Povo artista

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Artista popular que faz um trabalho de teatro nas ruas, escolas e em alguns palcos, Osvaldo Alves é pedreiro nas horas vagas. Também autor de algumas esculturas e do livro ‘A vida dos sonhos de um pedreiro’; Osvaldo é um brasileiro que há anos migrou do agreste nordestino para São Paulo em busca de estudo e trabalho, e acabou desenvolvendo arte.

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— Meu trabalho é todo produzido por mim mesmo. Crio textos teatrais para adultos e crianças, e faço o cenário com material reciclado que acho no lixo, tipo pano de cortina etc. Faço muitas apresentações nas ruas interagindo com o público, e também casas de cultura e escolas — fala Osvaldo.

— É uma luta, sem dinheiro, sem patrocinador, mas vou usando a criatividade para fazer a minha arte, na medida do possível. Mas é um trabalho de  formiguinha, lutando contra a adversidade, não é coisa que dá dinheiro. Para ganhar a vida temos que correr atrás de outra coisa — diz o artista, que para sobreviver ainda trabalha na construção civil.

Ele nasceu na fazenda Maniçoba, vilarejo de Jenipapo, município de Sanharó, no agreste pernambucano.

— Morei em São Paulo com os meus pais na infância, mas a família voltou para Pernambuco. Comecei com a minha arte ainda muito novo lá na minha terra. Tinha muito contato tanto com os palhaços dos muitos circos que iam lá, quanto com os atores mambembe que faziam espetáculos nas ruas — recorda.

 — Também tinha contato com os repentistas, até um parente meu era repentista. Inclusive, na minha família têm muitos artistas. Meu pai mesmo era cantor, e nós convivíamos com esse pessoal todo da arte popular — continua.

— A literatura de cordel também estava bem presente na minha infância, mas só como ouvinte; como leitor não dava porque eu não tinha condições para ir à escola, aprender a ler. Só fui me alfabetizar mesmo aqui em São Paulo, sabia alguma coisinha, muito pouco.

Quando completou 18 anos de idade, Osvaldo migrou novamente para São Paulo, desta vez sozinho, onde permanece.

— Fiz alguns cursos de teatro, fui conhecendo outros artistas, e muitos poetas me inspiraram. O Nordeste mesmo é rico nisso, muita poesia. Tiro muita coisa de lá até hoje, gosto de trabalhar a cultura popular voltada para o folclore nordestino — declara.

Entre outros, Osvaldo tem personagens bem humorados que falam aquilo que ele quer dizer.

— Tenho um palhaço que se chama Pororoca que vez ou outra apresento. Também tenho um personagem muito popular, que trabalho bastante, chamado Zefa Boca de Fogo, a prefeita de Xichiperukier de Pedra Lascada — conta.

— Ela fazia parte de uma peça de minha autoria. Montei um grupo para encenar, mas não deu certo, e isso é comum, porque o pessoal costuma sonhar com fama, brilhos, dinheiro e acaba se perdendo no meio do sonho — lamenta.

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— Então tirei a Zefa Boca de Fogo da peça e comecei a fazer apresentações nas ruas, escolas e lugares públicos em geral para não deixar a história se perder por inteiro. Com esse personagem faço uma misturada do Brasil colonial com o Brasil de hoje, as corrupções, roubos, para que as pessoas reflitam — diz.

Ficção e realidade

— Se a pessoa for ver na história de todos os poetas, seja amador ou profissional, famoso ou não, vai ver que eles tiveram várias fases na vida. E essa escada da vida que nós temos que subir, em cada degrau temos uma nova ideia, uma nova posição, às vezes mais calmo, outras mais radical — fala.

— Já escrevi muitas poesias humorísticas, e de uns tempos para cá estou escrevendo homenagens. Entre elas, está o espetáculo ‘Dominique me falou do rei’, homenagem a Luiz Gonzaga e também a Dominique Dreyfus, jornalista francesa que veio de Paris para entrevistar Luiz Gonzaga e escrever a sua biografia.

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Osvaldo diz que muita gente só conhece Luiz Gonzaga como músico, mas ele foi também um grande empreendedor musical e deu oportunidade para muita gente.

— Por gratidão mesmo ao que ele fez pelos artistas, pela arte do Nordeste, procuro sempre manter o seu trabalho dentro do meu, e homenagear assim também os poetas, porque o Luiz Gonzaga não era letrista, ele cantava e tocava — diz.

— No espetáculo não fico caracterizado de Gonzaga, somente canto suas músicas. E o acompanhamento musical é só de percussão, porque é difícil achar músicos para trabalhar assim na rua, sem dinheiro, porque eu não passo nem o chapéu, é tudo por amor mesmo.

— Então junto um pessoal da percussão para bater pandeiro, tocar sanfona, triângulo, e fica um trabalho muito bom. Tem um vídeo no YouTube comigo cantando ‘Letra I’, que é uma música do Zé Dantas. Quem quiser pode dar uma olhada — anuncia.

Osvaldo faz também homenagens encomendadas por escolas, desenvolvendo um tema.

— Prefiro ficar livre para escrever sobre o que eu quiser, mas quando é tema escrevo também. Trabalho bastante com escola e gosto disso. Eu mesmo agora estou concluindo o terceiro ano do ensino médio, e, recentemente, tive um trabalho na escola sobre classes sociais, e bolei o ‘Pedro no país das agonias conta.

— O cenário é bem prático, feito em pano, fácil de enrolar e levar embora quando acabar. Nessa parte da reciclagem do cenário me inspirei bastante no carnavalesco Joãozinho Trinta — declara.

O talento de Osvaldo passeia por outros setores das artes. Como artista plástico ele desenvolveu esculturas em argila e obra em bronze. Escreveu um livro chamado ‘A vida dos sonhos de um pedreiro’.

— Tenho tido por perto pessoas especiais que têm me dado uma força. Amigos que veem meu esforço para realizar meu trabalho e vão ajudando. E o que mais quero agora é concluir o ensino médio, receber meu diploma este ano e poder pegar minha DRT, o registro profissional do ator — fala.

—  Não cheguei a concluir meu curso de teatro por não ter a DRT. Sendo que, na verdade, digo que sou um autodidata que aprendeu tudo na escola da vida mesmo. Encenando nas ruas é que aprendi de verdade a fazer teatro — conclui Osvaldo Alves.

(11) 997766844 / 987569414 / 968709973 são os contatos do artista.

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