os bairros pobres da cidade.

Foi o que aconteceu nas favelas Bandeira 1 e 2, no bairro de Maria da Graça, zona norte do Rio. Localizadas embaixo do viaduto Alvarino José da Fonseca, conhecido como Viaduto de Maria da Graça, o conjunto é formado por barracos de madeira onde vivem cerca de 200 famílias. No dia 15 de maio, um incêndio atingiu as favelas e queimou a metade das moradias. Desamparadas, algumas famílias atingidas foram abrigadas por moradores da favela vizinha do Jacarezinho, outras ficaram na rua. Uma semana depois, ainda sem assistência do Estado — somente o aluguel social de R$400 — as famílias ainda receberam a visita fúnebre de um grupo de agentes da prefeitura acompanhados da PM e da Defesa Civil.

Liderados por um funcionário da Secretaria de Habitação conhecido como Orlando — figura conhecida nos movimentos sociais por ter sido o "organizador" de inúmeros despejos — a equipe da prefeitura trouxe a notícia de que as casas que não foram atingidas pelo incêndio também teriam que ser demolidas. Um grupo de moradores protestou e, com o apoio de dezenas de ativistas que se deslocaram para o local, conseguiram barrar a ação dos tratores da prefeitura.

Dona Maria da Conceição tem 61 anos, 13 deles vividos na Bandeira 1. Ela conta que os moradores que tiveram suas casas atingidas pelo fogo não estão conseguindo utilizar o cheque de R$400 para alugar outra moradia. Além disso, apenas uma parte das famílias recebeu o aluguel social.

400 reais não dá para nada. Ninguém aluga nada com esse valor hoje em dia aqui no Rio. Nem em favela. Só indo para a Baixada [Fluminense]. Mas as pessoas moram aqui, trabalham aqui, os filhos estudam aqui. Como a pessoa vai para a Baixada? Mesmo que desse para alugar com esses 400 reais, as pessoas hoje em dia pedem depósito ou seguro aluguel. Não aceitam só o primeiro mês adiantado. Todo mundo sabe disso, mas a prefeitura finge que não sabe. Te dão o dinheiro e "se vira!" — protesta a aposentada.

E agora eles vêm aqui querer oprimir a gente. Querendo tirar as pessoas daqui sem nem dizer para onde as pessoas vão. Esse incêndio já me prejudicou muito e, agora, a prefeitura, que tinha que ajudar a gente, está prejudicando mais ainda. Meu barraquinho era de pau, mas eu tinha tudo dentro dele. Eu tinha geladeira, eu tinha fogão, eu tinha cama, meus netos tinham cama, tinha quarto para eles. Perdi tudo. Meus netos nem estão indo para a escola porque perderam material, uniforme, tudo. Hoje, eles [prefeitura] vieram dispostos a botar todo mundo na rua — conta.

Dona Maria da Conceição também disse que se espantou com a maneira como os agentes da prefeitura chegaram ao local, em vários carros e acompanhados de PMs fortemente armados.

Eu fiquei chocada. Fiquei pensando "para quê tudo isso?". Parecia que nós éramos um bando de bandidos. Eram dois policiais para cada morador. Todos de fuzil, arma de dar choque, parecia uma guerra. Eu pensei: "Nossa! Daqui a pouco ser pobre vai ser crime". Mas é isso o que eles têm para a gente. Disseram no rádio que a prefeitura mandou cesta básica, mas até agora não chegou nada aqui. Se não fosse o povo se juntar para fazer uma sopa, nem o que comer a gente tinha — lamenta.

As famílias atingidas pelo incêndio nas favelas Bandeira 1 e 2 seguem desamparadas e vivendo em condições desumanas. Para ajudá-las, mande cobertores, colchões ou alimentos não perecíveis para a redação de AND que nós nos responsabilizamos de entregar aos moradores. O endereço para envio está na página 2 dessa edição, abaixo do Editorial.


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