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Há quatro anos, um crime chocou a cidade do Rio de Janeiro e o Brasil. No dia 7 de maio de 1999, o auxiliar de enfermagem Edson Izidoro Guimarães foi preso sob a suspeita de ter matado mais de cem pacientes do Hospital Salgado Filho, no Méier, bairro da zona norte carioca. Na ocasião foi mencionada a descoberta de uma máfia de empresas funerárias que atuava nos hospitais públicos do Rio de Janeiro. As suspeitas de que Edson Izidoro recebia comissões de funerárias para acelerar a morte de pacientes internados em estado grave mostraram a possibilidade de muitos outros casos semelhantes na rede pública de saúde. No plano instalado para a consecução dos negócios, a funerária pagaria ao funcionário do hospital que informasse e indicasse o nome da empresa toda vez que ocorresse um óbito na unidade.

Após sua prisão, o auxiliar de enfermagem confirmou em seu depoimento que chegava a receber até mil reais, caso a funerária conseguisse o serviço. “Eu ganharia cem reais por cada corpo, mas se tivesse seguro, poderia ganhar até mil reais”, revelou o assassino.

Injeção letal

Segundo depoimento de funcionários do Hospital Salgado Filho que denunciaram os assassinatos, a desconfiança de que Edson estava ligado com as mortes começou quando o enfermeiro foi transferido para a Unidade de Pacientes Traumáticos. Houve um aumento considerável nos óbitos durante os seus plantões. As vítimas do enfermeiro tinham sempre o mesmo perfil: vítimas de acidente de trânsito em estado grave. Edson Izidoro confirmou que aplicava uma injeção letal nas suas vítimas, contendo potássio em dose elevadíssima. Em uma de suas tentativas contra a vida de um paciente a injeção de potássio aplicada por Edson teve efeito contrário: o paciente tinha déficit da substância no organismo. “Fiquei feliz da vida. Afinal de contas, consegui salvar uma pessoa. Sou um religioso e sei que fiz o que fiz para salvar as pessoas”, afirmou com ironia o enfermeiro, para espanto dos policiais.

Edson ainda é acusado de ter matado muitos pacientes que respiravam com a ajuda de aparelhos, apenas retirando as suas máscaras e esperando o momento certo de avisar às funerárias.

No condomínio onde morava, em Jacarepaguá, o auxiliar de enfermagem era conhecido por ajudar vizinhos doentes, e sua prisão, na época, causou surpresa na vizinhança. Amigos da família que residiam no mesmo conjunto residencial consideravam Edson uma pessoa calma e prestativa. “Ele é uma pessoa alegre e sempre ajudava os outros. Ano passado, meu sobrinho foi atropelado e ficou internado por 20 dias. O Edson, que estava de licença do trabalho, revezava com a família no hospital”, contou Jorge Lúcio Batista, primo de consideração de Izidoro.

Os grandes estão livres

Preso desde 99 na carceragem da Polinter, Edson chegou a ser ameaçado várias vezes pelos companheiros de cela, como também acusou o proprietário de uma das maiores funerárias do Rio de Janeiro pelas ameaças de morte. Uma vez detido, o auxiliar de enfermagem fez questão de deixar claro o envolvimento de outras pessoas no esquema. O próprio Edson se classificou como um peixe pequeno. “Prenderam o peixinho, mas os grandes estão em liberdade. Tem gente de carrão, com casarão. E eu estou aqui, duro. Vou pagar pelo o que fiz, matei cinco pessoas, mas não participei de tráfico de órgãos, nem sei de nada sobre isso”, declarou em uma entrevista concedida um mês após a sua prisão.

Apesar de acusado da morte de 131 pessoas, em seu primeiro julgamento Edson Izidoro recebeu a sentença pelo assassinato de apenas quatro pacientes mortos no dia em que foi preso em flagrante. O Anjo da Morte, como ficou conhecido na época, alegou ter sido torturado pelos policiais para admitir a culpa, além de ser mal orientado pelos seus advogados na época da prisão. Porém, nada adiantou. A condenação somou 76 anos de prisão. No segundo julgamento, o auxiliar de enfermagem teve uma redução de sete anos da sua pena. O 3º Tribunal do Júri o condenou a 69 anos de reclusão em regime fechado sem direito a recorrer em liberdade.

Atualmente, Edson permanece nas celas da Polinter e, ao que tudo indica, o Anjo da Morte não abandonou a sua profissão — a de enfermeiro, bem entendido. Segundo policiais, o auxiliar de enfermagem é requisitado “sempre que um interno sente-se mal”. É ele quem presta os primeiros socorros na carceragem, a pedido dos próprios policiais e detentos. Além disso, Izidoro é considerado preso de bom comportamento e desfruta de “algumas regalias”. Por ser classificado como “faxina” — detento que presta serviço ou ajuda na prisão —, ele, que já dividiu espaço com outros 31 presos, ocupa uma cela com cerca de sete condenados, equipada com televisão, fogão, geladeira e colchões. Conforme informaram alguns policiais, esse tipo de tratamento é dispensado aos presos primários, de bom comportamento, sem nenhum tipo de ligação com facções criminosas.

