Muros no mundo: USA X México

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Em uma noite de novembro de 1989, ruía o muro de Berlim, cidade tornada esquizofrênica, com dupla personalidade — que parecia viver dois sistemas políticos e econômicos.

Levantado em um só dia, 13 de agosto de 1961, o muro fechava os dois setores da cidade que estava encravada no coração da República Democrática da Alemanha (RDA).

A parte de Berlim, que correspondia à capital da RDA, representava dois terços do total da população berlinense. A RDA dispunha de um sistema de Estado e de governo de coalizão, mas que desde 1956 (XX Congresso do PCUS) passava ao domínio do social-imperialismo russo. A outra parte, com o nome de República Federal Alemã, era controlada pela França e Inglaterra sob a hegemonia do USA.

A URSS da época de Stálin jamais foi conivente com as manobras que buscavam perpetuar a divisão da Alemanha.

De 29 de novembro a 1º de dezembro de 1943, a Conferência de Teerã (no Irã), que reuniu o marechalíssimo Stálin, o presidente Roosevelt e o primeiro ministro Churchill (URSS, USA e Inglaterra, respectivamente), concluiu uma declaração comum de ações contra o nazi-fascismo e estabeleceu um protocolo de cooperação que seria desenvolvida após a queda de Berlim. Em 4 de maio de 1944, a URSS liberta sua última cidade, Sebastopol, inicia a estratégia do "rolo compressor" em direção a Berlim e, com a ajuda das resistências nacionais, escorraça as tropas nazistas e colaboracionistas de vários países da Europa.

Em 1945, 4 a 11 de fevereiro, durante a Conferência de Yalta (ao sul da península da Criméia, no Mar Negro, região da Ucrânia) J. Stálin, F. Roosevelt e W. Churchill coordenaram as operações finais contra o Reich. A URSS revolucionária definiu sua atitude frente à Alemanha nazista, com capitulação sem condições, e controle aliado em seu território por tempo determinado (reconstrução de guerra e destruição total do fascismo) destinado a pôr fim às hostilidades na Europa. Foi decidida a criação da ONU e definida a composição dos membros permanentes do Conselho de Segurança para manter a paz no mundo.

Em 2 de maio de 1945, tropas motorizadas do Exército Vermelho tomam Berlim e um soldado soviético realiza a memorável façanha de içar a bandeira vermelha no Reichstag. Diante do Exército Vermelho e dos demais aliados, em 8 de maio, é firmada a Ata de Rendição incondicional da Alemanha. 

Desmontar ele próprio?

Reagan e seus guarda-costas violam o território
nacional da RDA em franca provocação

Entre 17 de julho a 2 de agosto ocorre a Conferência de Potsdam, próximo a Berlim, que reuniu J. Stálin, H. Truman e W. Churchill (substituído por C. Atlle em 28 de julho), onde se definem medidas de democratização da Alemanha.

A URSS propôs uma paz duradoura, com desmilitarização da Europa (particularmente Alemanha, incluindo a supressão dos principais grupos monopolistas que apoiaram a corrente nazista do imperialismo e agiram como motor de guerra), revogação das leis raciais e discriminatórias do fascismo e a conservação da unidade da nação alemã e do território único. A princípio, todos os que promoveram o nazi-fascismo tiveram que abandonar a direção dos consórcios na Alemanha. Foi decidido implantar um regime de ocupação quadripartido e um Conselho de Controle que vigoraria até 1952, quando a Alemanha teria um governo definitivo, com eleições livres. No entanto, o imperialismo ianque foi a principal potência a desprezar o tratado. Por seu turno, até o falecimento de Stálin, a URSS cumpriu integralmente todos acordos.

Em 1946, agentes imperialistas iniciaram uma campanha de sequestros, assassinatos, espionagem, explosões e roubos de grande monta no setor oeste da Alemanha, inclusive em Berlim. Em agosto de 1949, o USA, liderando os dirigentes ingleses e franceses, funda inesperadamente a República Federal Alemã (cuja capital era Bonn, enquanto Berlim nunca fez parte da RFA). O USA criou uma fronteira artificial de 1.378 km com "duas Alemanhas", fracionou os planos de reformulação do sistema d e Estado e de governo, toda infra-estrutura industrial, comercial, de saneamento etc.

