Um rótulo, oito ponderações

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Não existe vida sem água. É um bem fundamental para o ser humano e para todos os seres vivos. A água não pode se transformar em monopólio voltado para o lucro desmesurado. Portanto, é nossa obrigação discutir em todos as ocasiões essa sua transformação em mercadoria. Observando rótulos de garrafa de água que estão surgindo no comércio, que observações poderão ser feitas?

1ª ponderação: pure life drinking water

Estamos no Brasil. A Constituição Federal, em seu artigo 13, diz: “O idioma oficial da República Federativa do Brasil é a língua portuguesa”. Não há nenhuma razão para desrespeitarem o uso da nossa língua com palavras estrangeiras desnecessárias. Se está escrito no rótulo: Indústria Brasileira, todo ele tem de estar redigido em português.

2ª ponderação: still

Por que esta palavra aparece duas vezes no rótulo? Nos dicionários, still não apresenta nenhuma relação com água. Seria um código ou apenas uma contribuição para a invasão cultural, multiplicando o aparecimento de símbolos gráficos relacionados com termos estrangeiros? Só descobrimos que still significa calmo, e no rótulo indica água sem gás, por informação do atendimento ao consumidor. Quer dizer, um termo desnecessário no rótulo.

3ª ponderação: água purificada adicionada de sais

Esta é uma denominação determinada pelas autoridades. No início, as águas purificadas adicionadas de sais estavam sendo colocadas no comércio como água mineral. Houve protestos dos produtores de água mineral natural.

4ª ponderação: engarrafada pela empresa de Águas São Lourenço

A destruição das antigas fontes de água mineral de São Lourenço vem sendo denunciada.

A água de alta qualidade mineralógica é bombeada de forma predatória para sofrer uma desmineralização e ser adicionada de sais. Quanto à antiga fonte Oriente, foi destruída. Ao seu redor foi construída uma muralha para reparar a água e permitir o seu bombeamento.

Não há nenhuma preocupação com a qualidade da água tradicional, mas apenas uma agressiva política de lucros.

5ª ponderação: a Nestlé criou a Nestlé pure life

Isso está escrito no rótulo, o que firma o caráter artificial da água. É um produto industrializado em que o uso da expressão “água purificada” tenta sugerir ser ela melhor que a natural. Tudo````` bem ao estilo das empresas industriais, querendo sobrepor o seu produto aos da natureza, mesmo quando isso é totalmente impossível.

Houve um processo semelhante com o leite em pó, divulgado como “cientificamente preparado e sem contato manual”, reforçando ser o produto superior à própria amamentação e induzindo um receituário daquele produto para ser consumido já na saída dos berçários.

Como foi difícil desfazer, junto às mães, essa falácia que procurava encobrir a importância da amamentação, muito superior ao leite em pó! Leite em pó mal preparado no lugar da amamentação?

6ª ponderação: sociedade dos produtos Nestlé S.A., Suíça, proprietária da marca

O rótulo não deixa dúvidas: a água purificada com sais é apresentada como uma fórmula da empresa suíça, evidentemente patenteada.

Diante disto, para cada garrafa vendida uma quantia deve ser paga pelo uso da marca. O dinheiro será convertido em dólares e remetidos ao proprietário. O governo, como sempre, fará empréstimos a juros altos ou venderá matérias primas a preço vil para dispor dos dólares.

É um absurdo inacreditável: pagar patente de água no país que tem a maior reserva de água do planeta!

7ª ponderação: água é fonte de vida

Sendo isto um fato, água é um bem essencial e não pode ser transformada em mercadoria. Entretanto, lobistas das transnacionais conseguiram fazer com que o Congresso aprovasse, em 8 de janeiro de 1997, a lei federal 9.433, pela qual a água passou a ser um recurso natural limitado, dotado de valor econômico.

Ou seja, a água passou a ser mercadoria. De fato, a lei faculta um direito de uso essencial que é pago traduzindo uma venda. Sendo a água um bem fundamental à vida, o primeiro princípio que deve reger uma política nacional de águas e saneamento é o da universalização. Todo brasileiro — homem, mulher, criança, idoso — todos precisam ter acesso à água de qualidade e a preço módico. É um direito que ombreia com o direito à vida e o direito à saúde.

Mas a água que nós temos para beber é transformada em fonte de lucros absurdos, remetidos ao exterior.

8ª ponderação: Nestlé pure life

Essa tal água adicionada de sais minerais, tem a “garantia” do líder mundial em águas engarrafadas.

Segundo o Consórcio de Jornalistas Investigadores, há cinco gigantescas transnacionais buscando controlar a comercialização da água. A Nestlé, por exemplo, pertence à Vivendi Environneament, que atua em mais de 100 países com pelo menos 110 milhões de clientes.

Estamos cada vez mais cercados por um sistema monopolista de especulação financeira controlando até a água que vamos beber. Não podemos deixar um bem essencial à vida cair nas mãos das transnacionais, parasitárias, ávidas do lucro máximo e que impõem pagamento ao que não lhes pertence e nunca pertencerá — chegando a ponto dos brasileiros dependerem do preço que elas cobram pelas nossas vidas.

Não podemos permitir que duas atitudes nos dominem: o “não posso fazer nada” e o “isso não é comigo”.

Pratique a tomada de posição pessoal, mantenha uma redobrada atenção, crítica, democrática e verdadeiramente brasileira, em todos os atos do dia-a-dia.

No caso da água, leia sempre os rótulos. Jamais compre água purificada adicionada de sais. Professora, não permita que esta água entre na sua escola. Lembre-se que a Coca-Cola agora, da mesma forma, comercializa uma água semelhante. Rejeite-a também.

Vigie para os serviços de água da sua cidade não serem privatizados.

Precisamos exigir a revogação da lei antipovo e antibrasileira (a tal Lei nº 9.433) ou, dentro em breve, só poderá beber água quem tiver dinheiro para pagar.

Aí então, talvez, inventem um outro projeto cínico: o Sede Zero.

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