Para o vereador do PT do B, João Cabral, presidente da CPI que na época apurou o caso, só mesmo a interferência e uma Comissão dos Direitos Humanos poderia tentar diminuir a pena de Edson Izidoro, mas o certo é que o assassino deve cumprir sua sentença e passar o resto da vida na prisão. “A diminuição da pena seria o fim da picada. No caso dele não pode se levar em consideração os direitos humanos. Afinal de contas, ele respeitou o direito de algum ser humano?”

A máfia das funerárias

Mas esse caso serviu para tornar pública uma prática que até então era muito comum nos hospitais do Rio de Janeiro e possivelmente do restante do país: a máfia das funerárias. Com a prisão de Edson Izidoro Guimarães foi confirmado um esquema no Hospital Salgado Filho, onde as empresas funerárias agiam livremente pagando comissões a quem indicasse seus serviços. As investigações mostraram que o auxiliar de enfermagem chegava a lucrar entre cem e mil reais, dependendo do tipo de morte. As mortes naturais rendiam menos que aquelas produzidas por acidentes de trânsito. Estas últimas envolviam um esquema de seguro.

Súbito, um desdobramento: foi descoberto que a ação da máfia das funerárias não se restringia ao Rio de Janeiro. A prefeitura de São Paulo também admitiu que sua população estava sendo vítima da ação criminosa de agentes funerários, não ficando provado que a máfia paulista chegasse ao extremo das similares no estado onde Edson operava. Na capital paulista, as funerárias “somente ofereciam comissões aos funcionários de hospitais que indicassem seus serviços”, dizem.

Sob a alegação de responder à ação das máfias, o prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, assinou no dia 1º de janeiro de 2001 o decreto nº 19.399, estabelecendo um esquema de rodízio diário entre as funerárias em hospitais da rede pública e privada. Esse decreto, que recorda os procedimentos de licitação pública, instituiu o Regime de Plantão de Atendimento das Funerárias, onde somente uma única empresa tem permissão para atuar na unidade de saúde, sendo proibida qualquer outra forma de agenciamento ou venda de serviços funerários por uma outra — naquele dia. O serviço social dos hospitais fica encarregado de encaminhar os familiares da pessoa que faleceu à sala do Plantão, inibindo assim a livre circulação de agentes funerários nas dependências do hospital, alegam. A escala das funerárias e suas respectivas unidades de atuação são definidas pela Secretaria Municipal de Saúde. O órgão publica até o décimo quinto dia útil de cada mês uma relação com a escala de plantão das funerárias com suas respectivas unidades de saúde.

À estranha timidez do decreto é adicionado um sofisticado elenco de exigências para que uma empresa possa ser prestadora desse tipo de serviço nos hospitais. Para uma funerária “ser habilitada a prestar seus serviços, ela deve estar em dia com as suas obrigações fiscais municipais e aderir ao Código de Ética e Auto-regulamentação do Setor Funerário, elaborado pela Associação Brasileira de Empresas e Diretores Funerários.”

Ausência de provas

O vereador João Cabral lamenta o fato de não se ter obtido provas suficientes para incriminar outros envolvidos na máfia das funerárias e deixa uma dúvida, com sombras de certeza: “Edson Izidoro trabalhava sozinho?”

Segundo o vereador, todas as provas obtidas pelo trabalho da CPI foram enviadas para a Polícia Civil e anexadas ao processo para ser julgado. O envolvimento de outras pessoas no caso ficou claro, mas a ausência de provas que impediu outras acusações não se tornou no único obstáculo. João Cabral explicou que, como as reuniões da CPI e os depoimentos eram abertos ao público, foi muito difícil evitar que as testemunhas se sentissem acuadas enquanto depunham. “Teve gente que chegou a urinar de medo”, possivelmente sob os olhares de algum outro envolvido nos crimes.

A falta de provas e as ameaças dificultaram um melhor julgamento, mas o vereador João Cabral fez uma segunda conclusão lógica no decorrer das investigações: “O Edson Izidoro foi condenado somente porque a imprensa ficou em cima do caso, cobrando das autoridades explicações. Caso isso não ocorresse, tenho minhas dúvidas se o Edson seria condenado e pagasse pelos assassinatos”.

A prisão do auxiliar de enfermagem serviu para alertar um esquema, até então, muito comum nos hospitais do Brasil inteiro. As atividades terceirizadas do genocida, pelas quais ele alegou receber pagamentos, serviram para revelar a ação da máfia das funerárias (com atuação que não se limita ao Rio de Janeiro), aquela que investe na eliminação de pacientes para obter uma renda extra. Edson continua sustentando que é peixe pequeno no rentável negócio de humanos pré-abate; uma espécie de extrativismo da vida da gente pobre, o enorme contingente que busca um “hospital” somente quando as dores se tornam insuportáveis. E se deixa de respirar, o sistema apenas notifica o fato ao parente, porque nada de mais aconteceu.

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