"Construir um mundo onde não haja cadeias"

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http://www.anovademocracia.com.br/121/07.jpgNo dia 28 de outubro, a reportagem de AND esteve na porta da Rede Globo, no Jardim Botânico, zona Sul do Rio, para registrar a manifestação em repúdio à campanha de criminalização dos movimentos sociais — em especial os mais combativos — levada a cabo pelo monopólio dos meios de comunicação. No local, nossa equipe conversou com o ex-preso político Ernesto Fuentes Britto, 38 anos, biólogo e pesquisador na área de ecologia de córregos.

AND: Como foi o momento da sua prisão nas escadarias da Câmara de Vereadores?

Ernesto: A tropa de choque, no dia em que fomos presos na Câmara, veio determinada a agir com violência. Quando os oficiais começaram a pedir para nós sentarmos e calarmos a boca, percebi que aquilo não iria terminar na delegacia. Nós éramos umas 200 pessoas e, depois que os ônibus começaram a chegar, percebemos que haveria uma prisão em massa. Eles foram dividindo os menores de idade e espalhando grupos entre os maiores para cada delegacia. Ou seja, tudo premeditado para enquadrar todo mundo no crime de indução de menores. Nós passamos a madrugada na 25ª e presenciamos todo o processo absurdo no qual eles forjaram inúmeros crimes contra nós. Além disso, teve esse fato lamentável que foi a Martha Rocha [chefe de Polícia Civil] ter ligado e instruído os delegados a serem enérgicos nas acusações para que nós fossemos presos mesmo, sem direito a fiança. Isso ficou muito claro na negociação à noite.

AND: Como foi o processo da delegacia até a prisão?

Ernesto: A gente ficou preso sob a acusação de formação de quadrilha, que prevê uma pena de, se não me engano, doze anos de cadeia. Eu e três companheiros meus ficamos em uma cela que parece uma caverna, escura, sem luz e com a metade dela suja de merda. Entre nós havia um indígena e um companheiro de São Paulo. Depois fomos levados para o presídio Patrícia Aciólli, onde começou toda aquela cena dramática de presídio mesmo. Grades altíssimas, nós chegamos chovendo. Eles fizeram questão de nos colocar em uma cela que estava completamente alagada uns 30 centímetros. Com isso, nós ficamos de pé o tempo todo e com o tênis encharcado. “Mão para trás”, “Vagabundo!”, “Demônio!”, “Isso aqui é cadeia!”, “Abaixa a cabeça!”, era só o que a gente escutava. Eles falavam “Aqui não tem mídia livre, aqui não tem mídia independente, não tem câmera. Aqui somos nós e vocês”.

AND: E quais eram as condições dentro do sistema penitenciário?

Ernesto: Ficamos lá todos molhados, depois vestimos a roupa da Seap [Secretaria de Administração Penitenciária] e fomos colocados em uma galeria que era só nossa e ficamos lá, se não me engano, dois dias. Parece uma eternidade quando você está preso. Depois o SOE acordou a gente às 3h da manhã por conta do ato que teria na porta da cadeia. Os caras são tão violentos, que alguns presos doentes deixam de ir a um hospital ou ambulatório com medo do transporte do SOE, porque eles sabem que vão sofrer muito. A gente não sabia ao certo para onde estávamos indo. Fomos colocados em vans onde você não via absolutamente nada. Nós fomos algemados em duplas e nos identificávamos falando o nome dos companheiros e nos tocando. Essa experiência nos uniu muito. Eu não sofri nenhuma agressão física, mas quatro companheiros foram agredidos com uma palmatória e ficaram com as mãos inchadas.

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AND: Sabe-se que o sistema prisional brasileiro é um dos mais desumanos do mundo. Muitos dizem que os presos são violentos, que são animais, que não podem viver em sociedade. Como vocês foram tratados pela população carcerária?

Ernesto: Os presos que já estavam lá foram muito solícitos e em momento algum perderam a humanidade no tratamento com a gente. Eles viam na gente uma solução, representantes por um mundo melhor. Eles fizeram questão de dizer que nos admiravam, que não queriam que seus filhos fossem bandidos, mas que porém as escolas são precárias. Houve muito debate e discussão. Eles conseguem ver a legitimidade da nossa luta. Enquanto que o Estado o tempo todo tenta deslegitimar. Enquanto os agentes penitenciários nos xingavam, humilhavam; os presos nos saudavam como lutadores e, também, seus representantes, de seus filhos, de suas famílias. Em um momento, a direção do presídio propôs nos separar incomunicavelmente e nós fomos contra. Eles também são presos políticos, pois são fruto de uma política corrupta, imoral, desumana.

AND: Qual o seu sentimento depois da experiência de ser preso?

Ernesto: Uma vez eu fiquei três dias internado no hospital Miguel Couto e pude ver toda a fragilidade do Estado. Na cadeia foi a mesma coisa. Como no hospital, é outra parte negligenciada da sociedade. Eu saí de lá um militante muito mais completo, pois eu ganhei mais uma frente de batalha, para humanizar aquele espaço e, quem sabe, construir um mundo onde não haja cadeias, onde não haja opressão.

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