“A luta dentro do parlamento não é nossa”

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Atividade cultural na Biblioteca Solano Trindade.

Nota da redação: No dia 1° de setembro de 2013, AND participou de um debate em Cidade Tiradentes, na zona Leste de São Paulo, organizado pelo Núcleo Cultural Força Ativa e prestigiado por diversos outros coletivos culturais e sociais da cidade. Desejando conhecer mais o coletivo, sua atuação e sua história, fizemos alguns questionamentos aos companheiros. As respostas vão publicadas em forma de um depoimento abaixo.

A Cidade Tiradentes é um barril de pólvora, a maior concentração de pessoas em conjuntos habitacionais da América latina. Temos o maior índice de adolescentes cumprindo medida socioeducativa do município, algumas escolas daqui têm os piores índices de qualificação educacional, poucas ofertas de profissionalização e de empregabilidade, é muita gente socada e amontoada num lugar dividido em diversos setores que sem sombra de coincidência são nomes de profissões, Metalúrgicos, Têxteis, Ferroviários, Gráficos, Bancários e vários outros setores... Um bairro extremamente discriminado onde muitos, para garantir seus empregos ou cursos, dizem que moram perto do metrô ou do trem, ressaltando o fator étnico onde alguns estudos apontam a Cidade Tiradentes como um legítimo território de pretos e pretas.

A Força Ativa nasceu da união e de aglutinação de diversas pessoas ligadas ao movimento Hip Hop, sendo uma das primeiras posses da cidade de São Paulo. As posses eram espaços de união e de aglutinação de diversas pessoas ligadas ao movimento hip hop que se organizavam para desenvolver trabalhos comunitários em vários espaços nas periferias e principalmente em escolas, sempre levando a temática do combate ao racismo e a denúncia da violência policial.

Esse tipo de organização dava um caráter de movimento ao hip hop, para além dos quatro elementos: DJ, MC, Breaking e o Graffiti, formando jovens por meio de oficinas, palestras e seminários. A partir de 1995 a Posse Força Ativa se reorganizava na zona Leste de São Paulo, por diversos motivos se instala na Cidade Tiradentes, no extremo leste, trazendo algumas mudanças na sua forma de atuação e de organização. É nesse momento que deixa de ser posse e passa a se denominar como Núcleo Cultural Força Ativa.

A ideia de Núcleo Cultural traz novas práticas. As posses faziam um trabalho apenas dentro do hip hop, quando a Força Ativa passa a atuar como Núcleo Cultural, expande o seu campo de atuação, aglutinando pessoas que não são ligadas ao movimento hip hop, mas que querem se organizar no sentido de ter uma atuação que venha de encontro com a politização da juventude periférica.

O trabalho realizado atualmente pelo Núcleo na Cidade Tiradentes vai além do movimento hip hop, a solidez das atividades tem criado uma identidade na juventude revolucionária, com um posicionamento de esquerda, estabelecendo vínculos com importantes movimentos sociais do estado de São Paulo. A partir de 1997 começava-se a discutir a importância de uma biblioteca pública no bairro da Cidade Tiradentes, que até então contava com uma população muito grande, que sofria e sofre até hoje com ausência de políticas públicas que atendam as demandas da juventude.

Dessa forma, a Força Ativa começou a formatar o projeto “Vamos ler um livro”. Esse título dava nome a uma música de rap de um dos grupos da Força Ativa, que discutia a importância da leitura e do conhecimento para a transformação do mundo. Só em 2001 que a biblioteca comunitária foi implementada de forma autônoma e sem vínculo com o poder público. A biblioteca leva o nome de Solano Trindade, grande poeta negro que em suas poesias trabalhava com temáticas relacionados a população negra. A biblioteca tornou-se a sede do grupo, que antes realizava suas atividades e reuniões numa escola pública municipal.

 Desde sua fundação ela é mantida pelos membros do próprio grupo Força Ativa e pelos moradores. O coletivo, ao longo desses anos, tem desenvolvido ações na Cid. Tiradentes por meio de projetos que discutem prevenção de DST/AIDs, oficinas contra o racismo e machismo, introdução aos direitos humanos e outras temáticas de resistência. Sempre organizado de forma horizontal e colegiado, tudo é decidido na reunião ordinária onde todos os membros têm poder de decisão e de fazer propostas.

