O rei do baião recebe nota máxima na universidade

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Noventa e um anos depois do seu nascimento, e quase 15 depois da sua partida para a eternidade, o pernambucano de Exu, Luiz Gonzaga do Nascimento, também chamado de Lua, Gonzaga e Gonzagão, entra na universidade e dela sai com nota dez três vezes. Entenda-se: a nota foi recebida pelo mineiro de Manga, José Farias dos Santos, por ter escrito o livro Luiz Gonzaga, a música como expressão do Nordeste (Ed. Ibrasa), que é o 14º sobre a vida e obra do filho de dona Santana e seu Januário, que o povo todo imortalizou como “o rei do baião”. Manga, município integrante do seco Vale do Jequitinhonha, localiza-se ao norte de Minas Gerais.

Farias dos Santos, formado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC) e professor da Uninove, na capital paulista, dedicou-se por três anos seguidos a estudos sobre a vida e obra do criador dos gêneros musicais, bem nordestinos, baião e forró. Desses estudos resultou o livro — tese de mestrado defendida em novembro de 1991 — que agora, oportunamente, a Ibrasa está lançando ao mercado. Esse, sem dúvida, é um livro que vale a pena ler o mais breve possível para se compreender um pouco mais e melhor a importância de Luiz Gonzaga no panorama musical brasileiro, especialmente a partir dos anos 40, época de ouro, de grandes ídolos como Augusto Calheiros, Nélson Gonçalves, Chico Alves, Sílvio Caldas, Orlando Silva e Vicente Celestino.

Luiz Gonzaga, a música como expressão do Nordeste mostra a relação da obra do rei do baião — e de seus parceiros, naturalmente — com a cultura popular, a sociedade e a política brasileiras. Foi esse aspecto, aliás, muito inteligentemente abordado por Farias em seu livro, que levou os integrantes da banca examinadora da universidade a lhe concederem nota máxima, e com louvor, pela tese que engendrou. O autor justifica na introdução de Luiz Gonzaga, a Música, etc., a escolha do tema pela carência, até aqui inexplicável, de estudos que tratam da chamada “música nordestina” e seus autores ou intérpretes.

No livro também são ressaltados a presença do samba carioca, entre os anos 30 e 40, e o surgimento de movimentos musicais entre fins dos 50 (bossa nova) e 60 (jovem guarda, festivais de MPB e tropicália). No caso de Gonzaga, o período mais rico — musicalmente, falando —, situa-se entre os anos 40 e 50, quando é lançado o baião por seu autor, em parceria com o cearense Humberto Teixeira. Na época, esse gênero musical virou coqueluche no Brasil e até no exterior (a portuguesinha Carmen Miranda chegou a gravá-lo no filme Nancy Goes to Rio — ‘Romance Carioca’), em 1950. A música por ela gravada na ocasião foi Baião, com o esquisito título de Caroom pa pa (versão de Ray Gilbert). Detalhe: em Portugal, na região do Entre-Douro e Minho com a Transmontana, há uma localidade com esta designação ocupando 15.571 hectares e 20 freguesias. O concelho (com c) de Baião, como é chamada a região — distrito do Porto —, tem limites com o Marco de Canavezes, onde nasceu Carmen (1909-1955). No Brasil, mais precisamente no Pará, às margens do Tocantins, há também uma cidade com esse nome desde o dia 30 de outubro de 1769, em homenagem ao português Antônio Baião, que recebeu do então governador e capitão-general Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho uma vasta sesmaria com o compromisso de criar ali um povoado. Curiosidade... No Pará, Baião existe desde 1833. Tem hoje uns 30 mil habitantes. Curiosidade...

Luiz Gonzaga começou a carreira nos anos 30, mas foi a partir de 1941 que passou a gravar discos individuais ou solos. Tocou sanfona e cantou por quase 50 anos, com registro fonográfico. Os, digamos assim, píncaros da glória, foram alcançados e desfrutados plenamente por ele entre 1946 (ou 47, quando o grupo musical Quatro Azes e um Curinga gravou Baião) e 1955. São desse período músicas que hoje fazem parte do nosso cancioneiro, como Xote das meninas, Sabiá, Vozes da seca e Riacho do navio. O Quatro Azes foi formado originalmente por três irmãos (Evenor, José e Permínio Pontes Medeiros) e um amigo, André Batista Vieira.

No livro de Farias dos Santos o leitor vai encontrar boas informações sobre Luiz Gonzaga e os anos em que ele deixou marcado definitivamente o seu nome na história da nossa música popular. Já no primeiro capítulo, o leitor terá idéia do que vai encontrar:Baião, do ostracismo à redescoberta (O cantar nordestino transformando a Música Popular Brasileira)... O arcaico como suporte do moderno. No segundo capítulo, o leitor lerá: Nordeste, pobreza social e riqueza cultural (O sertão: a representação do contraste)... Luiz Gonzaga, o comunicador da expressão dramática... E por aí vai.

Repito: Vale a pena ler Luiz Gonzaga, a música como expressão do Nordeste . Só umas 200 páginas. Leitura rápida e agradável. Muita informação. Ah! A capa e as ilustrações são do cearense Klévisson Viana.

 


*Assis Ângelo é jornalista, produtor e apresentador do programa São Paulo Capital Nordeste (Rádio Capital AM 1040) e autor de vários livros sobre música brasileira e folclore.

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