“Assim como eu matei o seu filho, eu posso matar você”

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Pai e mãe de Eduardo pretendem voltar para o Piauí após o assassinato cruel de seu filho

No dia 17 de abril, a reportagem de AND foi ao Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio, para acompanhar as reconstituições das mortes do menino Eduardo de Jesus, de 10 anos, morto com um tiro na cabeça no dia 4 de abril; da aposentada Elizabeth de Moura Francisco, de 41 anos, morta no dia anterior; e do capitão da PM Uanderson Manoel da Silva, de 34 anos, que, ao que tudo indica, fora assassinado por outros policiais da UPP que não aceitavam sua linha de comando. Todos vítimas do conturbado processo de militarização das maiores favelas do Rio de Janeiro.

Na ocasião, nossa equipe pôde conversar com a dona de casa Terezinha Maria de Jesus, mãe do menino Eduardo. Como AND noticiou em sua última edição, o menino brincava na porta de casa quando foi atingido na cabeça por um tiro de fuzil disparado por um policial militar. O caso teve grande repercussão e causou revolta entre os moradores do Complexo do Alemão.

No dia da morte de Eduardo, após a perícia feita pela Polícia Civil, moradores protestaram em diversas partes do complexo de favelas. O mesmo aconteceu nos dias seguintes, quando vários protestos foram organizados por moradores nos acessos ao Alemão. Em alguns deles, a polícia agiu com violência para dispersar os manifestantes. Após o assassinato, a família de Eduardo se dirigiu a sua terra natal, o estado do Piauí, onde a criança foi sepultada. Os pais e irmão de Eduardo só regressaram ao Rio para a reconstituição do crime. Nossa reportagem aproveitou a oportunidade para conversar com Terezinha e com o pai do menino, José Maria Ferreira de Sousa.

— Eu não tenho alegria nenhuma mais na minha vida. Nada vai trazer meu filho de volta. Nem dinheiro, indenização, nada. O mínimo que eu estou buscando é justiça e eu vou aonde for para lutar por justiça para os assassinos do meu menino. Muito triste a maneira como ele morreu, sentado na porta de casa brincando. Olha ali os pedaços da massa encefálica dele. Os pedaços da cabeça do meu filho voaram aqui dentro, na sala. Ele rolou pela escada e ainda quebrou um braço. Eu nunca imaginei que meu filho pudesse morrer dessa maneira tão cruel. Eu só vou ter alívio no meu coração quando ver esse assassino atrás das grades. Eu vou lutar por isso, custe o que custar — avisa Terezinha.

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Perguntada sobre sua reação ao ver seu filho morto, Terezinha não poupou palavras e disse ter agredido o assassino de seu filho, que não pestanejou em ameaçá-la de morte apontando-lhe o fuzil.

— A minha primeira reação naquele momento foi a reação que qualquer mãe teria: eu agarrei o policial pelo pescoço e agredi ele. Eu falei ‘você matou meu filho seu desgraçado’. E ele me respondeu: ‘Assim como eu matei o seu filho, eu posso matar você’. Ele colocou o fuzil na minha cabeça e eu disse para ele que ele podia me matar, que ele já tinha levado meu filho e que minha vida não fazia mais sentido. Um outro policial o segurou e não permitiu que ele puxasse o gatilho. Mas com certeza ele teria me matado também. Foi horrível. Essa dor nunca mais vai passar — lamenta.

A mãe de Eduardo disse que seu filho era um aluno exemplar e que suas professoras não poupavam elogios ao falar do dia-a-dia dele no Ciep Maestro Francisco Mignone, em Olaria.

— Meu sentimento é de muita dor e revolta. Eu não tenho palavras. O Eduardo era uma criança muito boa. Passava o dia todo no colégio, em horário integral. Ele participava de um projeto que se chama Anjos do Bem, no qual ele fazia aulas de fotografia. Então ele não era bandido, como disseram. Nem filho de bandido, porque o meu marido trabalha de carteira assinada. Meu filho era uma criança adorável, todas as professoras dele o elogiavam, a tia Camila, a tia Bianca, a diretora do colégio, a Adriana. Ele era muito querido. Quiseram incriminá-lo de qualquer jeito, mas eu não vou permitir que eles façam isso. Os verdadeiros bandidos são eles. Bandidos fardados — acusa a dona de casa.

Terezinha também questionou a repercussão de fotos e textos nas redes sociais acusando seu filho de ser um traficante. Figurando entre os precursores dessa onda de mentiras e desinformação, estava o diretor da ONG AfroReggae, José Júnior — que se projetou após a chacina de Vigário Geral, em 1993, com um discurso contra a violência policial, mas com o passar do tempo revelou-se um grande reacionário, queridinho da Rede Globo e garoto propaganda das mais sanguinárias tropas de elite da polícia brasileira. Cheio de “autoridade”, José Júnior publicou em suas redes sociais que “sabia que o menino era traficante”, informação amplamente contestada nos dias seguintes até mesmo pelos veículos do monopólio dos meios de comunicação, habituados a criminalizar a pobreza e passar a mão na cabeça da polícia.

— Antes de implantarem a UPP aqui, tinha tiroteio, mas só de vez em quando. Hoje é todo dia e pessoas inocentes estão morrendo. Eles tratam o povo igual lixo, pensam que todos nós somos bandidos, mas eles estão muito enganados. Bandidos são eles que fazem isso com pessoas de bem, com uma criança indefesa. Do jeito que eu estou vendo, isso não vai mudar, porque só piora a cada dia. Corre muito dinheiro público nessa pacificação, dinheiro nosso, dos nossos impostos, dinheiro mal aplicado, mal administrado, que poderia ser usado para trazer coisas realmente boas para o Complexo do Alemão — afirma Terezinha.

— Antes de acontecer isso com o meu menino, eu via as notícias na televisão de pessoas assassinadas pela polícia, mas nunca imaginei que fosse acontecer com ele, principalmente com o Eduardo, meu filho caçula. Mas você pode ter certeza que, custe o que custar, eu vou lutar por justiça para esse bandido fardado, safado, pilantra. Ele vai pagar. Eu queria ficar cara-a-cara com ele para falar duas coisas. Primeiro, para perguntar se ele é pai e, segundo, para dizer a ele que eu nunca vou perdoá-lo, pois um monstro como ele não merece o meu perdão — condena Terezinha, sentada o tempo todo ao lado de seu marido.

— Depois que isso tudo acabar eu vou me mudar definitivamente para o meu Piauí, porque a nossa vida aqui acabou. Nossa vidinha simples aqui no Rio, cuidando da casa, meu marido levantando todo dia às 4h da madrugada para ir trabalhar; isso tudo acabou. O mais difícil para nós é acreditar que isso tudo está acontecendo. Acreditar e entender — conclui.

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