“Cada momento representa uma luta, um filme”

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Como parte da campanha de financiamento coletivo do filme Livres, AND foi à casa do cineasta Silvio Tendler para entrevistá-lo ao vivo. A entrevista foi exibida na internet e contou com a participação de quase 400 pessoas. Silvio foi um dos cineastas que participou do projeto Carceragem Cidadã, na 52ª DP, em Nova Iguaçu. Na ocasião, Tendler exibiu um de seus filmes e discutiu-o com os presos, gerando grande reflexão e debate entre os detentos. Confira agora alguns trechos dessa excelente entrevista.

AND: Como foi sua participação no projeto Carceragem Cidadã?

Tendler: O Orlando Zaccone me chamou para exibir o Encontro com Milton Santos: O mundo global visto do lado de cá para 150 presos lá na carceragem da Polinter de Nova Iguaçu, onde ele estava fazendo esse projeto de cinema com os presos. Eu confesso que fiquei muito tenso, pois tive que ficar lá durante toda a projeção. Eu te confesso um certo medo, pois é um outro mundo com uma realidade cruel e toda uma linguagem corporal própria. Depois da projeção, o Zaccone perguntou quem queria falar em nome do grupo e o primeiro a se levantar foi um rapaz evangélico. Ele abriu um debate muito interessante, com perguntas muito pertinentes. Isso porquê o músico Marcelo Yuka já fazia um ateliê de produção audiovisual com eles e, além disso, o Zaccone estava dando uma grande liberdade para que os presos estudassem e adquirissem conhecimento. Eu gostei muito de participar e exibir um filme meu que considero tão importante politicamente.

AND: Por falar nisso, como era fazer cinema político no passado?

Tendler: A gente trabalhava com película naquela época. Não existia nada digital. As câmeras eram muito pesadas. Eu sou da geração dos anos 60, quando as películas já eram de acetato, mas desde 1895 que as películas eram de nitrato, que era um material extremamente inflamável. O cinema feito durante a 2ª guerra foi todo gravado em 16 milímetros. Havia câmeras menores com rolo de 35mm, mas a duração dos filmes era muito curta. Depois surgiu o super 8mm, câmeras menores e mais portáteis. Nós usávamos isso até os anos 80, quando começamos a trabalhar com fita. Depois, nos anos 90 chegaram os Mini-DVs e a tecnologia digital com toda a sua praticidade, equipamentos e tecnologias de armazenamento portáteis.

Tudo ficou mais fácil, mais leve e mais barato a partir de então. Para se ter uma ideia, na decada de 80 nós pagávamos 120 dólares em uma lata de filme de 10 minutos. E se a entrevista não ficasse boa você jogava a lata fora e comprava outra. Fora a revelação e copiagem. Antes era tudo manual, o que fazia do processo algo muito caro. Era bonito e gostoso, mas era caro. Eu já cheguei a trabalhar com câmera de 400 mil dólares. Hoje você filma com um celular de 400 pratas, instala um programa gratuito no computador e monta um filme. Um ótimo filme que mostra esse processo é o filme ‘O Homem e a Câmera’. Eu tenho muito orgulho de ter vivido esse tempo da película, mas não tenho saudades, não.

AND: E o jornalismo popular, ou “midiativismo” como estão chamando atualmente?

Tendler: Eu comecei a fazer cinema em 1964, com 14 anos e já peguei pela proa o golpe militar. Fazer cinema popular naquela época era muito difícil. Naquele tempo eu fiz o filme O marinheiro João Cândido, sobre a Revolta da Chibata. Eu fui a última pessoa a entrevistá-lo e, na ocasião, nossa equipe sofreu uma pressão dos militares antes da montagem. Com medo, a pessoa que guardava os filmes queimou tudo. Eu só tenho uma foto desse filme. Foi um filme que eu filmei, mas não fiz. Isso não foi uma coisa que aconteceu só comigo. Eu cito, por exemplo, o Olney São Paulo, que fez o Manhã Cinzenta sobre o movimento de 68 e foi preso e barbaramente torturado na prisão. Havia naquela época muitos cineastas envolvidos na luta política. Havia uma convergência entre o cinema e a política. Joaquim Pedro, por exemplo, era um cineasta que fazia parte de partido político. Se hoje tem jornalista, midiativista sofrendo repressão, sendo citado em inquéritos, imagine o que sofríamos naquela época.

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AND: E como você enxerga o trabalho audovisual dos coletivos de comunicação popular de hoje?

Tendler: Em 2013, vocês cumpriram um papel fundamental de colocar com muita pontualidade as notícias dos protestos na internet dando uma outra perspectiva do que estava acontecendo. Na nossa época nós fazíamos os cinejornais, mas não com a urgência e a emergência com que vocês produzem notícia hoje em dia. Até porque nós não tínhamos a tecnologia como nossa aliada, como vocês têm hoje. Nós estamos fazendo um programa ao vivo agora. Isso era um sonho naquela época. Imagine um mundo sem computador, sem internet, sem celular e sem câmeras digitais. Imagine viver em um mundo sem televisão. Até meados dos anos 40 toda a notícia em vídeo era dada pelo cinema. Eram cinejornais feitos por empresas inglesas, americanas e de vários outros países. As imagens eram filmadas, reveladas, copiadas e enviadas para o mundo inteiro. Ou seja, imagine quanto tempo demorava para nós vermos as imagens da Batalha de Stalingrado! De qualquer forma, há tempos existem pessoas como vocês, que vão para o campo de batalha com o objetivo de mostrar o que está acontecendo para além das análises superficiais e tendenciosas dos jornais.

AND: E como é fazer cinema para você?

Tendler: Bom, vocês estão conhecendo agora esse processo dificílimo que é, por exemplo, captar recursos para fazer cinema político hoje no Brasil. Mas eu acho que cada filme é uma construção, cada filme tem sua particularidade, sua dificuldade. Não dá pra dizer, por exemplo, que eu tenho um filme predileto entre os meus. Eu tenho muito orgulho das coisas que eu faço e cada momento é um momento. Cada momento representa uma luta, um filme.

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