Em toda a parte européia sob sua influência, o USA assentou suas bases militares e criou a OTAN, depois de haver restaurado as corporações fascistas inundadas de capital ianque pelo Plano Marshal. A geopolítica ianque desenhou um planisfério de "Oriente e Ocidente" nas cabeças assustadas da burguesia e da pequena burguesia.

A 7 de outubro do mesmo ano, os alemães decidem extinguir o latifúndio, nacionalizar as grandes empresas, socializar os serviços médicos, de transporte, etc. E, para que tais medidas fossem asseguradas diante das ameaças da RFA, fundaram a República Democrática da Alemanha, tendo o setor oeste de Berlim como capital.

Colaborações de Kruschov

Ao invés de animar a intensa e ininterrupta luta de reunificação travada pelo povo alemão, Kruschov manda construir o muro que dividiu Berlim, o que serviu para reforçar o bloqueio militar e administrativo promovido pelo USA1. A propaganda anticomunista foi levada às últimas circunstâncias. Dirigida pelo USA, a imprensa "ocidental" denominava a parede de Muro da Vergonha e os países libertados de Cortina de Ferro, expressão criada por Goebells e retomada após a guerra por Churchill.

Quando o povo alemão pôs abaixo a parede, a propaganda anticomunista tratou o episódio como Queda do Muro de Berlim, acrescentando que ele marcava o fim do socialismo no mundo. Na verdade, o episódio marcou a falência do Estado do Bem-Estar Social, um dos artifícios da teoria da Terceira Via nas potências imperialistas da Europa, alimentados por doações das colônias, que lhes permitia equilíbrio econômico, manter determinadas garantias trabalhistas e exportar resíduos indesejáveis.

O muro erguido pelo USA na fronteira com o México parece rivalizar com as milenares muralhas (de mais de 5.000 km) da China. O Muro da Infâmia construído desde meados dos anos 90, é uma fortificação de aço e concreto que separa dois países do "mesmo bloco econômico" impedindo a livre circulação de trabalhadores.

O Nafta (um tratado "comercial" entre USA, México e Canadá), lançado em 1994 na administração Clinton para agregar os três países em um mercado comum da América do Norte, hoje se alastra com o seu jurisdicionismo, extraterritorialidade, polícia e administradores, do Alasca à Terra do Fogo, cinicamente rebatizado de área de livre comércio das Américas. Quanto à integração com o México ela significa tão somente a imposição de produtos do USA a 100 milhões de mexicanos. Para os interesses do Império não pode haver fronteiras, para as relações entre os povos constroem-se muralhas. Com o Nafta, o USA se apoderou do restante território do México sem necessidade de invadi-lo, como fizeram no passado, ocasião que o país perdeu 2/3 de seu domínio.

A fim de explorar ainda mais a força de trabalho de outros povos, fábricas estadunidenses são transferidas para o território mexicano, empresas de montagem e acabamento de determinados produtos para exportação vêm se instalando na parte fronteiriça de território mexicano. O império usa e abusa dos povos arrastando-os à miséria. E novamente cria maiores exigências e subterfúgios de exploração, de desemprego, fome e dominação.

Quem força a imigração?

Dados oficiais mostram que 66% dos operários dessas montadoras são mulheres que trabalham a um ritmo extenuante e recebem cerca de 30 dólares por semana. A grande maioria dessas montadoras é ianque, mas há ainda japonesas, canadenses e sul-coreanas. Trazem peças e componentes de outros países para montarem eletrodomésticos, automóveis e também fabricos têxteis no México. Em seguida exportam mercadorias com força de trabalho plasmada e não paga, sempre com ingresso favorável à balança comercial das grandes corporações, enquanto ampliam o seu domínio sobre a economia e a ordem política mexicana.

O muro ianque separa a colônia do Império — com muralhas cujo comprimento é equivalente à distância entre São Paulo e Belém —, um norte fechado da miséria aberta do sul, onde os explorados desafiam a polícia fronteiriça até à morte, no desespero de conseguir trabalho mais bem remunerado, o que não conseguem em seu país exatamente por culpa dos potentados ianques.

