No Chile, 30 anos depois

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Sob as belíssimas árvores da Vila, centenas de presos foram torturados e executados

Rua Exequiel Fernandez, 18 de setembro de 1973. Dia da independência nacional do Chile, data que sempre foi comemorada com grandes festas populares. Os parques e as ruas dominados pelas chamadas ‘ramadas', espécie de barracas cobertas de ramos verdes, onde se vendem vinho, empanadas e outros pratos típicos e onde se dança a ‘cueca', baile tradicional chileno. As casas enfeitadas alegremente com a bandeira e as cores do país.

Mas não naquele dia 18 de setembro. O sétimo em que a população vivia à mercê do toque de recolher, interrompido apenas por breves intervalos. Para uma corrida à padaria, ao armazém (milagrosamente, os produtos de primeira necessidade que haviam “sumido” durante o governo de Salvador Allende, voltaram às prateleiras), ou para pedir asilo em alguma embaixada.

O sétimo dia em que a população vivia à mercê dos comunicados oficiais da Junta Militar de Governo, cuja tônica era o “combate ao marxismo” e a seus presumidos seguidores: participantes e simpatizantes do governo de Unidade Popular, constitucionalmente eleito em 1970, e estrangeiros.

E naqueles tenebrosos comunicados, os militares eram explícitos: todo e qualquer estrangeiro era um “perigoso extremista, inimigo do Chile”, portanto, deveria ser imediatamente denunciado às autoridades autoconstituídas.

Caça aos “extremistas”

Naquele 18 de setembro de 1973, muitos de nós, brasileiros exilados no belo país que nos recebera de braços abertos, ainda estávamos completamente aturdidos. Nos sentía-mos como ratos presos em uma ratoeira, apenas aguardando o momento fatal.

Morávamos em uma passagem da rua Exequiel Fernandez, espécie de condomínio de casas construídas em Santiago para os trabalhadores das salitreiras. Por isso, ainda tínhamos um pouco de mobilidade. Naquele quarteirão, quase particular, podíamos visitar e receber vizinhos.

E o sentimento geral, nosso e deles, era de medo. Da parte deles, e isso era visível, havia uma grande preocupação conosco. Não nos viam como inimigos e, muito menos, como perigosos. Éramos vistos apenas como uma simpática e alegre família brasileira.

(Ele, médico, jamais se negara em atender os vizinhos, a qualquer hora do dia ou da noite, providenciando exames e amostras grátis. Ela, uma jovem jornalista, era uma dona-de-casa como as outras, vivendo normalmente o dia-a-dia da vizinhança e dedicada ao cuidado dos três filhos pequenos, dois deles nascidos no Chile.)

Naquele dia 18 de setembro de 1973, nossos ouvidos não tinham trégua. No rádio, o tempo todo, a intimidação dos comunicados oficiais. De fora, o ruído de tiros ao longe e de aviões que faziam vôos rasantes sobre a Faculdade de Ciências Sociais da Universidade do Chile, situada a poucas quadras dali. Haveria alguma resistência? O sair e entrar de vizinhos que nos informavam que por perto um quarteirão fora cercado pelos militares e todos os moradores obrigados a deitar no chão com as mãos na nuca, sob a mira de metralhadoras. Que alguém vira passar um caminhão carregado de cadáveres. Que havia mortos espalhados pelas calçadas. Que as águas do rio Mapocho estavam vermelhas de sangue...

Uma vizinha, entre compadecida e preocupada, tentando nos dar algum ânimo, nos convidou para o lanche da tarde. Sua casa ficava logo depois da esquina, fora do condomínio. Foi a salvação.

Fim de tarde. Acabáramos de sair da mesa do lanche, quando ouvimos os gritos de “Todos para dentro! Não queremos civis na rua!” O caminhão carregado de soldados entrou no condomínio. Faziam perguntas, de casa em casa. Sem poder sair, apenas adivinhávamos o que se passava. Não deu outra: os soldados entraram na nossa casa. Procuravam especificamente o médico brasileiro “extremista” que se recusara a participar da greve de boicote ao governo da Unidade Popular. Mas ele não estava. E os militares, como por milagre, simplesmente se foram.

Telefonamos para um amigo, funcionário da Cepal. E, minutos antes da vigência do toque de recolher, o médico brasileiro dirige-se à esquina mais próxima. Vai de braço dado com a vizinha que oferecera o lanche, vestindo a jaqueta de um dos seus filhos, para embarcar no carro do amigo, em direção da embaixada do Panamá.

