A combativa e massiva Greve Geral de 1953

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Em março de 2014 completam-se 61 anos da Greve Geral de 1953 em São Paulo. A “Greve dos 300 mil”, como também é conhecida, iniciou-se com uma assembleia geral dos tecelões, em 10 de março, e teve a gradativa adesão de outras categorias, como metalúrgicos, madeireiros, gráficos e vidreiros. Essa importante luta do proletariado brasileiro perdurou por quase um mês e contou com a participação combativa de ¼ do operariado paulista.

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Manifestação operária em Sao Paulo, 1953

A teoria marxista do conhecimento demonstrou que o operário trabalha gratuitamente para o burguês uma parte de sua jornada; que o burguês se apropria, sem nada desembolsar, do valor criado pelo operário durante essa parte da jornada. Nesse sentido, a verdade é que não é o capitalista que paga o salário do trabalhador e sim o trabalho do operário que remunera sua própria força de trabalho e de onde é garantido o lucro do burguês.

A greve é o instrumento que a classe operária tem para enfrentar essas situações. É uma batalha na qual escancara a ganância dos grandes burgueses, que fazem de tudo para mantê-los trabalhando com o máximo de arrocho salarial. Nesse sentido, nesses dois últimos séculos de intensa luta de classes, a greve se configurou como uma grande escola para o proletariado mundial.

Uma importante luta que apontou enormes contribuições para as classes trabalhadoras brasileiras foi a greve geral de 1953. Iniciada nas indústrias do setor têxtil, rapidamente ela se alastrou a outros setores industriais, mobilizando um enorme contingente de trabalhadores.

As principais causas que levaram os operários a se levantar foram a alta inflação dos anos anteriores que estava acabando com o poder de compra dos seus salários e a crescente carestia de vida. O salário mínimo criado em 1943 havia sido aumentado apenas uma vez e de forma insuficiente.

Panelas vazias, manifestações cheias

As manifestações iniciaram-se em 18 de março, quando uma passeata chamada de “Panela Vazia” reuniu 60 mil, que caminharam da Praça da Sé até o palácio Campos Elísios, sede do governo do Estado, exigindo o reajuste salarial.

No dia 26, 60 mil têxteis iniciam greve geral em SP. Tem adesão de 300 mil, apoiada em comitês de empresa e num Comitê Intersindical de Greve. No dia 31 ocorreu uma batalha entre grevistas e a PM que durou 4 horas. Dezenas de policiais ficaram feridos e centenas de manifestantes foram presos.

No dia 09 de abril ocorreu uma manifestação com 20 mil operários do centro até o palácio do governo. A marcha foi reprimida com armas de fogo e 2 mil trabalhadores foram presos.

As várias comissões de fábrica criadas pelos comunistas ampliavam dentro das fábricas a presença dos sindicatos, dando-lhes uma configuração horizontal, rompendo na prática a estrutura sindical totalmente vertical e corporativa imposta pelo Estado. Foram anos de avanço da organização da classe operária. Suas reivindicações fundamentais se voltavam contra a fome e a carestia, mas, como já ficou demonstrado acima, não se limitavam ao plano econômico. Especialmente de 1950 a 1955, dirigidas pelos comunistas, as lutas operárias assumem um caráter classista.

Na prática também se registram importantes avanços, como a campanha pelo voto em branco nas eleições de 1950, uma linha mais classista para o movimento sindical e, apesar da pouca penetração no campo, são desencadeadas importantes lutas pela terra, unindo com as lutas dos posseiros como as de Porecatu, no norte do PR, que ocorriam já desde 1943 e a partir 1950 até 1953 desenvolveu-se como luta armada. Ou como a de Trombas e Formoso (norte de GO, de 1954 a 1957), onde passou a dirigi-las através da luta armada. Todo esse período é marcado por covardes assassinatos de militantes comunistas e massacres de ativistas pelos órgãos repressivos do Estado.

O Partido Comunista do Brasil (PCB), na clandestinidade, teve participação decisiva no auxílio à organização do movimento.Nomes de destaque foram os de Pedro Pomar e Carlos Marighella, que atuaram na articulação dos vários pontos onde se desenrolava a luta.Importantes lutas haviam emergido na direção do PCB, desde sobre a sua linha geral às linhas para o movimento de massas. Exemplo disto era o que se referia às manifestações, pois setores da direção partidária viam a necessidade de evitá-las para diminuir os enfrentamentos com a polícia.

