“Por que o governo tem medo de mim? Eu sou 90% paralítico... mas eu penso, eu escrevo”

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Entrevista com o professor GN Saibaba 

A presente entrevista foi concedida a Anumeha Yadav, reproduzida em várias páginas e blogs estrangeiros, traduzida e adaptada pela redação do AND.

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GN Saibaba em casa com familiares

Dr. GN Saibaba, professor de Inglês na Universidade de Delhi, acusado de ser integrante do Partido Comunista da Índia (Maoísta), voltou a sua casa após passar 14 meses encarcerado na Prisão Central de Nagpur. Na sua primeira prisão, em setembro de 2013, o professor foi preso em sua casa e arrancado de sua cadeira de rodas, acusado de haver cometido um “roubo” em Maharashtra. Nove meses depois, em maio de 2014, ele foi preso quando retornava da universidade sob várias acusações baseadas na fascista Lei de Prevenção de Atividades Ilegais.

Em 3 de julho, a Alta Corte de Bombaim concedeu-lhe três meses de liberdade mediante pagamento de fiança após seguidas denúncias da deterioração da sua saúde na prisão. Seu julgamento ainda será realizado.

De volta a sua casa, cercado por seus familiares e seus livros, o Dr. Saibaba, que sofre de paralisia devido às sequelas da poliomielite, contraída quando tinha 5 anos de idade, falou com destemor contra o que ele descreveu como a repressão contínua do Estado.

O que mudou para você nos últimos 14 meses, enquanto você estava na prisão?

GN Saibaba: Nos últimos 14 meses, eu vi mais claramente ainda como o Estado tornou-se centrado em segurança. O Estado deveria trabalhar para o povo, mas em vez disso, só está preocupado com a segurança dos poderosos. Eu fui tratado como uma ameaça à segurança porque o governo sentiu que minhas ideias sobre os recursos naturais, os direitos dos povos, não são propícias para o Estado e, portanto, eu deveria ser silenciado. Sou professor. Eu debato, eu escrevo, e por causa disto, o Estado se sente ameaçado.

Na prisão, eu me perguntava: Por que o governo tem medo de mim? Eu sou 90% paralisado. O Estado sabe que eu não posso fazer muito, mesmo com os maoístas. É impossível para mim. Mas eu penso, eu escrevo. Este Estado acha que uma pessoa que tem a coragem de se aproximar, ver e descrever a realidade é uma ameaça.

Quais são os seus pontos de vista sobre insurgência e sobre a violência como um meio para a justiça?

GN Saibaba: Às vezes, as pessoas respondem a situações com violência. Mas não se pode categorizá-las apenas como violentas ou não violentas, não é uma categorização correta. A violência está presente na sociedade, na sua estrutura. Por exemplo, o debate sobre o estupro não consegue entender ou formular por que há violência contra o corpo das mulheres, como para prevenir essa violência. Nós não somos apenas uma sociedade de classes, somos uma sociedade de castas, uma sociedade patriarcal. O Estado apoia a violência de castas, a violência comunal.

Na era Nehruviana, a ênfase estava em um Estado liberal de bem estar social. Em um Estado liberal, os níveis de violência deveriam cair, bem-estar das pessoas deveria ser prioridade, mas isso não está acontecendo. Em vez disso, o Estado está repleto de violência sistêmica contra a qual todos nós temos de resistir.

Em que condições você foi mantido na prisão?

GN Saibaba: Eu fui colocado em minha cadeira de rodas, posto em um veículo e transportado por mais de 72 horas sem interrupções, de Nova Deli para Aheri, até que fui encarcerado na Prisão Central em Nagpur em 11 de maio de 2014  às 2:30 horas da madrugada. Nessa hora, não havia nenhum oficial de plantão na prisão. Fui colocado pelos guardas na minha cadeira de rodas, que havia quebrado, até a manhã seguinte, quando o oficial da prisão viria. Eu não tinha como ir ao banheiro, não podia comer. Mais tarde, fui colocado na “célula anda”, em confinamento solitário.

Da minha cela, e durante minhas visitas ao hospital da prisão, eu testemunhei a tortura de prisioneiros. Vários detentos desenvolveram doenças mentais ao longo das suas prisões, mas os algemavam. Eles se jogavam no chão e resistiam com todas as forças para não serem algemados. Eu protestei contra isso recusando-me a tomar os meus medicamentos. Quando eu fiz isso, os funcionários prisionais deram uma pausa de 30 minutos para retomar os maus tratos depois.

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Pedi ao meu advogado para me trazer cópias dos acórdãos do Supremo Tribunal sobre o tratamento dos presos e os apresentei ao Inspetor Geral e funcionários superiores quando eles visitaram a prisão. Quando eu lhes relatei as torturas, eles responderam que a tortura é permitida nas prisões. “Então, que tipo de Estado é esse?”, perguntei-lhes.