(Ela não ficou só. Ficou na casa com seus três filhos pequenos, cercada pelo apoio e pela amizade daqueles vizinhos que se desdobravam para ajudá-la em tudo o que era preciso. Inclusive, arriscando a própria segurança, chegavam a levar alimentos, cigarros, remédios e roupas à embaixada panamenha. A embaixada estava sediada em um apartamento de 200 metros quadrados, onde centenas de brasileiros amontoavam-se.)

Um mês e meio depois, eu e meus filhos deixávamos o Chile.

O reencontro

Rua Exequiel Fernandez, 14 de outubro de 2003.

O reencontro acontece antes mesmo de acionar o porteiro eletrônico que agora protege o condomínio das velhas casas construídas em Santiago para os trabalhadores das salitreiras. Ela já não é mais uma jovem jornalista, mas custa a absorver a idéia de que aquelas pessoas que — ainda ontem, em 1973 — tinham 20 anos ou menos possam ser pais e avós. Muitos abraços, muitas lágrimas. As recordações estão vívidas: “Quando os soldados entraram na passagem, perguntaram pelo médico brasileiro. Não dissemos onde vocês moravam. Respondemos que éramos recém-chegados do norte do Chile, que não conhecíamos ninguém.”

Mas, “um vizinho afirmando que ‘não se deve mentir aos militares' informou onde ficava a casa.” Trinta anos se passaram e eles nunca esqueceram nem se conformaram.

Violy Gerding, filha da senhora que ofereceu o lanche naquele 18 de setembro de 1973, mora na casa em que vivíamos. Ela e o marido foram professores e sócios do Colégio Latino-Americano do qual um grupo de professores foi degolado nos anos 80 pelos asseclas de Pinochet. Hoje, ambos trabalham com transporte escolar. Ela diz emocionada que nas comemorações dos trinta anos do 11 de setembro foi chamada a dar um depoimento em uma solenidade no Colégio: “O que você acha? Contei a experiência que vivemos junto dos nossos vizinhos brasileiros.”

Maria Isabel Balcázar é outra vizinha solidária que nunca esqueceu daqueles brasileiros e dos horrores que pessoalmente testemunhou. Ela, que hoje é aposentada e avó de dois netos, em 1973 era estudante secundarista e ajudante em uma creche de Santiago. Não consegue apagar da memória, uma noite de inverno em que voltava para casa do trabalho. “Quando caminhava até o ponto do ônibus, vi aqueles corpos estirados, lado a lado, na calçada. Eram muitos e estavam expostos sem pudor pelos militares. Até hoje, quando passo por ali, sinto calafrios.”

Fabíola Torres, 35 anos, lembra bem de mim e do médico brasileiro que cuidava de suas amídalas, sempre inflamadas. Tinha apenas cinco anos quando tudo aconteceu. Tornou-se uma jovem consciente que lutou pela redemocratização do país. Relatou-me, empolgada, a vitória do “Não” sofrida por Pinochet no plebiscito de 1988 e a primeira eleição presidencial em 1990, ganha por uma coalização de centro-esquerda, a Concertación. Fala de toda a alegria compartilhada por ela junto do povo nas ruas de Santiago.

Trinta anos depois, 80 por 20

Santiago de 2003 é uma cidade belíssima, com todas suas ruas arborizadas, calçadas limpas e bem cuidadas, circundada pela a moldura eterna da Cordilheira dos Andes.

Santiago de 2003 é cortada ordenadamente por grandes avenidas movimentadas por um trânsito intenso e civilizado de carros novos (os carros velhos estão proibidos), e por uma frota caquética e alucinada de ônibus importados do Brasil. Hoje, sente em seu cotidiano os efeitos colaterais da receita neo-liberalizante prescrita já em 1973 pelos Chicago Boys do economista Milton Friedman.

Como em outras cidades grandes, os sinaleiros tornaram-se tristes palcos de palhaços malabaristas, adultos e crianças, ou dos desempregados explícitos que abrem faixas, na mesma batalha por algumas moedas. Tristes picadeiros também são os ônibus, ocupados a cada momento por soldados-artistas do esfarrapado exército excedente. No meio da rua, entre os carros, parados ou não, dezenas de peruanos, argentinos, chilenos arriscam a vida vendendo água, sucos, jornais, doces, frutas, de tudo. Nas calçadas das ruas centrais velhinhos e velhinhas pedindo esmola e o varejo humílimo de quem pode somente estender um pano no chão para oferecer alguns pares de meias, meia dúzia de gorros de lã, uns poucos lencinhos descartáveis...

