PT/Lula: o esboroar de um mito

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O mito é uma narrativa que, mesmo baseada em fatos reais, os distorce, transmutando-os ao surreal, mas, como principalmente ocorre, origina-se em fatos, situações e personagens fantasiosos. É fruto da ignorância e ingenuidade, sustentando-se na aparência das coisas e fenômenos. Neste aspecto a mentira, a farsa e a fraude têm a mesma base do mito. Fundado há trinta e cinco anos como um partido político, o PT, que nasceu sob signo da mentira sobre o qual erigiu uma torre mitológica a qual assistimos, hoje, após ter-se convertido em seu contrário, pelo menos do que aparentou ser, desmorona-se e deverá sobreviver como uma entidade qualquer.

Sua criação foi estimulada por Golbery do Couto e Silva, o bruxo do regime militar, e pelo monopólio da imprensa para impedir a influência de Leonel Brizola e dos comunistas entre as massas. Partiu de uma grande mentira na medida em que sua base inicial foi a pequena-burguesia por sua parcela de intelectuais (particularmente os do CEBRAP, instituição à época financiada pela Fundação Ford) e funcionários públicos, cujos quadros oriundos da igreja católica, do trotskismo, de ex-guerrilheiros arrependidos e sindicalistas treinados pelos institutos ianques para “desenvolvimento do sindicalismo livre” (IADESIL¹, ligado à central sindical ianque AFL-CIO² e vinculada à CIOLS³). Aglomerados sob o guarda-chuva denominado Partido dos Trabalhadores, esses setores tinham por seu porta estandarte um líder fabricado de encomenda: o ex-operário metalúrgico, preparado pela igreja e pelos já referidos cursos ianques ministrados por programas do Departamento de Estado do USA, ademais de ser da estrita confiança das montadoras, o senhor Luiz Inácio da Silva.

Lula iniciou a carreira no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo pelas mãos do conhecido pelego Paulo Vidal. Galgou os principais cargos. Deu o pulo do gato no sindicalismo quando o descontentamento operário partia para a luta aberta nos principais centros industriais do país e o regime militar, já em crise, não podia mais conter a revolta popular e temia o surgimento de fortes lideranças comunistas entre os operários. Ele pegou carona na greve dos operários da Saab-Scânia, a primeira mais importante em São Bernardo, em 1978, e liderada pelo operário Gilson Menezes.

Daí foram mais algumas greves em que os trabalhadores foram habilmente enganados e vendidos às montadoras. Enquanto a maioria das lideranças grevistas era aprisionada e satanizada como comunista, subversiva e baderneira, o nome de Lula foi para as manchetes dos grandes jornais, entrevistas dos canais de televisão e capa da revista Veja. Eis aí o mito Lula.

Depois de três tentativas de disputar o gerenciamento do velho Estado brasileiro, Luiz Inácio, após ajustar o seu discurso ao gosto do imperialismo, da grande burguesia e do latifúndio (e o PT ter expurgado grupos tidos à sua esquerda), chega, enfim, ao posto de gerente de turno do velho Estado brasileiro. E chega aplicando as imposições do FMI e do Banco Mundial embrulhadas em mirabolantes promessas de “fome zero”.

Em junho de 2003, o jornal AND n° 10 trazia a manchete ‘Governo Lula é uma fraude’ e afirmava em seu editorial:

“É inegável que ao poder não falta espaço para manobrar, simular prestígio e retocar imagens com programas de impacto. Por isso, é tido como imprudente acusar um governo que conseguiu reunir toda a oligarquia latifundiária e burocrática e tem o aval do imperialismo ianque e europeu. O povo, estarrecido, observa a traição.”

Num longo artigo publicado na mesma edição, ‘O governo petista, a república de Sarney e a democracia’, aprofundamos a denúncia das falsas reformas urdidas pelo oportunismo: “O cenário político oficial do país, sob a nova gerência, segue seu curso de sempre, imerso na politicalha do toma lá dá cá. Desta vez, no mundo de negócios de todo tipo e após a anistia e acobertamento dos crimes de Fernando Henrique Cardoso, destacam-se o encobrimento das investigações do caso ACM, distribuição de cargos a vários partidos e favores a políticos. No imediato, tudo isto se destina à aprovação do pacote de reformas enviadas ao Congresso pelo presidente da República. Por outro lado, o grande interesse e empenho com que o monopólio dos meios de comunicação têm se manifestado e batalhado pela aprovação na íntegra e no prazo mais imediato possível do pacote de reformas, é por si só revelador do seu caráter reacionário e antipovo”.

