Dialogando através da música

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Formado em Física pela Universidade de São Paulo (USP), Guilherme Vazquez resolveu se dedicar à música, algo que queria desde a adolescência, mas havia então sido impedido pela questão financeira. Trabalhando com a música brasileira, que vê extremamente significativa no mundo, mistura vários gêneros e prepara seu primeiro disco.

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Na minha infância, meu pai era vendedor de calculadoras e, posteriormente, abriu sua oficina mecânica. Me incentivava para muitas atividades, mas, música não era algo que fosse estimulado —conta.

Já minha mãe incentivou a leitura, por acreditar ser importante. Mas o fato é que dada a minha classe social e as necessidades objetivas, e tendo em vista o modo como a arte é desvalorizada no mundo atual, a música não veio pela veia familiar.

A primeira vez que desejou tocar um instrumento foi quando um saxofone chamou sua atenção.

Pedi a minha mãe, ela foi ver o valor e disse que não era possível por ser muito caro e não saber se era só “fogo de palha”. Então tempos depois ela me deu um violão, que era muito mais barato, possível de se ter —lembra.

Comecei a tocar algumas coisas no violão. Como dominava mais a leitura do que a música, e conseguia compreender melhor a literatura, a canção era a música que mais fazia sentido para mim —diz.

Fiz aulas de violão com um senhor, o seu Jerônimo, que me ensinava as coisas que sabia e logo depois fui estudar com dois professores, hoje amigos. Eles moravam perto de casa e haviam estudado música em centros tradicionais de ensino.

Guilherme aprendeu muito sobre violão e começou a compor, vendo nisso uma maneira de se expressar.

Quando eu comecei a estudar percebi que existia muito mais possibilidades de me expressar do que eu havia imaginado. Minhas composições melhoraram bastante em todos os sentidos — fala.

No ensino médio eu tive uma banda, tocava nas festinhas dos amigos, luais etc. Foi quando pensei que poderia estudar música de verdade. Mas, como minha condição social não permitia me dedicar à música, e meu conhecimento ainda não era suficiente para entrar em uma boa universidade, optei pela física —continua.

‘É necessário ter uma profissão’, meus pais diziam. Eles nunca me impediram de fazer música, mas dada a história de ambos, que vinham de uma situação de bastante pobreza, o maior medo deles era que não conseguisse me sustentar — defende.

Mas enquanto estudava Física, se desenvolveu musicalmente, ingressando no Conservatório de Arte de Guarulhos.

Formei o grupo Caravançará, atual Caravana, que explorava várias sonoridades. A atividade musical continuou comigo —conta Guilherme, que também participou do CasaForte Trio.

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Misturando artes com música e física

Algumas pessoas acreditam que as áreas são excludentes, o que para mim é uma grande bobagem. Não existe essa de “ah, eu sou de humanas” ou “ah, eu sou de exatas”. Isso cria grandes barreiras. O conhecimento é humano e sendo assim todas as áreas são potencialmente interessantes —fala.

Me formei em física em 2013 e continuo lecionando. Já dei aulas em cursinho popular, cursinhos reconhecidos, escolas, e desenvolvi trabalhos interessantes relacionando música e física, inclusive já compus canções que falam disso —continua.

Guilherme diz que em sua música aparece uma grande mistura de gêneros.

Tango, baião, sambas, ijexá, jazz etc. O que mais me atrai é a junção de várias linguagens na síntese de uma própria. É isso que busco em um disco ou artista —declara.

Me impressionei quando tive contato com o Jazz, mas também quando escutei o disco do Milton de 1970, e Paulinho da Viola, Gonzaguinha, Cartola, Nelson Cavaquinho etc. São eles o que eu acredito ser a síntese em uma sonoridade muito particular utilizando a tradição —diz.

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Minha mãe é espanhola e a música espanhola sempre tocou em minha casa, mesmo sem sabermos quem era que tocava, ou as diferenças objetivas entre uma buleria e um tango flamenco. Certamente há isso na minha música —afirma.

Desde cedo, Guilherme pensava em aprender a tocar para executar canções da música popular brasileira.

A música popular brasileira assimilou uma diversidade de ritmos africanos, europeus, asiáticos e americanos, que a tornaram de um colorido singular. Esse transitar de um tango para um samba e daí para um ijexá, é uma coisa que apenas a música brasileira possui —fala.

A riqueza das letras e sofisticação que existe entre melodia e texto é algo que possui e desenvolve com muita seriedade. O que sempre me chamou atenção é essa pluralidade de elementos constituindo uma linguagem tão singular —diz.

Guilherme acredita que a música brasileira é o melhor caminho para se expressar.

A representação cultural está intrínseca ao objeto artístico, uma vez que nasceu de mim e sou a representação da minha cultura, tanto quanto meu pai, o padeiro, o alfaiate, a empregada doméstica, o borracheiro etc. —expõe.

A diferença é que sendo artista me debruço sobre um objeto artístico específico como trabalho. Entendo arte como um ofício que possui suas particularidades que a distingue, e, portanto, a torna singular. Mas todo trabalho possui o mesmo valor de modificação do mundo.

Guilherme está finalizando a gravação do seu primeiro disco, Doze Poses, que além da mistura de gênero terá uma  mistura entre as artes. 

É uma fusão entre Canção, Fotografia e Poesia, cada canção tem em si associada uma imagem fotográfica com a qual dialoga. A poesia permeia as canções no disco e no show, criando um ambiente e uma narrativa —relata.

O repertório é inédito, com canções minhas e outras em parceira. Algumas tem oito anos e outras apenas meses, isso é bom porque traça um panorama bastante amplo sobre minha criação artística —diz.

O lançamento deverá ser em fevereiro. Paralelo, lancei meu primeiro livro de poesias, e montei com meu amigo Pedro Lacerda Lopes, a produtora Jabuticabeira. A ideia é viabilizar a produção de pequenos artistas, que não encontram lugar nos espaços tradicionais — conclui.

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