UPPs e paramilitares: instrumentos do velho Estado contra os pobres

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Jacarezinho: UPP assassina mais um jovem

Era noite de segunda-feira, dia 29 de dezembro, antevéspera de réveillon, e o jovem Wesley Daniel Santos Oliveira, de 17 anos, como fazia todas as semanas, saía com sua família de um culto na igreja que fica a poucos metros do local onde policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), em abril de 2013, mataram o jovem Alielson Nogueira, de 21 anos, enquanto comia um cachorro-quente. Mal sabia Wesley que teria o mesmo destino naquela noite.


Enterro de Marcos Vinícius

Segundo testemunhas, na hora em que ouviu os tiros, ainda na porta da igreja, Wesley correu para se abrigar às margens do Rio Jacaré, quando foi atingido por três tiros, no peito, na barriga e na cabeça. Moradores, amigos e familiares do rapaz ainda tentaram socorrê-lo, mas quando chegou à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Manguinhos, Wesley Daniel já estava morto.

No dia seguinte, revoltados, moradores, representantes de organizações que lutam pelos direitos do povo e lideranças comunitárias fizeram um combativo protesto na comunidade. O ato começou no final da tarde e, mesmo com a chuva fina que caía no dia e o ostensivo aparato policial, 300 pessoas compareceram à manifestação. Familiares e amigos de Wesley estavam desolados e pareciam não acreditar no que havia acontecido.

Se a pessoa toma três tiros, a polícia não pode dizer que foi bala perdida como estão alegando. Bala perdida não acerta a pessoa três vezes. Eles deram para matar. Eles assassinaram meu primo a sangue-frio, um menino trabalhador saindo da igreja. Por isso nós estamos aqui fazendo protesto, porque só desse jeito o povo vê o que está acontecendo aqui dentro da comunidade — diz uma prima de Wesley que preferiu não se identificar.


Protesto de moradores na Cidade de Deus

Chega uma época como essa de final de ano, a gente querendo paz, fazendo votos para um ano melhor, com menos gente morrendo, com mais saúde para a nossa família, e acontece uma tragédia dessas. Nós não aceitamos isso. Ele era uma pessoa muito querida aqui e o que eles fizeram foi uma barbaridade, meu filho. Destruíram nossa família a troco de nada e agora estamos sozinhos. Ninguém do governo nos procurou pra nada, nem para ajudar com o enterro, nem para oferecer um ombro, uma cesta básica, nada. Enfiaram essa polícia aqui para matar nossos filhos, tchau e benção. A gente está por nossa conta aqui. Essa é a realidade — diz a tia de Wesley Daniel.

O ato, que saiu da Avenida Dom Helder Câmara, em frente à quadra da escola de samba Unidos do Jacarezinho, percorreu toda a favela do Jacarezinho, passando pelas inúmeras localidades, ruas, becos e vielas, terminando na quadra poliesportiva do Azul — parte mais alta da favela. No local, moradores denunciaram a militarização e a rotina de terror imposta à população pela Unidade de Polícia Pacificadora.

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Eles [policiais da UPP] batem na cara de mulher, mãe de família, xinga de puta, vagabunda, manda a gente para tudo quanto é lugar, não têm o menor respeito. As meninas mais jovens não podem ficar na rua, pois eles mexem, provocam, abusam e até estupro já fizeram com as meninas aqui da favela. Eles aparecem na nossa frente e começam a dar tiro por nada. Não tem ninguém dando tiro. Eu nunca falei nada, mas agora eu estou revoltada e vou dizer: essa corja é pior do que bandido. Eles entram na sua casa e roubam suas coisas. São piores que traficantes. A gente não aguenta mais isso. A gente quer paz, quer respeito, quer ter a certeza de que nossos filhos vão sair de casa e vão voltar em segurança — denuncia ainda a tia de Wesley Daniel.

Santa Teresa: UPP tortura jovens

Na noite de natal de 2015, três jovens com idades entre 13 e 23 anos voltavam de uma festa no Morro Santo Amaro, Zona Sul do Rio de Janeiro, pela serra de Santa Teresa quando foram parados em uma blitz por PMs da UPP Fallet/Fogueteiro/Coroa na Rua Prefeito João Felipe. Acusados de serem traficantes, os rapazes foram barbaramente torturados por policiais e ficaram com inúmeras escoriações pelo corpo. Dois irmãos de 20 e 23 anos contam que foram cortados com uma faca quente e todos receberam socos no rosto. Um outro jovem de 17 anos teve o saco escrotal queimado com a mesma faca e o cabelo incinerado com um isqueiro. Ao fim, o mesmo rapaz ainda foi forçado a fazer sexo oral em um de seus colegas enquanto outro PM filmava a humilhação.


Wesley Daniel

Depois de liberados, os rapazes foram à delegacia denunciar o caso. Presos “administrativamente”, os policiais militares foram liberados quatro dias depois. Segundo denúncias, naquela mesma noite, uma jovem moradora da Coroa teria sido atingida por um tiro de raspão no rosto quando passava pela mesma localidade de carro com o namorado. Assustado, o casal seguiu direto para o hospital Souza Aguiar, onde a jovem — que preferiu não se identificar — foi atendida e liberada depois de receber 20 pontos na face.

Cidade de Deus: criança assassinada

Outra maneira de o Estado agir e fazer valer seus desmandos em áreas militarizadas é a utilização de grupos paramilitares, conhecidos popularmente no Rio de Janeiro como ‘milícias’. No dia 23 de dezembro, mais de 20 paramilitares armados invadiram a Cidade de Deus, Zona Oeste do Rio de Janeiro, por volta das 20h, atirando a esmo contra um grupo de moradores e comerciantes na Rua Josafá, um dos acessos mais movimentados da favela. Marcos Vinicius dos Santos, um menino de 11 anos, estava na barraca de frutas de sua família, na Estrada Miguel Salazar Mendes de Moraes, ajudando o seu pai, Marcos dos Santos, quando foi atingido por um tiro no peito.


Marcos Vinicius

Levado para a UPA, Marcos Vinícius não resistiu ao ferimento e morreu antes mesmo de ser atendido. No local ainda foram socorridas outra vítima fatal — um jovem de 17 anos —, uma mulher e uma criança, que ficaram feridas e estão internadas no Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca. Após a morte dos dois jovens, moradores bloquearam por quase três horas, nos dois sentidos, a Rua Edgar Werneck e a Estrada Marechal Salazar Mendes de Moraes, as principais vias no entorno da Cidade de Deus. Revoltados, moradores ergueram barricadas ateando fogo em lixo e pneus. O Batalhão de Choque foi chamado e houve um intenso confronto com a população, que manteve a resistência por horas. Somente às 23h as vias foram totalmente liberadas.

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