Semifeudalidade na terra do cacau de Jorge Amado

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A produção artística – que não foge do selo da luta de classes – pode e deve cumprir um papel de expandir e elevar o nível cultural do povo, entendido aqui como um agrupamento de classes sociais, composta principalmente pelo proletariado, pelo campesinato e pela pequena-burguesia e, em circunstâncias específicas, pela burguesia nacional.

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Colheita de Cacau, gravura de Cândido Portinari

O escritor baiano Jorge Amado, em um período de sua vida e de sua produção literária, ao construir os seus personagens e cenários a partir da visão do proletariado, conseguiu transportar para vários dos seus livros certas características e aspectos da nação e do velho Estado brasileiro.

No presente artigo, busca-se destacar certas características da semifeudalidade, uma das condições engendradas pelo capitalismo burocrático no Brasil a partir de 2 livros do escritor: Cacau (1933) e Terras do Sem Fim (1943), por abordarem a mesma área e por terem sido escritos em um período não tão distante um do outro.

Os dois livros abordam a cidade de Ilhéus, no sul da Bahia, nas primeiras décadas do século XX, auge da monocultura do cacau. Ilhéus passa a ser uma espécie de “Eldorado” nordestino, uma terra de “enriquecimento rápido e fácil”. Uma área dominada pelo secular sistema do latifúndio, onde os latifundiários eram a autoridade, diante da qual as instituições, as leis e a religião se inclinavam e o trabalhador estava praticamente em permanente débito. Terra marcada por conflitos, “caxixes” (grilagens), “barulhos” (tiroteios), emboscadas e assassinatos cometidos pelos capangas dos latifundiários contra os seus inimigos e contra os camponeses pobres. Terra onde a vida e o trabalho do povo eram extremamente precários, contrastando com a opulência das residências e da condição de vida dos latifundiários.

O camponês recém-chegado em Ilhéus, normalmente originário do árido sertão nordestino, chega esperançoso de mudar radicalmente as suas condições de vida e trabalho, muitas vezes acreditando em “enrricar”, nessa terra em que “dinheiro era calçamento de rua, era poeira de estrada” (1974, p. 69). Mas as esperanças não passam de sonhos que findam com o despertar para a realidade. Os sonhos desmancham-se com o tempo, da chegada na fazenda, da descoberta do regime do barracão e do duro trabalho na roça.

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Em Cacau, conhecemos Honório, um dos trabalhadores da fazenda, que conta para um recém-chegado à dinâmica do trabalho da fazenda e do regime do barracão, revelando assim as relações sociais de produção pré-capitalistas que ali se desenrolam: Nós ganhávamos três mil e quinhentos por dia e parecíamos satisfeitos. Ríamos e pilheriávamos. No entanto nenhum de nós conseguia economizar um tostão que fosse. A despensa levava todo nosso saldo. A maioria dos trabalhadores devia ao coronel e estava amarrada à fazenda. Também quem entendia as contas de João Vermelho, o despenseiro? Éramos todos analfabetos. Devíamos (...) (1976, p. 12).

Em Terras do Sem Fim, encontra-se outro relato, onde um trabalhador mais velho diz a um trabalhador recém-chegado:

– Amanhã cedo o empregado do armazém chama por tu para fazer o ‘saco’ da semana. Tu não tem instrumentos pro trabalho, tem que comprar. Tu compra uma foice e machado, tu compra um facão, tu compra uma enxada... E isso tudo vai ficar por uns cem mil-réis. Depois tu compra farinha, carne, cachaça, café pra semana toda. Tu vai gastar uns dez mil-réis pra comida. No fim da semana tu tem 15 mil-réis ganho do trabalho – o cearense fez as contas, seis dias a dois e quinhentos, e concordou. – Teu saldo é de cinco mil-réis, mas tu não recebe, fica lá pra ir descontando a divida dos instrumentos... Tu leva um ano pra pagar os cem mil-réis sem ver nunca um tostão. [...] Antes de terminar de pagar tu já aumentou a dívida... Tu já comprou mais calça e camisa de bulgarina... Tu já comprou remédio que é um Deus nos acuda de caro [...] E tu nunca paga a dívida [...]” (1974, 70-71).

