O “original” Emir Sader

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Em artigo recentemente publicado, intitulado “Washington Luis ou Getúlio”, Emir Sader, um dos mais eminentes “intelectuais orgânicos” (para usar o termo que essa gente tanto gosta) do PT, chega a essa conclusão realmente incrível:

“Até hoje se pode dizer que essa é uma linha demarcatória das forças políticas e das ideologias no país: quem está pela continuidade do ideário getulista se situa à esquerda; quem está contra ele é a direita brasileira.”

Admitamos nessa afirmação, realmente, o mérito da originalidade. É reveladora da indigência intelectual do PT, cujas formulações “teóricas” estão rigorosamente à altura da sua prática política — o ecletismo próprio dos que têm por missão histórica pregar a colaboração de classes e a despolitização das massas, justificando as alianças mais espúrias e fisiológicas, ademais da corrupção desbragada, características essenciais desse fenômeno por muitos chamado “lulismo”.

Aonde deu o “novo sindicalismo” petista

Emir Sader desenvolve seu raciocínio de modo mais detido num texto de 2010, intitulado “Brasil, de Getúlio a Lula”. Nele, aponta o golpe de 1930 como a mais importante “ruptura” da história brasileira, e Vargas como expoente máximo da “ideologia nacionalista”. Ataca a visão “classista” da esquerda então, sobretudo do Partido Comunista, e diz que “a revolução de 30 deu início ao que seria o movimento popular brasileiro durante as décadas seguintes”. Vê mérito, realmente, onde o que existe é o câncer do sindicalismo pelego, atrelado ao Estado, imposto por Vargas somente com a prisão e assassinato dos autênticos dirigentes operários, anarco-sindicalistas e comunistas, vitimados pela implacável repressão de Filinto Müller e cia.

Emir Sader consegue a proeza, aliás, de dissertar sobre o governo getulista sem mencionar uma única vez o Estado Novo! Não é objeto desse texto a caracterização do regime de Vargas, mesmo porque AND o tem feito ao longo de uma série de artigos, mas não deixa de ser bastante educativo para os ativistas mais novos observar como o PT, que nasceu entoando um discurso radicalóide a respeito da “revolução socialista”, e combatendo, no movimento sindical, o velho peleguismo (daí terem cunhado o seu chamado “novo sindicalismo”), não só manteve intacta a estrutura pelega e corporativizada criada por Getúlio, como a pôs a trabalhar para seus próprios fins — perpetuar-se no governo e tarimbar-se como os mais funcionais agentes do imperialismo e da reação dentro do país.   

Vargas, usando o aparelho de Estado como alavanca de uma determinada industrialização e regulação das relações de trabalho (o que não é uma concessão, aliás, mas algo inerente à própria dinâmica capitalista), impulsionou o capitalismo burocrático no País, gerando condições para as inversões de capitais imperialistas de maior vulto, sobretudo norte-americanas, que viriam mais tarde. Seu programa econômico, a rigor, não está oposto ao de JK, senão que é seu antecedente direto, uma vez que a existência de indústrias de base capazes de fornecer matérias primas a preços subfaturados, produzidas na área estatal, foi uma das condições que atraíram as montadoras ianques para o País, por exemplo, numa fase em que o processo de produção não estava tão pulverizado como atualmente se encontra.

De qualquer modo, foi Vargas, efetivamente, um quadro da burguesia brasileira, diferentemente de Lula, mero fantoche que não enxerga um palmo além de seu projeto pessoal. Neste sentido, buscar comparar este àquele é realmente uma injustiça. Vargas impôs a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), cópia da Carta del Lavoro do fascismo italiano. Lula e Dilma, ainda mais que FHC, a pisoteiam quase que diariamente, fazendo bem pior a emenda que o soneto.

A ideologia fascista do Estado de todas as classes

Para o autor, dois governantes encarnaram, após Getúlio, seu ideário de construção de um “Estado nacional”: Jango e Lula. Isso porque compuseram, para ele, “governos de coalizão de classes, pluriclassistas, que assumem projetos de unidade e desenvolvimento nacional, com forte peso das políticas sociais”. Diz, em outro ponto, que o governo Lula compõe-se de um “amplo arco de alianças que vai do capital financeiro aos pobres da cidade e do campo”.

Creiam!

Que o governo Lula baseia-se numa coalizão — a chamada “governabilidade” — ninguém duvida, mas a pergunta é: quem dirige essa coalizão? A quais classes serve? Sem dúvida nenhuma o capital financeiro, e o conjunto dos setores monopolistas da indústria, do comércio e o latifúndio, classes que detém de fato o poder sobre o Estado brasileiro, qualquer que seja o boneco ou boneca sapiens sentado no Palácio do Planalto. Falar em “aliança” do capital financeiro com os pobres da cidade e do campo é uma chacota, como se pudesse falar em aliança do vampiro com suas vítimas, que de fato estão unidos, mas unidos numa relação de subjugação. A recente divulgação, pelo governista DIEESE, de que em 2014 os cinco principais bancos que atuam no País (Itaú, Bradesco, Banco do Brasil, Caixa e Santander) auferiram lucros recordes, apesar do arrocho salarial e desemprego que castiga os brasileiros, com ganhos 18,5% acima dos embolsados em 2013, é prova cabal do conteúdo da tal “aliança”.

No fundo, é a muito velha arenga da igualdade entre explorados e exploradores, ou de “governo em disputa”, desde sempre sustentada pelos oportunistas. Não por acaso já alertava o camarada Lenin, em sua intervenção Acerca do Estado, que “o problema do Estado é um dos mais complicados e difíceis, com certeza aquele em que mais confusão semearam os eruditos, escritores e filósofos burgueses”. Isso porque “atinge, mais do que outro qualquer (cedendo lugar nisto só aos fundamentos da ciência econômica), os interesses das classes dominantes”. Chamar de “democrático” ou de “popular” esse velho Estado reacionário e genocida que temos, erigido sobre brutal exploração e opressão das massas populares, educar essas massas esmagadas na “paz das baionetas” e na lógica da conciliação de classes, corromper e desacreditar o movimento operário e a esquerda: essa a vil tarefa que o PT se propôs a cumprir, aqui descaradamente “teorizada” pelo seu escriba.

O afundamento do PT serve ao avanço do movimento popular

Se é verdade que nenhuma das siglas da oposição oficial representa a insatisfação generalizada da população com a ordem existente, pois que tratam-se em última instância de brigas intestinas no interior do Partido Único da reação, também é verdade que a ilusão de grandes parcelas do proletariado e das chamadas “classes médias” com o PT foi, nas últimas décadas, o grande empecilho para que transbordasse no Brasil um autêntico processo de mobilização popular, independente do peleguismo e do eleitoralismo. Derrubada essa ilusão, que tem na figura de Lula seu último refúgio, ainda assim crescentemente desmascarado e ameaçado pelo tsunami de delações da “Lava Jato”, terá o povo brasileiro um obstáculo a menos para a sua libertação.

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