É gente que vira suco na centrífuga concentradora de renda imposta ao povo sob o látego pinochetista. E o belo país emoldurado pela Cordilheira dos Andes, que um dia julgou possível construir o socialismo pela via institucional, hoje participa da construção planetária de um tipo de sociedade ditada pela cartilha neoliberal. É a sociedade dos 80 por 20: 80% da população à margem dos benefícios que esse modelo econômico proporciona, e 20% desfrutando da abertura dos mercados e da globalização.

A distribuição de renda no Chile está entre as mais desiguais do mundo, segundo um recente relatório do Banco Mundial. Apesar do crescimento econômico das últimas décadas, as disparidades na distribuição da renda variaram pouco desde 1987. Em 1987, a renda dos 20% mais pobres da população representava 4,5% do total, enquanto que 56% eram recebidos pelos 20% mais ricos da população. Em 1994, estas cifras eram de 4,6% e de 56,1%, respectivamente.

Com seus quase 6 milhões de habitantes e perto de 10% de desempregados e subempregados, a capital chilena nada mais é do que uma vitrine do modelo global imposto e que se mantém intocado apesar da chamada democratização do país.

Observando esse panorama é difícil não lembrar daquela Santiago de 30 anos atrás, anterior ao 11 de setembro de 1973. Uma cidade onde o trânsito era caótico, dominado por carros velhos. Havia pobreza. Não se via miséria. No máximo, às vezes, adolescentes batiam à porta, oferecendo-se para varrer a calçada por um troco.

Enquanto o índice de analfabetismo no Brasil era de 60%, no início dos anos 70 os chilenos ostentavam 10%. E uma elevada consciência cidadã os fazia empunhar a bandeira nacional em prol do direito a moradia. Era com ela que se marcavam as grandes ocupações de terrenos e de habitações populares. Um tempo em que nós, brasileiros, sob o signo dos anos de chumbo da ditadura militar, sequer sonhávamos com movimentos organizados de sem-terra ou sem-teto.

Uma democracia de mercado?

Voltemos ao Chile de agora, sob o governo do democrata cristão Ricardo Lagos. Ele é o terceiro presidente pós-ditadura, eleito com o apoio da Concertación, frente que vem sendo questionada por não ter conseguido realizar a promessa de combate às injustiças sociais. Afinal, como declarou há pouco tempo um campeão das urnas, o senador Nelson Ávila, “o esquema de engenharia política de Augusto Pinochet se encarregou de preparar o aparato institucional para preservar o modelo neoliberal.” Ávila, que se diz partidário da economia de mercado, questiona com aparente ingenuidade o fato dos três governos da Concertación não terem conseguido “domar a besta do mercado”. “Besta” que, segundo ele, impõe uma “sociedade e uma democracia de mercado”. Ou seja, onde tudo e todos estão para serem comprados e vendidos...

Lá, como cá, certamente há muito mais liberdade de expressão do que durante as respectivas ditaduras. As redes de televisão denunciam escândalos de pedofilia (coincidência, não?) envolvendo políticos e figuras ilustres e exibem novelas brasileiras e chilenas onde o palavrão agora é permitido.

Os trinta anos do 11 de setembro de 1973 (data do golpe que derrubou Salvador Allende) têm sido lembrados com uma enxurrada de vídeos, documentários e publicações. Como disse a historiadora Carolina Torrejos, é uma espécie de “explosão da memória” que, de certa forma, já havia sido detonada com o julgamento de Pinochet em Londres e depois no Chile — embora, o processo chileno tenha sido arquivado. Assim mesmo, o malfadado general hoje é chamado com escárnio de “el viejo Pinocho”, nas raras vezes em que é lembrado pessoalmente. Enquanto isso, surge quase que um processo de canonização popular da figura de Allende. O presidente marxista de quem antes era arriscado até mesmo mencionar o nome, hoje é chamado de “presidente mártir”. Nas livrarias, lojas de discos, quiosques, antiquários, feiras de usados, vendem-se abertamente broches, medalhas, fotos, bandeiras, pôsteres e todo o tipo de publicações e registros sonoros e visuais que remetem ao governo da Unidade Popular e a denúncias do período de arbítrio.

