Senhora da cultura da viola

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Uma vida dedicada à viola e à cultura popular brasileira, Inezita Barroso influenciou gerações de violeiros. Sempre interessada em conhecer melhor, vivenciar e divulgar essa cultura, lecionou folclore brasileiro em universidades e apresentou o programa Viola, Minha Viola por 34 anos. E pela música caipira autêntica, Inezita brigava com toda força, sendo uma das figuras mais importantes desse gênero, um símbolo de resistência. Inezita faleceu em 8 de março desse ano, deixando saudades e um legado inapagável à viola e aos violeiros do Brasil.

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Ignez Magdalena Aranha de Lima, a Inezita Barroso, nasceu em uma família tradicional paulistana. Formou-se em Biblioteconomia pela Universidade de São Paulo (USP), mas seguiu um destino diferente do traçado pelas circunstâncias da vida. Já na infância mostrava sua personalidade, quando preferia ficar ouvindo peões tocando viola do que participar das atividades de sua família durante as férias em fazendas de tios.

Eles não me deixavam tocar, diziam que ‘menina não toca viola’.  Mas um dia ‘bati o pé’ e disse que queria tocar de qualquer jeito. Então um deles falou ‘então toca aí, você não sabe tocar mesmo’, mangando, e eu falei ‘me dá aqui então, porque já aprendi só olhar vocês tocando’. Peguei a viola toquei e cantei, e eles se renderam, dizendo ‘ué, pode tocar sim’ —contou Inezita em uma entrevista que gentilmente nos concedeu em 2009.

Só fui poder comprar minha viola com dezesseis para dezessete anos, porque aqui em São Paulo era feio tocar viola, aquele velho preconceito contra o caipira, fiquei muito chateada com isso. Nunca gostei de ver pessoas xingar caipira, dizendo que pessoa mal vestida é caipira, pessoa doente é caipira, então falei ‘é por aí mesmo que eu vou (risos). Agora mesmo que eu vou defender o caipira, tocar viola e levá-la para a televisão’ — acrescentou.

Levei a viola para a boate e toquei em casa noturna com Adauto Santos. Junto com outros defensores da nossa cultura fomos plantando cada vez mais para agora colhermos os frutos, e um deles é o fato de hoje ninguém mais xingar o outro de caipira, porque não é mais uma xingação, já que ninguém fica ofendido e sim tem um baita orgulho de ser caipira.

Inezita iniciou sua carreira na década de 1950, recebeu prêmios de melhor cantora, gravou discos, documentários, participou de filmes e  viajou para vários países levando a cultura brasileira.

Para mim, que há 30 anos optei pela viola, pela música de raiz, era sempre uma grande honra poder me apresentar no Viola, Minha Viola ao lado de Dona Inezita Barroso. Sabia o quanto ela gostava de meu trabalho e ficava feliz com a minha presença, minha viola mineira que cantava a cultura popular tradicional — diz o violeiro Chico Lobo, importante representante da autêntica viola caipira.

Pude fazer alguns shows com Dona Inezita pelo Brasil, e era sempre um aprendizado. Seu gosto em conhecer, valorizar o folclore, a cultura raiz, a cultura caipira, fez dela a principal dama da música brasileira de um Brasil profundo. Com certeza um exemplo pra mim e um grande estímulo pra seguir em frente na minha carreira de Violeiro — afirma Chico.

A mais de dez anos Chico Lobo apresenta, paralelo aos seus shows, os programas Viola Brasil pela TV Horizonte, e o Canto da Viola, pela Rádio Inconfidência, ambas de Belo Horizonte (MG). Ele declara que sua inspiração para realizar esse trabalho de resistência “sempre será dona Inezita Barroso”.

Amor pela sua cultura

Inezita deixou um legado inestimável para a nossa autêntica arte e tradição brasileira. Além da força e garra de uma mulher que viveu e profissionalizou-se numa época que arte nem era considerada trabalho, quanto menos tratando-se de música popular de raiz — declara a violeira Katya Teixeira, que desenvolve um trabalho de viola voltado para as tradições brasileira, sem um rótulo.

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Me lembro um dia quando eu estava muito nervosa nos bastidores pra entrar na gravação do programa Viola Minha Viola, e ela me disse que mesmo depois de tanto tempo de carreira sempre ficava nervosa para entrar em cena. Falou que isso é por causa da responsabilidade que temos com a nossa arte e o que vamos apresentar ao público. Pela Inezita e por tantos outros mestres seguimos falando e cantando os Brasis — fala Katya.

Inezita influenciou diretamente a carreira de muitos artistas brasileiros, entre eles o cantador violeiro Eliezer Teixeira.

Quando cheguei do Nordeste aqui em São Paulo comecei a ouvir a jovem guarda, Roberto Carlos, aprendi a tocar violão e estava indo nesse embalo. Mas, um dia assistindo um programa de televisão na casa de vizinhos, porque garoto do sertão aqui só tinha televisão na casa de vizinhos, vi uma moça bonita sentada em uma cancela, conhecida aqui por porteira. Ela cantava coisa belíssimas e tocava violão — conta Eliezer em uma entrevista que nos concedeu em 2012.

Certa hora a pessoa que a estava entrevistando perguntou o que ela achava do Roberto Carlos. Então pensei ‘puxa, essa moça cantando desse jeito em uma cancela, com esse violão maravilhoso, com essa voz belíssima, e ainda vai falar do meu ídolo’ (risos). Só que para a minha surpresa ela respondeu: ‘Vamos falar de Brasil’?

Esse episódio marcou para sempre a vida e a carreira de Eliezer Teixeira, que hoje declara sua admiração. 

Inezita foi e continuará sendo a figura mais importante na vida musical caipira brasileira. Teve vários programas em rádios, como Mutirão na Rádio USP, e Estrela da Manhã, na Rádio Cultura.  Ou seja, além do Viola, Minha Viola, lutou e divulgou a viola em outros espaços — diz Eliezer.

Ela foi minha madrinha e de tantos outros. Lançou meu primeiro lp, cd e livro, sempre valorizando e dando espaço para novos violeiros. Ela também abriu mão de uma grande carreira de folclorista e cantora da MPB para se dedicar à viola caipira, claro, radicalmente, de raiz — conclui.

Cantora, instrumentista, atriz, folclorista, professora, apresentadora de rádio e televisão, essa lutadora faleceu em março de 2015, aos 90 anos de idade, deixando um legado muito importante para o mundo da viola.

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