Por sua atualidade, citaremos um longo trecho do artigo no qual deixamos evidente o compromisso petista com a velha democracia, ao mesmo tempo em que apresentamos um projeto de programa para a Revolução de Nova Democracia:

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As reformas petistas e a revolução democrática

“É preciso ressaltar que nos deparamos hoje com algo realmente inusitado: enquanto a chamada ‘esquerda’ no poder arma as mais sinistras alianças para aprovar no Congresso reformas que lesam brutal e covardemente as massas trabalhadoras e os aposentados e pensionistas, a classe operária dos países imperialistas entram em luta, cada vez mais radicalizada, contra as tentativas de retirar-lhes direitos. (...) E nossos eminentes representantes do governo do Partido dos Trabalhadores cacarejam sobre a justeza e necessidade de tais reformas.

Além do significado prático imediato, cujo impacto sobre a vida do povo brasileiro empurra a situação social num plano inclinado para o caos feito de desemprego, miséria, fome, doenças e criminalidade a níveis explosivos, as ‘reformas’ do governo petista compõem também um quadro da estratégia de manutenção do poder das classes dominantes reacionárias. Isto se dá na medida em que elas buscam, atendendo aos interesses do capital financeiro em primeiro lugar e das demais classes, suas serviçais, dar funcionalidade e operacionalidade ao velho e podre Estado burguês-latifundiário, questão central e vital para a manutenção e sobrevida de todo esse sistema em decomposição.

Não passam do mais crasso oportunismo as posições de quem advoga disputar o governo com a burguesia. Esta tem sido exatamente a marca do oportunismo no movimento popular brasileiro ao longo de décadas. Assim passaram-se os anos com as direções oportunistas tentando ganhar para esquerda os governos de Getúlio Vargas, de Juscelino, de Jango terminando tudo em derrotas contundentes para as massas e para o caminho democrático. Passado o gerenciamento militar, o mesmo se tentou com o governo de Sarney. O caminho democrático só pode se desenvolver de forma independente, como política do proletariado, baseado na aliança operário-camponesa para construir uma mais ampla frente única que inclua a pequena-burguesia e setores da média burguesia. O caminho democrático só é possível de se desenvolver e se realizar plenamente pela via da democracia revolucionária que não tem nenhuma identidade com este velho e podre Estado em decomposição. Ao contrário, ele só pode ser concretizado via a destruição deste velho Estado e na construção de um novo, que seja expressão de uma verdadeira e autêntica República Democrática, sustentada diretamente nas massas trabalhadoras.

Dado às condições de ofensiva geral contrarrevolucionária mundial encabeçada pelo imperialismo ianque e como parte dela no país, o triunfo eleitoral do oportunismo, o caminho democrático ainda encontra-se na defensiva. Após ter sofrido duros golpes durante o gerenciamento militar, não pôde desenvolver-se estorvado pela existência do radicalismo pequeno-burguês dos anos 80, que do oportunismo de ‘esquerda’ derivou-se em oportunismo de direita, desembocando no seu triunfo eleitoral de 2002. No entanto, as bases que determinam a atual ofensiva contrarrevolucionária geral no mundo e no país, é a formidável crise de todo o sistema capitalista que ameaça desbordar. Tais bases são ao mesmo tempo, no decorrer dos próximos anos, as condições objetivas que empurrarão cada vez mais as massas para a luta e criam grandes possibilidades e perspectivas para o caminho democrático desenvolver-se.

No país cresce sem cessar o movimento camponês e a luta em seu interior entre seguir o oportunismo ou o caminho revolucionário. As massas populares urbanas vão recompondo suas organizações e generalizam suas lutas em defesa de seus direitos. No movimento estudantil e sindical se abrirão inevitavelmente ferrenhas lutas políticas contra o oportunismo, em particular por causa direta da política econômica pró-imperialista e suas reformas. Será do seio das lutas mais radicalizadas e autenticamente classistas contra todo este estado de coisas e por um novo poder que se forjará a direção proletária capaz de retomar o caminho democrático e levá-lo ao seu triunfo, o que não tem a menor possibilidade de ocorrer da noite para o dia e exigirá muitos anos. De forma geral, a crise do Estado em decomposição, a continuidade nos fatos da sua relação com a sociedade, a manutenção da politicalha de sempre, da corrupção e violência contra o povo como uma frustração sobre as promessas de esperanças do atual governo, lançarão por terra as últimas ilusões sobre a farsa que representa todo o sistema legal dessa velha república da fome e miséria.

