Os verdadeiros donos da terra

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Carnaval estava chegando e alguns blocos já tomavam as ruas do Rio. Como fotógrafo eu iria direcionar minha lente para os foliões fantasiados. Esse seria meu trabalho, até aquele momento. Foi quando um amigo — o qual eu havia contado há algum tempo o meu desejo de cobrir as aldeias indígenas — me ligou dizendo que estava indo em dois dias para o Mato Grosso do Sul visitar as aldeias e perguntou se eu queria acompanhá-lo. Uma calça, uma bermuda, duas camisetas, mais alguns objetos de primeira utilidade e meu equipamento. Rapidamente fiz minha mala, avisei minha esposa e embarquei.

É essa experiência de dez dias que pretendo passar aqui para vocês, mesmo sabendo que, por mais fiel que eu seja aos detalhes, não terei como transmitir as sensações vivenciadas de forma plena.

Ao chegar em Campo Grande, o que tínhamos, somente, era um número de telefone como contato. Nunca tínhamos ido ao Mato Grosso do Sul, portanto nossa aventura já começava ali mesmo. Foram necessárias algumas ligações, pois o contato inicial que possuíamos não poderia nos receber, mas nos passou o número do telefone de outra pessoa que poderia nos ajudar. Havia problemas de saúde, viagens programadas, parecia estar tudo perdido. Mas, por fim, após as ligações e desencontros, conseguimos com que tanto o nosso primeiro contato como o outro companheiro indicado por ele nos acompanhassem! O que me ocorreu naquele momento foi: “Deuses indígenas estão nos ajudando!”.

A experiência que narro a seguir é composta por um misto de tristeza, indignação, revolta, admiração, força, perseverança e beleza.

A realidade indígena no Brasil é uma realidade coberta de violências e covardias por parte do latifúndio e agentes do velho Estado, em que os povos originários que habitam o território há séculos (quiçá há milênios), e nesse caso particular da região que visitamos, o povo Guarani Kaiowá, é terrivelmente atacado, oprimido e assassinado por bandos de pistoleiros a mando de ruralistas (latifundiários), que, nessa investida, têm apoio na aparente omissão do Estado. Essa suposta omissão, percebemos através de tudo que registramos, é de fato uma política deliberada de genocídio dos povos indígenas, ditada desde o governo federal, passando por todas as instâncias (estadual, municipal, judiciário, etc.), tudo isso contando com o apoio do monopólio da imprensa, que se empenha em criminalizar os povos indígenas em luta para sustentar o patrão, o agronegócio. Homens que se dizem donos das terras, muitas vezes demarcadas como indígenas, ditam as regras da podre politicalha, financiam campanhas, comandam bandos de pistoleiros, cometem todo tipo de crime e seguem impunes. “Donos” autoproclamados que usurparam as terras dos povos indígenas através da expulsão dos ancestrais desse povo.

O índio nunca vendeu um hectare de terra, foi expulso, chacinado. Mas resistiu e resiste!

O resultado dessa monstruosidade é uma cultura e um povo jogado a mercê do veneno do mundo capitalista. Eles não têm terras para morar e exercer seus costumes, sua cultura. São jogados em reservas mínimas, têm seu espaço limitado e seus direitos brutalmente atacados. Querem lhes impor leis que não são as suas, costumes que não são os seus. Aos índios é imposto um estado de pobreza desesperador, famílias morando em beiras de estradas e sendo mortas por atropelamentos propositais. Mulheres sendo estupradas,  homens e crianças se suicidando. O que acontece no interior do país é um verdadeiro genocídio indígena.

Logo no primeiro dia me deparei com essa realidade ao visitar a Aldeia Guaiviry. Lá ouvi a narrativa de um dos descendentes de Nísio Gomes, cacique assassinado em 18 de novembro de 2011. Seus filhos assistiram os pistoleiros levarem o corpo de seu pai e dar sumiço. Até hoje o corpo não foi encontrado. Nísio foi chamado até a entrada da trilha e, quando começou a conversar com um dos homens, outros começaram a atirar de dentro da mata. Em seguida, seu corpo foi levado em uma caminhonete. Seu filho me revelou em lágrimas de revolta que só queria os ossos para enterrar seu pai junto aos ancestrais.

Outra aldeia visitada foi Kurussu Ambá, em Coronel Sapucaia. Nessa, o ataque foi recente, no dia 31 de janeiro de 2016. Começou ao meio-dia e nenhuma polícia apareceu no local. Todas as casas foram queimadas e o ataque ocorreu com três carros repletos de jagunços fortemente armados.

Os relatos que ouvi dos índios, de cada casa queimada, tinha em comum o: “perdi tudo, foi tudo queimado”. De um ouvi: “perdi todos meus documentos, roupas, panelas. Só estou com a roupa do corpo”. De outra ouvi: “[os pistoleiros] chegaram armados e me falaram, ‘se não quer morrer, pega teu filho e corre’. Também queimaram tudo, mataram o cachorro e jogaram no fogo. Uma moto que eu havia comprado, essa eles colocaram na pick up e levaram”.

Já na retomada do Tekohá Takwara, onde seu líder Marcos Veron também foi assassinado, os tiros disparados a noite por pistoleiros têm se tornado algo comum. Os índios me mostraram a demarcação das terras e eles estavam em Terra Indígena. O juiz, que  fez uma liminar que venceu no dia 17/02/2016, alegava que os índios estavam na lavoura e por isso deveriam sair. Eu, pessoalmente, vi que eles estavam na mata, bem distante da lavoura.

Assim, de aldeia em aldeia, de covardia em covardia, me deparei com um povo que vem sendo covardemente massacrado. Mas um povo guerreiro, que defende sua cultura, suas tradições e luta pela sua sobrevivência.

Ao mesmo tempo fui tão bem recebido! Apesar de todas as agruras que sofrem, me trataram com grande carinho. Sem dúvida, estar com eles foi uma das  maiores experiências da minha vida. Ter dormido, andado, comido e conversado com esses irmãos da mais rica e bela cultura, esse que também é o meu povo, do qual descendo, me fez querer levantar a minha voz no sentido de gritar que esse povo não pode ser tratado dessa maneira. Não pode ser mais explorado e enganado. Não pode ser morto por latifundiários gananciosos, sem escrúpulos de produzir, a cada investida, uma barbárie maior. Não pode ser chacinado por pistoleiros e policiais.

Você precisa olhar sua causa a fundo. Chega de covardia com os Guaranis Kaiowá, chega de covardia com todos os índios. Isso vem desde 1.500 e agora, em 2016, vi que nada mudou. Devolvam suas terras!

ELES SÃO OS VERDADEIROS DONOS DAS TERRAS!

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