Os trabalhadores iam até a despensa localizada na sede da fazenda, na casa grande, para comprar os mantimentos da semana. Só podiam adquirir mercadorias da despensa da fazenda, sendo proibidos de comprar em outros estabelecimentos, com risco de severas punições caso descumprissem a “lei” estabelecida pelo coronel. Regime de barracão, que impera ainda hoje em muitos latifúndios e mesmo em grandes empreiteiras como denunciado nas recentes obras das usinas do PAC, que mantinha o trabalhador sempre com saldo negativo.

Em Cacau, menciona-se a principal relação social de produção no latifúndio monocultor do cacau, a empreitada:

A empreitada, espécie de contrato para colheita de uma roça, faz-se em geral com os trabalhadores, que casados, possuem mulher e filhos. Eles se obrigam a colher toda uma roça e podem alugar trabalhadores para ajudá-los. Outros trabalhadores, aqueles que são sozinhos, ficam no serviço avulso. Trabalham por dia e trabalham em tudo. Na derruba, na juntagem, no cocho e nas barcaças. Esses formavam uma grande maioria. Tínhamos três mil e quinhentos por dia de trabalho, mas nos bons tempos chegaram a pagar cinco mil-réis” (1976. p. 64-65).

O trabalhador é sempre obrigado a arcar com os prejuízos com o seu salário. Em uma das passagens de Cacau, o responsável por cuidar das barcaças, é despedido por um capataz por ordens do latifundiário, seu “crime”: ter mofado trinta arrobas de cacau. O latifundiário desconsiderou o período de chuvas, que fez com que o cacau mofasse e ainda descontou do salário do trabalhador, que ficou com a conta negativa e deveria trabalhar gratuitamente para quitá-la, mas resolve fugir para não se submeter a essa condição servil.

Em outra passagem de Cacau constatamos uma das características mais perversas do capitalismo burocrático: a alienação do fruto do trabalho, pois devido às relações econômicas e sociais semifeudais, os trabalhadores não têm dinheiro para comprar o chocolate, onde “a maioria dos alugados e empreiteiros só conhecia do chocolate aquele cheiro parecido que o cacau tem” (1976. p. 65).

Nesta terra, era imposto ao trabalhador uma espécie de servidão, com o duro labutar da lavoura, das aberturas de picadas, sofrendo com um rol de doenças (tifo, varíola, etc.), que ceifavam inúmeras vidas.

Em Ilhéus, a exploração e a opressão do povo materializava-se nos contrastes socioespaciais existentes entre a moradia do coronel e sua família e a dos trabalhadores: “Ficaram olhando. Como era grande a casa do coronel... E morava tão pouca gente ali. O coronel, a mulher, a filha e o filho, estudante, que nas férias aparecia, elegante, estúpido, tratando os trabalhadores como escravos. E olharam as suas casas, as casas onde dormiam. Estendiam-se pela estrada. Umas vinte casas de barro, cobertas de palha, alagadas pela chuva” (1976, p. 11).

A ação dos latifundiários e seus capangas também se fazem presentes nas narrações dos dois livros. Os coronéis, quando precisavam eliminar um inimigo ou expulsar uma família camponesa de um pedaço de terra, mandavam seus “homens de confiança” executarem o “serviço”, sabendo que suas ações e de seus homens passariam incólume pela “Justiça” e quando eram julgados, recebiam a absolvição. Em Terras do Sem Fim, Horácio, um dos principais latifundiários de Ilhéus, se gabava de nunca deixar que um pistoleiro seu ficasse na cadeia. Certa vez saira especialmente da fazenda para libertar um que estava na prisão de Ferradas. Depois de tirá-lo de entre as grades, rasgara o processo na cara do escrivão (1974, p. 35).

São, sem sombra de dúvida, leituras importantes para aqueles interessados em conhecer o Brasil profundo e suas contradições.

Referências:

AMADO, J. Terras do sem fim. São Paulo: Martins, 1974 [1943].

AMADO, J. Cacau. 31ª Ed. Rio de Janeiro, Record, 1976 [1933]. 136p.

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