O muro vai do Rio Grande para o oeste, até à Califórnia, Pacífico adentro, em uma linha reta de 1.000 km pelas terras que no século XIX pertenciam ao México. Essa muralha atravessa o deserto ou divide, na zona urbana, uma mesma cidade, a exemplo da mexicana Tijuana e da "estadunidense" San Diego. No leste, o muro acompanha o Rio Grande até o sul do Texas, no Atlântico Golfo do México, e são mais 2.000 km de separação por uma linha natural de limite (o rio), com alambrados metálicos na margem ianque somente interrompido pelos canyons do Rio Grande. Os alambrados de cimento e aço, por vezes, atingem oito metros de altura, em outras áreas é barreira metálica, mais baixa e enferrujada, que vence rios e montanhas. Ao todo, mais de 3.000 km são pontilhados por postos policiais equipados com TV e sensores remotos, além de holofotes de radiação infravermelha que projetam intensas faixas de luz para espionar, à grande distância e em meio à escuridão, pessoas no território mexicano que transitem próximo à fronteira.

Os proletários latinos rastejam nas pedras de desertos e montanhas, por quilômetros, para não serem vistos e capturados. Depois, através do lixo, se infiltram pelos buracos cavados na cerca, quando se transformam em imigrantes ilegais. Cruzam a fronteira pelas zonas que parecem menos vigiadas, as mais perigosas, quando não ingressam em caminhões fechados ou trens, onde morrem às centenas, asfixiados se algo não dá certo. Muitos tentam atravessar os túneis de águas pluviais que passam por debaixo do muro, com mais de 1 km de extensão, ocorrendo muitos afogamentos em alguns trechos. Dados do governo mexicano indicam que, na tentativa de romper a fronteira, em 2000 morreram 499 mexicanos afogados, desidratados, vitimados por algum outro acidente, afora os que foram alvejados por tiros disparados pelos "caçadores" ianques2.

A propósito, a missão parlamentar brasileira que foi ao USA para tentar libertar os imigrantes brasileiros informa existir mais de 1.500 compatriotas presos em penitenciárias do Texas e Arizona, surpreendidos pelos ianques ao cruzarem a fronteira —, alguns, há quatro anos sem audiência marcada na Justiça.

Cinismo supremo: o governo do México disse condenar Israel, na ONU, por levantar um muro em territórios palestinos ocupados. Mas tolera que os magnatas do norte mandem erguer uma muralha na fronteira comum, espionem e disparem contra o território mexicano "para acabar com a imigração ilegal", tenham livre trânsito e levem às últimas circunstâncias a exploração dos operários mexicanos em seu próprio país. Quanto ao USA, que mantém o Estado sionista como ponta de lança na Palestina, evidentemente votou contra a moção apresentada pelos países árabes — o único membro do Conselho a agir assim.


1 Desenvolvendo sua política de pugna e conluio, a burguesia de Estado na URSS, sob o comando de Kruschov traidor, adotou centenas de medidas idênticas. Em Cuba, outubro de 1962, Kruschov enviou foguetões a pretexto de "proteger a ilha de uma nova invasão" (na iminência do USA reeditar o episódio da baía dos porcos, abril de 1961), sob os protestos dos partidos revolucionários, uma vez que as ameaças ianques eram repelidas de forma severa pelos povos de todo o mundo. Criado o incidente dos "foguetões", Kennedy pode estender o cerco econômico impondo o bloqueio naval à Cuba e exigir que a ONU inspecionasse o território cubano. Novamente o social-imperialismo russo respondeu permitindo a inspeção, sem ao menos consultar o governo cubano, iniciativa prontamente rejeitada por Fidel Castro.
2 Em quatro anos teriam morrido 1185 imigrantes mexicanos ao tentar cruzar a fronteira. Muito mais que as baixas dos que tentaram atravessar o Muro de Berlim, onde, em cerca de 30 anos, morreram 807 pessoas (Manifesto, Carlos Azevedo, 1997).

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