RJ: o povo diz não à farra da Fifa

A- A A+
http://www.anovademocracia.com.br/133/10a.jpg
Manifestação em Copacabana no dia da abertura da Copa, 12 de junho

Desde que começou a Copa da Fifa, no Rio de Janeiro, assim como em todo o país, além da rapina, do estado de exceção e do extermínio de jovens nas favelas, os protestos durante os dias de jogos também têm sido uma rotina no dia-a-dia dos cariocas. No dia 12 de junho, dia da abertura do famigerado evento esportivo, milhares de pessoas participaram da manifestação “Não vai ter Copa! Fifa Go Home!” em Copacabana, Zona Sul do Rio. O ato convocado pela Frente Independente Popular (FIP-RJ) aconteceu no mesmo momento em que ocorria a ‘Fifa fan fest’ na praia de Copacabana. Os manifestantes percorreram a orla com faixas, cartazes e cantando palavras de ordem contra o megaevento, contra a repressão policial e por melhorias nas condições de vida do povo brasileiro, como saúde e educação.

No fim do ato, próximo ao “centro de mídia”, abrigo de dezenas de emissoras de TV do mundo todo, um policial teria agredido a integrante do Coletivo Mariachi, Nadine Carega. Outro membro do coletivo, o redator Wilson Ventura Júnior, saiu em defesa de Nadine e foi literalmente linchado publicamente por vários policiais. Wilson ficou com marcas por todo o corpo e inúmeras escoriações no braço. Como se não fosse o bastante, ambos foram detidos e autuados por “resistência” e “desacato à autoridade”. Um vídeo divulgado pelo Coletivo Mariachi está disponível na internet e mostra o exato momento da prisão.

— Esses caras são covardes. Estavam agredindo uma menina e eu só a protegi com o braço. Eles viram que eu sou mais forte que todos eles e vieram em bando, porque sabem que sem aquela farda nenhum ali durava dez segundos na minha frente. Gente que bate em mulher, que ataca em bando, já dá pra imaginar de que tipo de gente estamos falando. Eu nem quero que fotografe minhas marcas no braço, até porque isso aqui não é nada. No próximo ato, estarei lá com mais disposição ainda. Pelo menos apanhei para defender minha companheira. Valeu a pena — disse Wilson à reportagem de AND.

Na tarde do dia 15 de junho, foi a vez do Rio de Janeiro sediar o seu primeiro jogo na Copa do Mundo, no Maracanã, entre Bósnia e Argentina. Obviamente, as massas não deram descanso para o confuso esquema de segurança do evento e marcaram uma manifestação com a proposta de tentar chegar ao estádio. O ato saiu da Praça Saens Pena, na Tijuca, e seguiu em direção ao estádio no início da noite, uma hora antes do início da partida. No meio do caminho, uma barreira de policiais atacou o protesto com bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral. Os manifestantes não reagiram e seguiram por uma rua paralela. O ato mudava de trajeto a todo o momento, confundindo a repressão. Depois de ziguezaguear por inúmeras ruas da Tijuca, manifestantes conseguiram chegar a 200 metros do Maracanã, onde novamente foram atacados pela polícia.

http://www.anovademocracia.com.br/133/10b.jpg
Manifestação na Tijuca em 15 de junho

Dessa vez, as massas não recuaram e mesmo em menor número, responderam à altura com pedras e coquetéis molotov. Uma das bombas incendiárias atingiu o núcleo do bloco policial, obrigando as tropas a recuar. Nesse momento, manifestantes se retiraram em direção à Praça VII. Na Avenida 28 de Setembro, em Vila Isabel, um policial da Tropa de Choque em uma motocicleta se aproximou de um grupo de manifestantes, sacou sua arma e disparou no sentido deles, sem se incomodar com as câmeras. Momentos depois, um manifestante abordou nossa equipe dizendo que havia sido atingido no tornozelo pelos estilhaços do disparo.

Logo em seguida, um policial a paisana em um veículo Wolksvagen Fox sacou a sua arma e ameaçou um grupo de manifestantes. Em seguida ele saiu no carro conduzido por outro homem, atirando o veículo contra a multidão e disparando tiros de pistola aparentemente para o alto.

Os dois casos foram registrados de perto pela reportagem de AND e, graças ao vídeo publicado no portal Youtube consecutivamente, ambos os canastrões foram afastados das ruas. O policial do Batalhão de Choque que disparou para frente contra manifestantes se apresentou voluntariamente ao seu comando e está sendo alvo de uma sindicância. Já o policial que ameaçou manifestantes — inclusive, um membro de nossa equipe — e se recusou a se identificar, é inspetor de Polícia Civil e foi identificado como Luiz Amaral. O ato terminou na Praça Noel Rosa, onde PMs fizeram um bloqueio e impediam a passagem até de moradores de Vila Isabel.

Já na tarde de domingo, dia 23 de junho, outro dia de jogo no Maracanã, aconteceu em Copacabana outra edição do ato “Não vai ter Copa! Fifa Go Home!”. A manifestação saiu da estação de metrô Cardeal Arcoverde e seguiu em direção à orla. No local, já esperavam pela passagem da marcha de outras 400 pessoas que participavam do ato “A festa nos estádios não vale as lágrimas nas favelas”. Mobilizado por várias organizações de defesa dos direitos do povo nas favelas, o ato desceu o morro e tomou o asfalto para dar o recado: “Chega de chacina! Polícia assassina!”. Uma grande faixa da Frente Revolucionária de Defesa dos Direitos do Povo (FRDDP) sustentava a palavra de ordem “Não votar! Abaixo a farsa eleitoral”, deixando registrado o fim das ilusões dos movimentos populares combativos com a farsa de democracia existente no país.

A manifestação chegou ao Morro do Cantagalo onde lideranças fizeram intervenções condenando a violência policial e manifestantes entoaram palavras de ordem contra as Unidades de Polícia Pacificadora e a Copa do Mundo.

Depois do ato, o “Homem-Aranha”, ativista conhecido por se vestir como o personagem dos quadrinhos, foi preso arbitrariamente por policiais simplesmente porque se recusou a entregar sua faixa a um dos agentes de repressão. Para algemá-lo e prendê-lo, PMs usaram de extrema violência e quase quebraram o braço do homem, que acabara de ser submetido a uma cirurgia. Nem Batman, nem Homem-Aranha. Ninguém escapa da violência da polícia do Rio de Janeiro.

E não para por aí. Segundo os movimentos populares mais combativos, o embate está só começando e várias outras manifestações estão por vir. No dia 28 — dia seguinte ao fechamento dessa edição — um novo ato estava programado para acontecer no bairro da Tijuca, vizinho ao estádio do Maracanã.

Os vídeos produzidos por AND sobre os protestos contra a Copa no Rio podem ser vistos em nosso canal no Youtube.

Endereços


Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
CEP: 20.921-060
Tel.: (21) 2256-6303

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Tel.: (11) 3104-8537

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

EXPEDIENTE

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas
Fausto Arruda 
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto 
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond 
Sebastião Rodrigues
Vera Malaguti Batista

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja

A imprensa democrática e popular depende do seu apoio

Leia, divulgue e conheça. Deixe seu nome e e-mail para se manter informado
Please wait