Ônibus incendiados e a emergência do protesto popular no Brasil

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Em Madureira, Zona Norte do Rio, protesto de moradores revoltados com a morte do menino Ryan Gabriel, em pleno domingo de Páscoa, terminou com dois ônibus e uma estação do BRT incendiados. Poucos dias depois, em 03 de abril, a população de Magé, na Baixada Fluminense, revoltada com incursão policial que resultou no assassinato de outra criança, Matheus, incendiou quatorze ônibus e depredou outros vinte. O monopólio de imprensa, como sempre, lamenta e condena o “vandalismo” contra o “patrimônio público”, calando sobre as causas da fúria popular, quase sempre desatada a partir da morte de inocentes, cujas vidas não podem ser nem reparadas nem substituídas.

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Nos centros urbanos e no interior, o povo, cada vez mais, protesta de forma combativa

Mas por que, afinal, são os ônibus alvos preferenciais da população revoltada? Seria essa ação orquestrada por “bandidos”, “vândalos” infiltrados em meio aos manifestantes, ou uma vigorosa demonstração de força dos setores mais fundos do proletariado, indignados com as péssimas condições de vida existentes nos grandes centros urbanos?

Mais de mil ônibus incendiados em dez anos. Ou seriam milhares?

De 2004 a 2015, segundo dados da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), mais de mil ônibus foram incendiados no Brasil. Esses dados, que colocamos a título de ilustração, não são, contudo, confiáveis. Não há registros para 2007 e 2008. Em 2006, em São Paulo, a Secretaria de Segurança Pública desse estado noticiou a ocorrência de 90 ônibus queimados somente no mês de maio, o que por si só seria superior à estatística nacional reproduzida no gráfico. Apenas na cidade de São Paulo, segundo a secretaria de transportes, foram 520 coletivos incendiados entre janeiro de 2005 e junho de 20151. No Rio de Janeiro, no último ano, cinquenta ônibus foram incendiados, causando um prejuízo de R$ 19 milhões para as empresas2.

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Mas tomemos o sentido geral dos números da tabela, aquilo que eles nos dão como tendência, embora quantitativamente subestimados. Indicam um sensível aumento dessas ações a partir de 2013, coincidindo com a eclosão de multitudinárias e combativas manifestações em todo o País. Em 2014 elas chegam ao auge, diminuindo em 2015, porém, ainda assim, mantendo-se num patamar bem acima do verificado antes de 2013. Percebe-se também, em 2010, um número expressivo de ocorrências, mas acreditamos que isso se deve a um episódio particular, no caso, a onda de incêndios de ônibus no Rio de Janeiro, que foi usada como pretexto para a ocupação dos complexos do Alemão e da Penha pelas forças repressivas.

A curva ascendente a partir de 2013 parece-nos comprovar tratar-se de verdadeira ação de massas, expressão profunda do seu descontentamento, não apenas contra a violência policial, mas contra toda a ordem que as subjuga, englobando desde as condições de moradia e emprego até o custo de vida cada vez mais elevado — fortemente representados pelo sistema de transporte, sucateado e caro.

Genocídio nas favelas e ônibus incendiados

Corroborando o que dizemos acima, citamos matéria do portal de jornalismo ponte.org, assinada por Paulo Eduardo Dias, que apurou que, a cada 10 ônibus queimados na cidade de São Paulo, quatro o foram horas após mortes cometidas por PMs3. Diz a reportagem:

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“Dos 46 coletivos queimados em 2015 (de acordo com a SPTrans, que inclui na sua contabilização as vans operadas por cooperativas), a reportagem conseguiu levantar a motivação de 29 deles. Em 20 casos, os ataques foram cometidos horas depois de ocorrerem mortes na região. Desses, 18 após supostos confrontos com a polícia e dois após homicídios cometidos por autores não identificados. Em outros sete, a queima ocorreu após aumento da passagem de transporte. E em dois casos, ocorreram depois de uma forte chuva causar inundações no bairro do Jaraguá”.

Ou seja, trata-se, tal manifestação, duma resposta evidente das massas faveladas à brutal repressão policial, que ceifa seus filhos indiscriminadamente. Cabe dizer que, em números absolutos, o Brasil é o país com a maior taxa de homicídios do mundo, registrando 59.627 mortes em 2014, segundo mais recente estudo publicado pelo Instituto de Política Econômica Aplicada (IPEA). Isso equivale a 10% dos homicídios praticados no mundo! O mesmo estudo aponta o grosso das vítimas como sendo homens jovens, de 15 a 29 anos, negros — na sua imensa maioria pobres, agregamos nós4. Diante desta realidade atroz, os brados hipócritas contra a “violência” em geral — levantados também pela maior parte da “esquerda”, contaminada pelo mal que Lenin chamava “respeitabilidade burguesa” — só podem ser repudiados como conivência de fato com a violência sistemática perpetrada pelo velho Estado reacionário contra as massas populares. A recente inclusão, pelo Congresso Nacional, do ato de depredar ou incendiar meio de transporte como crime de terrorismo (cujo veto de Dilma não passa de encenação, pois será provavelmente derrubado pela Câmara) revela a preocupação das classes dominantes com o tema.

A rebelião se justifica!

Na verdade, enquanto os noticiários atualizam diariamente os acontecimentos de Brasília, no mais fundo do povo brasileiro, oprimido pela miséria e repressão, gestam-se acontecimentos muito maiores e mais importantes que esses narrados pelos cronistas políticos das classes dominantes. Não é para tomar partido de nenhum dos bandoleiros que disputam o gerenciamento de turno que as massas populares vão crescentemente às ruas, mas para defender os seus interesses pisoteados, e que seguirão a ser pisoteados independentemente de quem vença entre os “de cima”. Tampouco vão às ruas exaltar juízes ou policiais, como faz a classe média abastada, iludida com o ilusório “Estado de direito”, mas sim à sua maneira, sabedoras por longa experiência prática que esse Estado, vestindo a veste e usando o nome que quiser, tem como função primordial reprimi-las, toda vez que levantam a cabeça, todo o tempo na verdade. Por isso, a violência e contundência com que se erguem marcam o imenso repúdio a essa velha ordem que existe em seu seio; constituem, por assim dizer, sua assinatura de classe, seu selo.

Aos revolucionários cabe compreender, e defender incondicionalmente, a justa rebelião popular. Cuja potência, uma vez encontrando direção à altura, capaz de apontar os alvos corretos e as etapas determinadas da luta, derrotará infalivelmente qualquer obstáculo que se interponha no caminho da sua libertação.

Notas

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