O caminho democrático e seu Programa Geral

O caminho democrático avançará sem dúvidas e em meio de mil e uma dificuldades e grandes desafios. A luta pela construção da Frente Única Revolucionária depende para seu pleno desenvolvimento de uma direção revolucionária proletária, capaz de aplicar uma linha justa e correta para seu estabelecimento e desenvolvimento. A frente única de classes revolucionárias abarca o conjunto das massas populares, maioria esmagadora da população formada por operários, trabalhadores urbanos em geral, camponeses e assalariados do campo, servidores públicos, estudantes e intelectuais, pequena burguesia, pequenos e médios proprietários do campo e da cidade. Tal direção deve partir da concepção da luta por todos os meios guiados por um programa cujos eixos gerais podem assim ser definidos:

  1. Estabelecimento da República Popular do Brasil em todo o país, como frente de classes revolucionárias, baseado na aliança operário-camponesa, sob hegemonia do proletariado e direção de seu partido revolucionário. República Popular de Nova Democracia apoiada nas massas armadas e organizadas na Assembleia Nacional do Poder Popular;
  2. Varrer a dominação imperialista, principalmente ianque e todas as demais que oprimem nosso povo e saqueiam a Nação, confiscando todas as transnacionais — empresas e bancos -, e cancelar a dívida externa;
  3. Confiscar e nacionalizar todo o capital burocrático estatal e privado, todas suas propriedades, patrimônios e todo tipo de grande capital e grande propriedade;
  4. Destruição de todo o sistema latifundiário e confisco de todas suas terras e propriedades, entregando-as aos camponeses sem terra ou com pouca terra, segundo critérios do programa agrário que define as parcelas por região do país, todo apoio creditício e estímulo à uma crescente e massiva cooperação, concluindo a revolução agrária;
  5. Respeitar e assegurar a propriedade da burguesia nacional (média burguesia), na cidade e no campo;
  6. Cancelar todos os acordos internacionais lesivos ao país e ao povo e estabelecer uma nova política de relações internacionais, baseada no direito de igualdade das nações e povos e no internacionalismo proletário;
  7. Promoção de uma nova democracia, nova economia, nova cultura, que integre a economia nacional e a desenvolva reconhecendo as grandes diferenças e problemas regionais; estabilize as condições de vida das amplas massas populares do campo e da cidade com emprego para todos, grandes planos de habitação, saneamento e erradicação de doenças, tudo centrado na elevação cultural das massas, através da mobilização e educação vinculadas à prática social da luta pela produção, luta de classes e investigação científica, guiadas pela ideologia científica do proletariado, para destruir a cultura imperialista e levar a cabo a conformação nacional;
  8. Defender e consolidar os direitos e conquistas do proletariado, das massas populares e das minorias indígenas,assegurando real igualdade de direitos aos negros e às mulheres numa Declaração Geral dos Direitos do Povo. Respeitar a liberdade de consciência religiosa, em toda a sua amplitude, de crer e não crer;
  9. Mobilizar permanentemente as massas populares sob direção do proletariado para concluir a revolução democrática e passar ininterruptamente à revolução socialista, desenvolvendo nela sucessivas revoluções culturais proletárias;
  10. Como parte da revolução mundial, apoiar enérgica e decididamente a luta do proletariado internacional, das nações oprimidas e dos povos de todo o mundo, combatendo sem tréguas o imperialismo, o oportunismo e toda a reação mundial.

Este programa deve ser compreendido como objetivos a serem perseguidos e realizados ao longo do processo revolucionário democrático e completados cabalmente com o triunfo total da revolução. Para levar adiante a luta guiada por tal programa deve-se destacar um programa de luta imediato como programa agrário revolucionário e de defesa dos direitos do povo, programa democrático e anti-imperialista.

Conclui-se, pois, que a República Democrática no Brasil só poderá se estabelecer de fato enquanto República Popular, república de nova democracia, cuja sustentação, consolidação e desenvolvimento só poderão ser assegurados com a passagem imediata e ininterrupta à construção socialista.”

_____________________
Notas:

1 IADESIL (Instituto Americano de Desenvolvimento do Sindicalismo Livre) – responsável pela doutrinação da CIOLS, por onde passaram inúmeros dirigentes sindicais brasileiros que geriram o sindicalismo estatal em nosso país, entre eles, Luiz Inácio, o Lula.

2 AFL-CIO (American Federation of Labor — Congress of  Industrial Organizations) – a AFL surge em 1955 e é a maior central sindical do USA, enquanto a CIO, outra central do mesmo país, é menos expressiva. Essa junção sindical jamais escondeu suas origens contrarrevolucionárias e seu papel intervencionista.

3 CIOLS (Confederação Internacional de Organizações Sindicais Livres) – organização sindical impulsionada pelo imperialismo para fazer frente à crescente influência da Federação Sindical Mundial organizada e dirigida por sindicalistas comunistas e democráticos de todo o mundo. A CIOLS foi organizada por agentes dos serviços de inteligências dos países imperialistas para treinar sindicalistas no anticomunismo, infiltrar as organizações sindicais democráticas, sabotar a luta dos trabalhadores em defesa dos seus direitos e defender o capitalismo.

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