Nesse contexto, uma outra surpresa (aliás, duas). Depois de ter sido perseguido e exilado nos anos 70, de ter sua casa “virada pelo avesso” pelos militares que queimaram todo seu precioso acervo de filmes, livros e documentos, o cineasta Miguel Litin é hoje administrador de uma das subprefeituras de Santiago. E o escritor Antônio Skármeta (O carteiro e o poeta nota da Redação) que também sofreu perseguições, além de manter um programa semanal de literatura em um dos canais de televisão, é embaixador do Chile na Alemanha.{mospagebreak}


Memorial dos mortos e desaparecidos em Vila Grimaldi

Vila Grimaldi, memória do horror

Localizada no bairro de Peñalolén, aos pés da Cordilheira dos Andes, a mansão foi construída no final do século XIX como um centro de atividades culturais. Ficava no meio de um enorme jardim, com estátuas, fontes e mosaicos importados da Europa. Pela semelhança com vilas italianas, foi chamada de Vila Grimaldi por Emílio Vasallo que comprou a propriedade em 1940, fazendo ali um restaurante e ponto de encontro de artistas e intelectuais.

No final de 1973, os militares sequestraram a filha de Vasallo e exigiram a propriedade como resgate. E ali instituiu-se um centro de detenção, tortura e extermínio de presos políticos pela Direção de Inteligência Nacional (Dina), polícia secreta de Pinochet.

Calcula-se que cerca de 4.500 pessoas passaram por lá, mas as informações oficiais disponíveis dão conta de uma lista de apenas 226 assassinados ou desaparecidos no lugar.

Em 1990, um pouco antes da posse de Patrício Alwyn, primeiro presidente eleito com o voto popular (após o fragoroso “Não” sofrido por Pinochet no plebiscito de 1988, quando tentou se manter por mais oito anos no poder), a Vila foi praticamente destruída pelos militares. A intenção era não deixar um só vestígio do que ali se passara. Eles, provavelmente, menosprezaram a memória popular.

Noite após noite, dezenas de manifestantes reuniam-se em torno de seus muros para exigir que o local fosse aberto e transformado em local de visitação pública. Até que em 1997 a Vila Grimaldi transformou-se no Parque da Paz, para que, segundo seus idealizadores, “simbolizasse não apenas a dor, mas também a esperança”.

Quem visita o lugar pode ver um imenso painel com o nome dos desaparecidos, uma torre (reconstruída) que era um lugar de tortura, castigo e extermínio, a “Árvore da esperança”, um imenso umbu onde os presos eram pendurados e que sobreviveu a uma tentativa de incêndio pelos torturadores em seu empreendimento de apagar as lembranças, e o local onde ficavam as celas.

“Abra a porta de Vila Grimaldi e entre em um mundo de recordações que fala de sofrimento, mas também de solidariedade e força na luta pela verdade e pela justiça.” É o que diz o folheto que cada visitante recebe ao chegar.

Verdade e justiça é também o que querem os familiares dos presos, mortos e desaparecidos ao repudiar os planos de reconciliação do presidente Lagos. Ele propôs aliviar as penas dos militares que apresentarem voluntariamente informações sobre torturados e desaparecidos. A proposta incorpora, pela primeira vez, o conceito de “obediência forçada ou devida”, segundo o qual os soldados que cometeram delitos cumprindo ordens têm menor responsabilidade criminal que os seus superiores. Além disso, ele prometeu aumentar em 50% o valor das pensões pagas a filhos e parceiros dos mortos na ditadura. Torturados que sobreviveram, que não tinham direito a compensações em dinheiro, devem ser indenizados também numa nova iniciativa do governo chileno.

Para Gabriela Zuñiga, do Grupo de Familiares dos Presos e Desaparecidos, as medidas anunciadas são insuficientes, pois “além de não falar na lei de anistia, o presidente cometeu um erro ao agradecer às Forças Armadas por sua colaboração na mesa de diálogo.”

De um pôster, vendido nas livrarias e museus, como se tivessem sido escritas hoje, as palavras de Pablo Neruda proclamam indignadas:

Por esses mortos, nossos mortos
peço castigo.
Para os que de sangue salpicaram a pátria
peço castigo.
Para o verdugo que mandou esta morte,
peço castigo.
Para o traidor, que ascendeu sobre este crime
peço castigo
Para o que deu a ordem de agonia
peço castigo.
Para os que defenderam este crime,
peço castigo.

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