Ocupações de escolas e universidades contra o pacotaço de Temer

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A resistência contra o pacotaço antipovo e anti-educação pública do gerenciamento Temer (PMDB) prossegue incontível pelo país ocupando escolas e universidades. A luta se aprofunda e avança com combatividade, demarcando com o oportunismo e governos antipovo e vende-pátria, ganham cada vez mais apoio com greves de professores e funcionários universitários. Os estudantes combatem a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 241/55 – que pretende limitar, para os próximos 20 anos, os investimentos em saúde e educação públicas – e a contrarreforma do Ensino Médio, que por sua vez, ataca diretamente a educação pública, já precarizada e sucateada.

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Estudantes da UFPE em aula pública

Ocupações pelo Brasil

Desde o início do movimento, no dia 3 de outubro, os secundaristas ocuparam aproximadamente 1.100 escolas Brasil afora. O maior foco das ocupações é o estado do Paraná. A primeira metade do mês de novembro, no entanto, foi marcado pela violência perpetrada por agentes da repressão em processos de reintegração de posse. Em Curitiba, por exemplo, estudantes foram privados de alimentação, energia, água e sono, num gesto terrorista praticado em conjunto pelo gerenciamento estadual de Beto Richa (PSDB), as forças policiais e o judiciário.

Em Brasília, técnicas de tortura similares foram aplicadas aos secundaristas que estavam no Centro de Ensino Médio Ave Branca (Cemab). O juiz Alex Costa de Oliveira, da Vara da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça do Distrito Federal (VIJ), autorizou o isolamento físico e a privação do sono por meio da utilização de instrumentos sonoros. Já em Miracema dos Tocantis (TO), cerca de 20 estudantes da Escola Dona Filomena Moreira de Paula foram levados algemados à delegacia da cidade. A ação violenta contou com a anuência de um promotor local. Estudantes denunciaram o abuso de autoridade: “O promotor da cidade chegou sem nenhum mandado e fez a desocupação. Nós tínhamos autorização da diretora (para ocupar). Eles me algemaram com um menor de 15 anos e tomaram meu celular”, afirmou uma estudante em entrevista ao portal do monopólio de imprensa G1. Fechando a lista de ilegalidades, o judiciário proibiu novas ocupações secundaristas na unidade escolar referida e estipulou multa de R$ 1 mil por hora a cada pessoa que viesse a participar do movimento, além de permitir expressamente o uso da violência por parte da PM em caso de resistência.

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Rio de Janeiro

Já em São Paulo, conforme denunciado pelo Jornal GGN, a PM paulista é acusada de carregar uma lista com fotos e nomes dos secundaristas e apoiadores das ocupações, com a qual os abordam e interrogam sobre os demais participantes do movimento. Os que não o fazem são espancados, ainda segundo a fonte. O site do jornal menciona também que o caso de um jovem de Paraisópolis que foi abordado numa estação de metrô e levado a uma pequena sala com dois policiais não identificados que o interrogaram; na negativa do jovem de 16 anos em reconhecer os colegas, teria sido brutalmente espancado até perder a consciência e deixado inconsciente na Estrada de Itapecerica da Serra, onde um taxista o encontrou na madrugada. Em um outro caso, um jovem fora sequestrado após ser abordado pela PM e encontrado somente oito dias depois, visivelmente traumatizado, afirmando ter sofrido torturas.

Apesar de toda repressão e ataques, os secundaristas resistem com audácia e combatividade, fazendo o protesto avançar e se radicalizar. Em Minas Gerais e no Espírito Santo, por exemplo, o número de ocupações aumentou neste início de novembro. São, respectivamente, 90 e 60 escolas que estão sob controle dos jovens. Também as ocupações de campis universitários tem aumentado significativamente em todo país, ultrapassando a marca das 170 instituições até o fechamento da presente edição.Desse total, 115 são federais, resultando na ocupação de quase 70% das instituições públicas existentes. E cada vez mais greves dos funcionários de educação somam-se à luta estudantil, como o caso da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde os professores e funcionários se mobilizaram em apoio à combativa luta dos estudantes. Em todo país, mais de 45 universidades contam com greves docentes e de setores técnico-administrativos.

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No Paraná, apesar de as escolas estarem sendo desocupadas progressivamente, os estudantes afirmaram que a luta vai continuar, com manifestações e mobilizações dentro e fora das instituições de ensino. Em São José dos Pinhas, situada na região metropolitana de Curitiba, a juventude que ocupava o Colégio Estadual Lindaura Ribeiro Lucas mostrou-se intrépida e altiva diante da reintegração de posse promovida pelo aparato de repressão. Por meio de panfletagens e manifestações, os secundaristas têm resistido até o último momento das reintegrações operadas pelo gerenciamento estadual de Beto Richa (PSDB).

AND visita ocupações no Rio de Janeiro

Na cidade universitária da UFRJ, a ocupação teve início em uma segunda-feira, dia 7 de novembro. Cerca de 14 barracas foram montadas no salão da reitoria. De acordo com os estudantes, o movimento está estruturado em torno de pautas internas e externas, referindo-se às demandas próprias da Universidade e à atual situação política. “Falta infraestrutura na UFRJ, a assistência estudantil não funciona direito, as bolsas não dão conta da demanda, e, pra piorar a situação, o governo quer passar a PEC 55. As pautas estão associadas”, disse uma estudante.

