Massacre étnico: latifúndio volta a matar e ferir índios no MS

A- A A+

Arquitetado por latifundiários e políticos locais, um brutal ataque à comunidade Guarani-Kaiowá e Guarani-Nhandeva do município de Antônio João (MS) causou a morte do índio Semião Vilharva e ferimentos em vários outros, incluindo mulheres e crianças.

http://www.anovademocracia.com.br/157/15a.jpg
Indígenas seguem sendo assassinados. Mandantes e executores seguem impunes

A agressão ocorreu no dia 29 de agosto na aldeia Nhande Ru Marangatú e foi semelhante a outras cometidas no estado, o qual já está sendo denominado de “Faixa de Gaza” devido à extrema violência praticada contra as nações indígenas sul-matogrossenses por parte do agronegócio e seus cúmplices da classe dominante.

Após o atentado, o clima entre os índios era de luto, tensão e revolta, que não amenizou nem mesmo com um encontro com o ministro da “Justiça” José Eduardo Cardozo, no dia 2 de setembro, na capital Campo Grande. Isso porque o representante da gerência federal, mais uma vez, não garantiu um ato efetivo em favor da demarcação das terras kaiowás e nhandevas, o que, segundo os indígenas, é a única maneira de resolver o chamado conflito.

A propósito, o termo “conflito” é incorreto, pois conforme uma Carta Aberta dos servidores da Funai do MS divulgada em 3 de setembro, o que vem sucedendo ali tem “os contornos de um franco massacre étnico”. 

Para piorar o quadro pós-ataque, no início de setembro a gerência Dilma enviou tropas do Exército a Antônio João e a outros três municípios onde os guaranis retomaram territórios ancestrais, lugares que o latifúndio diz lhe pertencerem.

Os índios desconfiam do objetivo “pacificador” da presença militar, já que esta foi solicitada pelo gerente estadual Reinaldo Azambuja com apoio da Famasul, entidade que congrega os fazendeiros.   

Guerreiros terenas: não haverá recuo

No dia 31 de agosto diversos líderes da nação Terena, também habitante do MS, publicaram na internet uma nota solidarizando-se com os guaranis, denunciando alguns culpados pelo ataque, exigindo a punição de todos os criminosos e afirmando que a luta pela terra indígena continuará, sem recuos.  

A seguir, uma síntese do documento.

“NOTA DE GUERREIROS DO POVO TERENA:

A Terra Indígena Ñande Rú Marangatú é território sagrado que há muito tempo vem sendo palco de matança de lideranças indígenas.

Ñande Rú Marangatú é território tradicional demarcado e homologado e o povo Kaiowá não está na posse de sua terra por conta de sistemáticos recursos interpostos nas instâncias judiciais pelos ruralistas que estão acostumados com a impunidade.

Em 2005 o Supremo Tribunal Federal liminarmente suspendeu os efeitos do decreto de homologação, e há 10 anos esta decisão liminar “paira”, sendo que o ministro Gilmar Mendes propositadamente não coloca o processo para julgamento.

Nós lideranças Terena reafirmamos que não iremos recuar e continuaremos lutando até o último hectare de território tradicional que nos pertence. Este Estado bandido nega aos povos indígenas o nosso bem maior — nossa Terra Mãe — e tenta vender ao mundo a falsa realidade de que estamos bem, promovendo jogos indígenas, enquanto nossas crianças passam fome e nossos líderes são mortos.

Conteúdo exclusivo para assinantes do jornal A Nova Democracia

Repudiamos e denunciamos o senador Waldemir Moka (PMDB), deputado federal Luiz Henrique Mandetta (DEM) e deputada federal Teresa Cristina (PSB), que ao invés de pautarem-se pelo princípio da imparcialidade e legalidade, planejaram e executaram o ataque à comunidade indígena resultando na morte de uma liderança e várias mulheres e crianças feridas.

Exigimos do Ministério da Justiça, do Ministério Público Federal e da Polícia Federal rigor na apuração dos fatos e total empenho para que a investigação não fique a cargo do “poder político local” submetido aos ruralistas.

Repudiamos essa “burguesia colonizada” de Mato Grosso do Sul que juntamente com os ruralistas noticiam de forma comemorativa a morte de nossa liderança. Esquecem que antes de ganharmos o rótulo de “índios” e “não índios” somos seres humanos, filhos de Itukó’oviti.

Por fim, reafirmamos que Ñande Rú Marangatú é questão de honra para os povos indígenas do MS e por isso não iremos recuar!

Conclamamos todos os guerreiros Terena a se juntarem aos Guarani Kaiowá para concluir a autodemarcação desse Tekohá! (Obs: A palavra tekohá pode ser traduzida como aldeia, embora tenha um significado cultural mais complexo.)

E decidimos: se o governo federal não punir os executantes e mandantes desse homicídio, nós Terena vamos dar uma resposta à altura para os ruralistas e iniciar imediatamente a autodemarcação de todo nosso território !!!

Povo Terena, Povo que se levanta!

Terras Indígenas Buriti, Cachoeirinha, Taunay-Ipegue, Nioaque, Lalima e Pilad Rebuá.”

Desabafo indignado

http://www.anovademocracia.com.br/157/15b.jpg
Soldados da guarda pretoriana de Dilma/PT, a Força Nacional, observam enterro

As violências e as injustiças sofridas pelos índios no MS impactam os servidores da Funai naquele estado que denunciaram a situaçnao em Carta Aberta divulgada em 3 de setembro. Eles denunciam o crime recente e o histórico de ataques e assassinatos contra os povos indígenas. Na Carta Aberta, relembram casos de ataques a aldeias e a funcionários da Funai realizados por latifundiários, políticos locais e seus bandos de pistoleiros.

“A impunidade recorrente sobre tais violências já é tão notória que as redes sociais transbordam de discursos ameaçadores que falam em morte de indígenas, surras a servidores da Funai e do Cimi e seus autores não se preocupam em nenhum momento em esconder seus rostos ou identidades, pois sabem que não haverá nenhuma punição.

Essa situação está longe de ser resolvida com uma simples mudança na legislação, com uma reunião ou uma mesa de negociação.

Essa tragédia foi e é anunciada, em gritos sufocantes e sufocados, pelo movimento indígena, por movimentos sociais criminalizados, e por nós servidores muitas vezes calados pela natureza estatal da Fundação” — afirmam os servidores da Funai de Campo Grande.

Assine já!

Receba quinzenalmente a edição impressa
do Jornal A Nova Democracia no seu endereço
e fortaleça a imprensa popular e democrática.

Endereços


Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
CEP: 20.921-060
Tel.: (21) 2256-6303

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Tel.: (11) 3104-8537

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

EXPEDIENTE

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas
Fausto Arruda 
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto 
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond 
Sebastião Rodrigues
Vera Malaguti Batista

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja
Rafael Gomes Penelas

A imprensa democrática e popular depende do seu apoio

Leia, divulgue e conheça. Deixe seu nome e e-mail para se manter informado
Please wait