Na verdade todo este novo impulso da luta das massas e divergências na direção do PCB fora produto de um processo de autocrítica das ilusões constitucionais, iniciado em 1948 e, ainda que incompleto, era um rechaço ao reformismo do período anterior de legalidade, recolocando o problema da luta pelo poder, em que pese suas insuficiências, através do caminho da luta armada, expresso no seu Manifesto de Agosto de 1950. Tal processo tanto lançou a luta operária por construir um novo sindicalismo classista e combativo, criando novas associações independentes do controle do Estado principalmente para a mobilização das massas e sua organização na luta econômica reivindicativa, mas não somente, quanto nova proposição para a luta camponesa contra o latifúndio. O PCB passara do mero discurso sobre a aliança operário-camponesa à sua construção efetivamente, através de se ligar com as massas de posseiros em sua luta, organizando-os em associações e Ligas e logo passando à luta armada.

A greve foi vitoriosa por ter alcançado seu objetivo econômico, com um aumento salarial de 32%. Mas também foi vitoriosa por criar laços de solidariedade entre os trabalhadores e parte da população. O sindicato dos médicos prestou assistência  gratuita aos grevistas, principalmente após os confrontos quase diários com a polícia. No bairro da Mooca, foi montada uma cozinha comunitária onde refeições eram elaboradas para serem distribuídas aos grevistas.

Caminho certo para o proletariado

A grandiosa greve desencadeada de março a abril de 1953 pelo proletariado paulista, que unificou trezentos mil operários de diversos e importantes setores da produção, apontou aos trabalhadores e ao povo brasileiro o caminho da luta decidida contra a exploraçãoda burguesia e seu poder. E o fez através de uma das suas formas mais importante que é a greve.Como bem afirmou o editorial da revista Problemas nº 48, publicada em agosto de 1953: “revelou o poderio cada vez maior da classe operária em nosso país e seu insubstituível papel de dirigente de todas as classes e camadas sociais interessadas no progresso político, econômico e social de nossa pátria, mostrando a todos, com a prova concreta dos fatos, com a experiência direta das massas, que esse caminho de luta unida, organizada e audaz é o único caminho que conduz à vitória”.

Um fato marcante de todo o processo foi que poucas semanas após a greve de SP, entraram em greve nacional cem mil trabalhadores da marinha mercante. A importância deste fato pode ser avaliada se recordarmos que a última greve dos marítimos de envergadura semelhante ocorreu em 1930. Os trabalhadores do mar deram uma excelente demonstração de unidade e combatividade, contribuindo consideravelmente para impulsionar o movimento operário brasileiro.

Ainda no editorial da revista Problemas intitulado “As Últimas Greves do Proletariado e a Tese da “Paz Social” é destacada a força do movimento grevista e suas lições: “Tanto a greve do proletariado paulista como a greve dos marítimos tiveram sua repercussão estendida muito além do terreno da luta sindical por aumento de salários. O ambiente político sofreu uma influência direta e profunda desses movimentos da classe operária, particularmente da greve dos trabalhadores paulistas, a maior já havida no país. O governo não pôde deixar de entrar em cena, obrigado a apresentar-se com a sua verdadeira face de defensor rancoroso dos patrões. O poder das classes dominantes sofreu um abalo nos seus alicerces.

Um dos fatos mais importantes, no que se refere à greve de São Paulo e à dos marítimos, é que ambas foram vitoriosas em suas principais reivindicações.

Os operários mostraram a sua força, o seu grau consciência de classe, que indiscutivelmente se vai elevando e que permitiu dobrar as manobras e as violências do governo de Vargas e Garcez. Grevistas de São Paulo e da marinha mercante lutaram com ardor e com êxito pela libertação dos seus companheiros presos, defenderam a liberdade de manifestação e a liberdade sindical, mostraram com os atos a sua decisão de se dirigir por si mesmos”.

Para os que hoje lutam pela transformação da sociedade, a Greve Geral de 1953 apresenta um vigoroso aprendizado. Somando-se às inúmeras batalhas já travadas pelos brasileiros, a greve dos 300 mil reforça a necessidade da luta para superar a consciência de categorias profissionais e mesmo da soma de categorias, ou seja, o corporativismo praticado pelas mafiosas centrais sindicais e estimulado pela propaganda e programas do gerenciamento do oportunismo petista. É fundamental a compreensão de que somos todos uma só e única classe de explorados e que as classes exploradoras exercem o poder de Estado através da lei, do parlamento, da justiça, da repressão policial-militar e das políticasdos gerenciamentos de turno a serviço do imperialismo, da grande burguesia local e dos latifundiários, para impor e manter sua dominação.

Estudar a fundo esse momento histórico nos auxilia na luta pela ruptura com o economicismo, suplantando o caráter meramente reivindicativo das lutas e sempre apontando a questão da luta pelo poder. Como sempre foram, as greves combativas serão importantes escolas da luta de classes e, desde o surgimento do nosso proletariado, passando pela vigorosa Greve Geral de 1953, até os dias atuais, tremula inconteste, por sempre constatada nas incessantes lutas travadas, a consigna “as massas fazem a história” como vigora a lei do povo revelada por Mao Tsetung: “lutar e fracassar, voltar a lutar e fracassar outra vez, tornar a lutar até a vitória final”.

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