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Rio de Janeiro

A insegurança no campus do Fundão, o principal da Universidade, também foi lembrada, além da falta de legitimidade da atual gerência federal. “Um estudante foi morto aqui, recentemente. Um crime de ódio. É preciso cobrar da reitoria medidas que nos favoreçam”, disse um aluno do curso de Letras. “Um governo ilegítimo quer autoritariamente congelar os gastos com saúde e educação. A nossa resposta é na rua e nas ocupações”, arrematou. Até o dia 8 de novembro, data em que a equipe de reportagem de AND esteve no campus, eram 83 os ocupantes que participavam do movimento.

Já os estudantes do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) decidiram em assembléia que não esperariam mais pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE) e passaram a ocupar, a partir do dia 1º de novembro, o campus que localiza-se no Largo do São Francisco, centro do Rio de Janeiro. O jornal AND também foi ao local para conversar com os universitários. “A gente quer se somar à luta secundarista, alvo de muita criminalização”, comentou um estudante do curso de Filosofia. “É pela ação direta que se conquista coisas concretas”, concluiu.

Na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), estudantes ocuparam o prédio da reitoria no último dia 3. Na entrada, é possível ver cartazes que combatem as medidas do gerenciamento Temer. Os universitários acreditam que as ocupações pelo país podem barrar a PEC 55. Procedimentos administrativos como a renovação de bolsas estão sendo garantidos pelo movimento. O “Ocupa Unirio” conta, atualmente, com cerca de 50 pessoas. Aulas públicas e atividades culturais fazem parte do calendário diário de atividades.

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Manifestação contra desocupações em Campinas

Entre os secundaristas, a luta contra os ataques de Temer está mais avançada e organizada nas unidades do Colégio Pedro II (CPII). Há duas semanas, oito unidades existentes na cidade estão ocupadas por secundaristas. A reportagem de AND esteve no CPII do Engenho Novo para conversar com os estudantes. “Ocupando a escola, junto com os servidores, mostra a indignação com o que está acontecendo agora no Brasil”, resumiu uma estudante, referindo-se à PEC 241/55, à MP 746 e ao projeto “Escola sem partido”. A ocupação se divide em comissões: alimentação, limpeza, comunicação e segurança. Uma estudante responsável por preparar o almoço e o jantar comentou sobre a importância dos secundaristas preparem a própria comida: “A gente vê o que os servidores terceirizados passavam, o trabalho que eles tinham. Assim, a gente aprende a respeitar mais eles”.

Um estudante de outra unidade do Colégio Pedro II, situada no Centro da cidade, comentou a tentativa de invasão por parte do movimento “Desocupa”. “Juntaram aproximadamente uns sete garotos e tentaram pular o portão da escola, mas a coisa ficou só nisso. A gente sabe que existe uma crescente muito grande dos movimentos de direita e de desocupação. A nossa função principal, aqui, é garantir a segurança de todos”, afirmou. A ocupação já dura duas semanas e os estudantes se mostram solidários à greve dos servidores em educação da instituição de ensino da qual fazem parte. Os recorrentes ataques à educação realizados pelas gerências federais são mencionados pelo secundarista entrevistado por AND. “A gente está fazendo uma luta aqui em apoio à greve dos servidores de educação do Colégio Pedro II e para resistir aos ataques que este e outros governos vêm realizando na educação ao longo de diversos anos”.

Estudantes rechaçam oportunismo eleitoreiro

Cada vez mais as correntes corporativizadas do movimento estudantil tem sido rechaçadas pelos estudantes em ocupações Brasil afora. Nas redes sociais, circulam numerosos relatos das práticas oportunistas de entidades como a UBES e a UNE. Seus militantes entraram em algumas ocupações com o objetivo de se utilizar das reivindicações estudantis para promover determinados partidos eleitoreiros e/ou organizações vinculadas a estes, com vistas a próxima farsa eleitoral. Nas visitas em que fez aos colégios e universidades do Rio, o AND pôde perceber a ausência de faixas e materiais dessas entidades. Com isso, a juventude carioca deixa claro que quer seguir um caminho de luta combativo e independente.


Aprender com os estudantes

Fausto Arruda

Foi em 2013, quando os efeitos da crise mundial já desbordava no Brasil, atingindo principalmente os mais pobres e a repressão aumentou contra os protestos populares, que a juventude foi assumindo um papel de destaque. O auge aconteceu nas manifestações de junho e julho quando toda a ira e sentimento de repulsa contra as classes dominantes e seus prepostos do partido único, principalmente o gerenciamento petista, extravasou em revoltas massivas e expressivas da justa violência das massas. Uma situação revolucionária em franco desenvolvimento se instalara no país. Daqueles dias até hoje nenhuma agressão aos direitos do povo deixou de ter resposta por parte da juventude combatente: Copa das confederações, Copa do Mundo, farsa eleitoral de 2014 e 2016, aumento dos transportes, reforma do ensino com cortes de verbas para a educação e demais áreas sociais, além de questões específicas localizadas.

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Pedro II - Centro, RJ

As ocupações de escolas e universidades e as manifestações país afora que já atingem mais de mil unidades deixam claro que grande parte da juventude brasileira não concorda com a medida provisória 746, ademais de todas as medidas draconianas do bando de Temer e PSDB.

Nos dias de hoje, quando o imperialismo outorga à quadrilha de Temer a missão de devastar o país, saqueando seus recursos naturais, elevando aos píncaros a exploração assalariada e esbulhando ao extremo a nação, principalmente, no mais fundo e profundo das massas, a juventude é chamada mais uma vez para assumir o seu glorioso papel de tropa de choque da revolução. Como já afirmamos neste espaço, o oportunismo, com suas frentes eleitoreiras e entidades pelegas, está desqualificado, perante as massas, para liderar de forma consequente as manifestações da juventude e da sociedade, daí que as massas estão na “muda” clamando que os revolucionários organizem a vanguarda que guiará este processo em um rumo revolucionário.

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