Vi que as autoridades na prisão costumavam espancar os presos, fraturando os ossos, arrastando-os pelo chão. Mas os funcionários do hospital que os tratavam não registravam isso. Se um aldeão ou um prisioneiro tribal era encontrado com um telefone celular, as autoridades da prisão raspavam sua cabeça, e faziam-no desfilar nu ou sentar-se ao ar livre sem roupas o dia inteiro. Mas os criminosos mais experimentados possuem de 20 a 30 telefones celulares cada e contam com total cumplicidade das autoridades.

Os seus apoiadores descreveram sua prisão como um sequestro por parte do governo. Como e de onde você foi preso?

GN Saibaba: Em 9 de maio, eu estava ocupado como examinador principal no centro de avaliação da universidade, no Daulat Ram College. Eu estava indo para casa no carro durante a pausa para o almoço. Quando o carro se aproximou do estádio universitário, repentinamente, cerca de 45 a 50 pessoas entraram em frente ao carro, forçando-o a parar. Em poucos segundos, um homem arrastou meu motorista para fora e sentou-se dentro do carro. Eu pensei comigo mesmo: isso é um assalto. Mas eles dirigiram o carro para a delegacia de polícia civil e ordenaram-me a permanecer no carro enquanto roubaram meu telefone celular e tomaram os papéis dos exames. Percebi então, que os 50 homens eram oficiais da polícia de Maharashtra, Andhra, Birô de Inteligência e Agência Especial vestidos à paisana.

Exigi uma cópia do mandado de prisão e quis informar o ocorrido a minha família, de acordo com a lei. Eles se recusaram. Então, um deles me mostrou o mandado. Eles ainda me mantiveram no carro fora da delegacia. Eu disse que eles deviam me apresentar diante de um juiz. Eles disseram que estavam me levando para Nagpur. Repeti que eles deveriam apresentar-me a um magistrado. Eu pedi várias vezes para falar com a minha família, como me é de direito. Eu tomo cinco medicamentos devido ao meu problema cardíaco, eu precisava ir para casa para pelo menos pegar meus remédios. Eu ainda disse a eles que não poderia fugir devido a minha condição. Mas eles se recusaram. Em 45 minutos, fui levado para o aeroporto.

No aeroporto, eu consegui fazer uma ligação para casa usando o telefone celular do atendente que estava me ajudando com a cadeira de rodas para utilizar o banheiro para deficientes. Minha filha pegou o telefone fixo e eu rapidamente disse a ela que estava sendo levado para Nagpur. Quando saímos, os policiais descobriram que minha filha estava tentando retornar a ligação para o celular, bateram no auxiliar e me amordaçaram na cadeira de rodas.

Você está em liberdade sob fiança por três meses. O que você pretende fazer agora?

GN Saibaba: Como meus músculos estão se degenerando, os médicos têm recomendado tratamento neuro-físico imediato. No caminho para Nagpur, minha cadeira de rodas quebrou, e os policiais me levantavam como um saco de areia. Na prisão de Nagpur, eu não tinha acesso a um banheiro adequado. Os guardas me seguravam pelo ombro ou pelos braços para que pudesse usar o banheiro. Isso prejudicou meus ligamentos, danificou meus nervos e causaram um processo degenerativo. Há sete meses, eu não tenho sido capaz de levantar ou usar o meu braço esquerdo (disse apontando para a mão esquerda que descansava em seu colo). Meu braço direito é o único membro funcional que me resta agora. Minha medula espinhal degenerou e minhas costelas começam a ameaçar perfurar meus pulmões. Sinto dor agora, mas eu sinto que devo falar.

Nos próximos três meses, a minha prioridade é o tratamento médico. Minha segunda prioridade é retomar meus escritos sobre teoria literária e literatura indiana em inglês e publicá-los.

Minha esposa me levou mais de 40 livros na prisão nas cinco visitas. Estudei Urdu e, pela primeira vez, li o roteiro original de Ghalib e Faiz. Li vários livros populares. Eu queria ler, mas não tinha até agora “As Vinhas da Ira” e “E o Vento Levou”, sobre a Guerra Civil Americana. Eu li Marx, Engels e Lenin novamente. Os únicos livros que não pude ler foram os de Mao (sorriu).

Traduzi um dos meus livros favoritos, escrito pelo meu autor favorito, Ngugiwa Thiong’o: “Sonhos no tempo da Guerra”, situado na zona rural do Quênia, em Telugu. Mas na prisão, você é suspeito se escrever na sua língua natal, algo que os outros não podem ler. Fiz a tradução, mas não houve nenhuma maneira de eu trazê-la para fora da prisão.

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