70 anos dos massacres de Sétif e Guelma: 45 mil civis argelinos assassinados pelo Estado francês

A- A A+

Nos últimos dias, após atos de guerra que trazem a guerra imperialista de volta ao território francês, somos alvo de um verdadeiro bombardeio do monopólio da imprensa que, explorando a legítima dor e sofrimento do povo francês, busca criar ambiente e comoção que justifiquem o incremento das guerras de agressão e rapina contra os países árabes no Oriente Médio. Muito pouco ou quase nada se diz sobre o verdadeiro terrorismo promovido desde há séculos pelo Estado imperialista francês contra estes povos. Neste sentido, é importante relembrarmos dos “Massacres de Sétif e Guelma”, crimes hediondos do imperialismo francês contra milhares de civis muçulmanos e que custaram a vida de pelo menos 45 mil argelinos. Crimes propositalmente “esquecidos” pela historiografia oficial, mas que, certamente, estão na base e causas do “terror” que hoje atinge o seu território.

http://anovademocracia.com.br/162/16a.jpg
Manifestação na cidade de Argel, capital da Argélia, em repúdio aos massacres

Sob o comando da Frente de Libertação Nacional – FLN, as massas argelinas lutaram durante mais de sete anos, vertendo o precioso sangue de mais de um milhão de pessoas pela libertação da Argélia. Desde a noite do dia 31 de outubro de 1954 ao dia 18 de março de 1962, a FLN realizou um profundo, persistente e amplo trabalho de mobilização das massas contra a ocupação estrangeira por meio de manifestações de massas e atentados à bomba nos territórios argelino e francês, somando-se às ações guerrilheiras que se estendiam por todo o país.

Não é necessário dizer que, naquele tempo como hoje, os heroicos combatentes árabes eram tratados como “terroristas” e que, desde aquela época, a morte de civis em ambos os lados já recebiam tratamento diferenciado por parte do monopólio da imprensa e também entre muitos que se diziam de esquerda. 

No dia da assinatura do armistício...

08 de maio de 1945. As potências do Eixo e os Aliados assinavam o armistício pondo fim à 2ª Guerra Mundial. Uma manifestação convocada pelo Partido do Povo Argelino (PPA) reúne-se para depositar flores ao pé do “Monumento pelos Caídos”, situado num bairro onde residiam muitos colonos europeus na cidade argelina de Sétif. O clima de tensão política era intenso. Estava proibido aos manifestantes portar armas ou desfraldar bandeiras pela independência da Argélia. Quando a manifestação com cerca de 8.000 pessoas chega ao bairro francês, um jovem de 20 anos agita uma bandeira da Argélia e, ao se negar a baixá-la, é assassinado por um colono francês.

http://anovademocracia.com.br/162/16b.jpg
Barbárie promovida pelos imperialistas franceses contra o povo argelino

Colonos armados atiram contra a multidão, sendo logo reforçados por soldados do exército francês e da Legião Estrangeira.  Centenas de corpos de manifestantes jazem caídos, sem vida, pelo chão. Mesmo estando desarmadas, as massas argelinas conseguem justiçar 27 colonos franceses. A notícia rapidamente se espalha por toda a cidade de Sétif, onde a população majoritariamente camponesa rebela-se. Este é o início de um enorme levantamento popular que se estende por dezenas de povoados do departamento (estado) de Constantinois, assim como em Blida e Berrouaghia, localizadas em Argel, e Sidi-Bel-Abbès, em Oranés.

Em Guelma, situada a 150 quilômetros de Sétif, toda e qualquer “manifestação muçulmana” estava proibida durante o armistício. No final da tarde, cerca de 2.000 pessoas agitam bandeiras argelinas. A intervenção de uma milícia formada por colonos europeus faz estalar o tiroteio. Generalizam-se os protestos por toda Constantinois. Na maioria dos locais, dispara-se contra as manifestações assim que aparecem as primeiras bandeiras argelinas como em Bône, Blida e Kherrata. 

Caça aos árabes

Já no dia 09 de maio de 1945, o exército francês intervém em Sétif e logo em todo o departamento de Constantinois. A brutal e gigantesca repressão leva as massas argelinas às montanhas, onde resistem aos pesados bombardeios de dezoito aparatos de aviação. A repressão se estenderá durante longas seis semanas de “caça aos árabes”, contando com a ativa participação de milícias de colonos que torturam e assassinam até mesmo mulheres e crianças desarmadas.

http://anovademocracia.com.br/162/16c.jpg
Barbárie promovida pelos imperialistas franceses contra o povo argelino

O 17/10/1961

Os episódios de massacres promovidos pelo velho Estado francês contra o povo argelino não se restringem aos ocorridos no país africano. No dia 17 de outubro de 1961, poucos meses antes da independência argelina, em plena Paris, pelo menos 300 argelinos foram assassinados pela brutal repressão policial a uma manifestação pacífica pelo fim da descriminação e perseguição contra os árabes. Centenas de pessoas foram mortas publica e friamente sob golpes de cassetetes e a tiros e seus corpos eram arremessados no rio Sena. Outras milhares foram sequestradas e aprisionadas em estádios onde eram espancadas e torturadas. Estes hediondos crimes foram ordenados pelo facínora presidente Charles de Gaulle e comandados pelo chefe de polícia Maurice Papon (condenado por ter colaborado com a ocupação nazista, na prisão de 2.400 franceses durante a 2ª Guerra). 

Conteúdo exclusivo para assinantes do jornal A Nova Democracia

Os envolvidos na repressão à manifestação do dia 17 de outubro de 1961 em Paris seguem impunes, enquanto os sucessivos governos fazem de tudo para encobrir o ocorrido. Numerosos arquivos cruciais para o reconhecimento das vítimas desapareceram e o único documento oficial sobre o assunto, o relatório Mandelkerm — encomendado pelo governo e tornado público em 1998 — apresenta um número de mortos bem inferior à realidade e repete a mentirosa e sórdida versão segundo a qual teria ocorrido troca de tiros entre os manifestantes e a polícia, repetindo a surrada e internacional cantilena de que foram os “manifestantes que provocaram a polícia”.

Referências:

www.passapalavra.info  
YAZBEK, Mustafa. A Revolução Argelina. São Paulo: Unesp, 2010 
socialismo-o-barbarie.org

Assine já!

Receba quinzenalmente a edição impressa
do Jornal A Nova Democracia no seu endereço
e fortaleça a imprensa popular e democrática.

Endereços


Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
CEP: 20.921-060
Tel.: (21) 2256-6303

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Tel.: (11) 3104-8537

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

EXPEDIENTE

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas
Fausto Arruda 
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto 
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond 
Sebastião Rodrigues
Vera Malaguti Batista

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja
Rafael Gomes Penelas

A imprensa democrática e popular depende do seu apoio

Leia, divulgue e conheça. Deixe seu nome e e-mail para se manter informado
Please wait