Ataque covarde e brutal do latifúndio, pistolagem e polícia contra os Guarani-Kaiowá

A- A A+

Estado fascista acoberta genocídio de indígenas no MS

O genocídio dos povos indígenas perpetrado por latifundiários e seus bandos de pistoleiros e forças policiais, contando com a cumplicidade do velho Estado burguês-latifundiário, ceifou mais uma vida no estado do Mato Grosso do Sul (MS), em mais um ataque de grandes proporções contra os Guarani-Kaiowá do Tekoha Tey Jusu.

http://www.anovademocracia.com.br/172/13a.jpg
Velório de liderança indígena executada em área retomada

Na manhã de 14 de junho, caminhonetes do latifúndio tripuladas por dezenas de pistoleiros (indígenas relatam até duzentos veículos), cavalos, motocicletas e um trator, invadiram a Terra Indígena (TI) Dourados-Amambaipegua I, localizada no município de Caarapó.

Os pistoleiros fortemente armados atacaram os indígenas acampados na Fazenda Yvu — incidente sobre a TI mencionada acima —, e abriram fogo contra os Guarani-Kaiowá, incendiando as suas motos e utensílios domésticos.

Como resultado do ataque, o agente de saúde indígena Clodiodi Aquileu Rodrigues de Souza, de 26 anos, foi executado com ao menos dois tiros, morrendo ainda no local. Ademais, ao menos 6 indígenas ficaram gravemente feridos, inclusive um adolescente de 12 anos, que levou um tiro no abdômen, todos foram encaminhados para hospitais na região, apresentando dias depois, um quadro de saúde estável. Entretanto, é bem provável que o número de feridos tenha sido muito maior, já que os indígenas não abandonaram a área retomada e refugiraram-se temporariamente em outras partes do território.

O ataque não constitui um episódio isolado, mas sim uma contraofensiva planejada de associações de latifundiários e seus grupos de pistoleiros as retomadas de territórios, que vêm ocorrendo no estado, tanto que no ataque do dia 14, segundo relatos dos indígenas, participaram latifundiários que não têm terras ocupadas. Os órgãos de imprensa do latifúndio colaboram com essa campanha alardeando que os indígenas são “invasores de fazendas”, criando um ambiente de confusão com sua desinformação para mobilizar a opinião pública contra os indígenas.

No dia 12 de junho, cerca de 300 Guarani-Kaiowá, reocuparam o território chamado de tekoha Toro Passo, onde incide a Fazenda Yvu, local do crime. Cabe registrar que, de acordo com relato dos indígenas, no dia seguinte a ocupação, homens da Polícia Federal (PF), Polícia Militar (PM) e Polícia Civil estiveram no local junto com latifundiários da região.

Em entrevista ao Cimi, uma liderança indígena relatou o ataque: Às sete da manhã, começamos a avistar carro chegando […] Vinha mais de duzentos carros. Fizeram uma divisão, dois grupos: um veio de um lado, pela divisa da aldeia, fizeram um cerco na gente. Do outro lado, veio pá cavadeira e arrebentou a cerca, e começaram a entrar pelo campo. Vieram atirando, atirando, tiroteio feio mesmo, arma pesada. A gente foi empurrado de volta pra aldeia. Eles continuaram atrás e entraram na reserva, atacando. No meio desse ataque o filho da nossa liderança caiu morto, as pessoas foram feridas. Estamos cercados aqui. Tá tudo rodeado, os fazendeiros estão em volta. Não podemos nem entrar nem sair.

Com a presença de mais de 300 pessoas, o corpo de Clodioudo foi enterrado no dia 16 de junho, na Fazenda Yvu. Élson Canteiro Gomes, liderança indígena, em entrevista ao Amazônia Real, destacou: Nesse exato momento a gente está aqui e necessitando de segurança no local porque a gente não confia nas pessoas. [...] a gente disse para a polícia: não vamos sair pois estamos no nosso território tradicional. Vamos retomar outras fazendas.

Conteúdo exclusivo para assinantes do jornal A Nova Democracia

O monopólio de imprensa, com a rede globo à testa, veiculou a informação de que os indígenas atacaram os PMs, que teriam ido à fazenda “socorrer” as vítimas após o ataque, frisando-se o fato dos indígenas renderem e desarmarem os policiais retendo suas armas, que foram devolvidas no dia seguinte. Porém, o que não foi mencionado, consciente e intencionalmente, é a participação de policiais em grupos de pistolagens, já que muitos destes fazem a “segurança” dos latifundiários, o que explica a ação dos Guarani-Kaiowá como um ato de autodefesa de seu povo e território.

Operação de guerra contra indígenas

A resposta do velho Estado às reivindicações dos indígenas não passa pela demarcação dos territórios, mas sim pela militarização, além da perseguição e criminalização aos movimentos combativos.

Em reunião entre o gerente estadual, Reinaldo Azambuja (PSDB), e o ministro da “Justiça e Cidadania”, Alexandre de Moraes, no dia 16/06, foi tomada a decisão de enviar a Força Nacional para o município de Caarapó, com o objetivo de reforçar a “segurança pública”.

Crimes e impunidade do latifúndio

http://www.anovademocracia.com.br/172/13b.jpg

Tendo em vista a repercussão nacional e internacional de mais um ataque de latifundiários contra os Guarani-Kaiowá, o Ministério Público Federal (MPF), emitiu uma nota no dia seguinte ao ataque, ressaltando que ajuizou duas denúncias contra 12 envolvidos em crimes contra os Guarani-Kaiowá e Ñandeva em MS. Essas pessoas são acusadas de formação de milícia privada — leia-se pistolagem —, constrangimento ilegal, incêndio, sequestro e disparo de arma de fogo. Ainda de acordo com o MPF, existem um conjunto de provas que evidenciam que os pistoleiros foram contratados e financiados por latifundiários para praticar um rol de violências contra os indígenas.

É extensa e crescente a lista de crimes do latifúndio cometidas com total conhecimento e anuência dos governos de turno do velho Estado, a existência e atividade dos bandos de pistoleiros e as atrocidades policiais cometidas contra os povos indígenas na região e em todo o território nacional. Dezenas de lideranças e centenas de indígenas têm tido suas vidas ceifadas de forma brutal e os criminosos responsáveis por esses crimes, apesar de se conhecer seus rostos, nomes e endereços, e de serem citados em processos seguem impunes.

Situação da Terra Indígena

Em 12/05/2016, foi aprovado pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI) o estudo de identificação e delimitação da TI Dourados-Amambaipegua I, área com 55.600 hectares, iniciando assim o processo de demarcação, após décadas de lutas e mobilizações.

A fazenda Yvu, área com 490 hectares dedicados ao plantio da monocultura da soja e da pecuária, pertence à Silvana Amado Buainain, filha do latifundiário Sylvio Mendes Amado. Sylvio foi um dos latifundiários fundadores da “Federação da Agricultura e Pecuária do Mato Grosso do Sul” (FAMASUL), uma das principais associações de pecuaristas do país.

______________
Nota:

Com informações do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Instituto Socioambiental (ISA) e Amazônia Real

Endereços


Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
CEP: 20.921-060
Tel.: (21) 2256-6303

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Tel.: (11) 3104-8537

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

EXPEDIENTE

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas
Fausto Arruda 
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto 
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond 
Sebastião Rodrigues
Vera Malaguti Batista

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja

A imprensa democrática e popular depende do seu apoio

Leia, divulgue e conheça. Deixe seu nome e e-mail para se manter informado
Please wait