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A partir de 2013 a Força Ativa deixa de ser Núcleo Cultural, passando a ser um Coletivo de Esquerda, fortalecendo o seu posicionamento de esquerda que não é ligado a nenhum partido político, mas é esquerda porque tem como compreensão da sociedade que a emancipação humana e o questionamento à sociedade do capital devem ser uns dos pilares relevantes a resistência das classes trabalhadoras. O legado Marxiano tem sido a ferramenta utilizada para compreender a sociedade. O aprofundamento nessa discussão é mantido por meio de um grupo permanente de estudos uma vez por mês que ocorre desde 2001. A Força Ativa ainda mantem o rap como ferramenta de interlocução com a juventude das periferias por meio dos grupos Fantasmas Vermelhos e Sankofa, que em suas letras divulgam mensagens contra o capitalismo, racismo e machismo, dentre outros temas que afetam a população negra, como o genocídio que há séculos vem oprimindo este povo.

Tomamos como inspiração movimentos revolucionários de esquerda como Black panthers, os bolcheviques entre outros que se posicionaram na luta contra o capital e por uma revolução.

No contexto atual mantém atividades no espaço da biblioteca comunitária Solano Trindade:

  • Hip Hop minha voz está no ar
  • Rap é o Quilombo
  • Grupo de Estudos
  • Reunião ordinária
  • Sarau cultura marginal

Além de externamente fazerem parte do fórum de hip hop e do comitê contra o genocídio da juventude preta e periférica.

O resgate das origens africanas vem de encontro ao reconhecimento de nossa própria história, ou seja, se reconhecer na história, resgatar a auto-estima e intervir no mundo, sabendo que os povos africanos constituíram vários modos de vida que tinham como princípio a valorização da coletividade.

Mas sempre tomamos o cuidado de não idealizar uma África que nunca existiu. Sem romantismo, achamos importante esse resgate, uma vez que a história que nos é passada, nós não nos reconhecemos nela, uma história totalmente com referenciais europeus e que conta a história do colonizador.

Mesmo a imprensa popular ainda tem um olhar limitado sobre a questão racial no Brasil. Isso ocorre porque os grupos de esquerda ainda não dão prioridade para este debate, ainda existem várias confusões nessas organizações de esquerda, que separam a luta racial da luta de classes, ou então a questão racial aparece como menos importante frente à luta de classes.

Na verdade, isso está relacionado ao histórico de militância das organizações de esquerda no Brasil, onde a leitura sobre a questão racial sempre foi bastante rasa. É visível que na particularidade brasileira o racismo ocupa uma dimensão ampla. Os grupos de esquerda precisam visualizar essa problemática, não dá pra discutir revolução deixando de lado ou no segundo plano questões que estão na raiz da sociedade brasileira. Portanto, a imprensa popular deve voltar mais a sua atenção aos casos de racismo presentes em nosso cotidiano.

Estamos num contexto muito difícil para quem luta contra o capital, um momento onde os partidos políticos de esquerda estão bem enfraquecidos, uma esquerda fragmentada que não consegue dar resposta alguma e organizar uma luta de enfrentamento contra a burguesia.

Diante desta dificuldade, é necessário que os movimentos sociais, as organizações de esquerda voltem o seu trabalho para as bases, dialogando com as pessoas nos extremos, nas favelas, nos presídios, nas periferias. Se não atuarmos na base, dificilmente teremos uma resistência de peso, e uma luta mais acirrada deve se dar fora dos marcos institucionais. A luta dentro do parlamento ou para governar para a burguesia não é uma luta nossa, a nossa luta deve ser nas ruas e por vários métodos que sejam necessários de acordo com o momento, as ilusões burguesas no campo do politicismo devem ser deixadas de lado.

Para finalizar, se apropriar da teoria revolucionária é tarefa fundamental de todo ativista de esquerda, e o nosso ponto de partida é o Karl Marx, e reproduzimos aqui o fechamento do manifesto comunista “Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos”.

Contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

www.forcaativa.blogspot.com

www.myspace.com/fantasmasvermelhos

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