Moradores repudiam Chacina no Chapadão

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Na manhã de 15/02, a equipe de AND esteve presente no Complexo do Chapadão, Zona Norte do Rio de Janeiro, e acompanhou o importante ato dos moradores em repúdio à Chacina cometida no dia 13/02, que resultou em 4 assassinatos e mais 7 feridos. O crime foi resultado de uma “operação” feita pelo 41º Batalhão da PM, mesmo batalhão responsável pelas execuções de cinco jovens com 111 tiros contra o carro que os transportava, em novembro de 2015 – fato que chocou o país e ficou conhecida como Chacina de Costa Barros (ver edição nº 165 de AND).

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Manifestação denunciou chacina e crimes da PM

O ato contou com a participação de mães e parentes de jovens assassinados e percorreu as ruas da favela mostrando que, frente ao covarde genocídio imposto pelo velho Estado e suas forças policiais, o povo não se intimida e exige o que é seu por direito, o direito de viver em seu bairro sem as constantes ameaças de tortura, agressões e assassinatos sumários. Durante o ato foi registrada a covarde intimidação dos agentes de repressão, que abordaram insistentemente os moradores enquanto estes exerciam seu direito de manifestação, ameaçando inclusive prendê-los caso bloqueassem parcialmente a via.

Os moradores denunciaram, com exclusividade para o AND, a série de abusos e violações da PM que culminaram na chacina do dia 13/02.

— Eu moro aqui há 20 anos, sou dona de casa, tenho ali na garagem uma lanchonetezinha. Agente tem a lojinha aqui, e a polícia chegou, ameaçou o meu filho. Meu vizinho estava sentado aqui, se não tivesse levantado, tinha tomado o tiro, e não foi bandido não. Porque tudo eles dizem que é bandido, mas é mentira. Foi a polícia – declarou uma moradora que preferiu não se identificar.

Os assassinatos foram cometidos na Rua Capri, onde os policiais invadiram a residência de um casal de moradores – submetendo os mesmos a cárcere privado em sua própria residência – e utilizaram o local de esconderijo para, em seguida, em uma emboscada abrir fogo contra um grupo de jovens do outro lado da rua. Os moradores descreveram a ação criminosa da PM:

— O policial já saiu na minha sala, eu estava deitado. Ela [esposa] estava na cozinha – afirmou o morador. 

— Nós chegamos era quase 6 horas, que eu saio do trabalho, e ele foi me pegar no ponto de ônibus. Quando nós acabamos de entrar, ele estava sentado no sofá eu fui para a cozinha, foi quando o policial entrou. Aí, quando eu vi, eles já estavam na minha cozinha. Eu pedi a eles: Moço, pelo amor de deus, meu marido teve um AVC não pode se aborrecer, pelo amor de deus. Ele mandou eu ficar quieta, disse que eu tava muito nervosa e tava dificultando o “trabalho” deles – declarou a esposa.

E continuou: — Ele mandou eu pegar o cachorro e trancar dentro do banheiro por que o cachorro fazia alarme. E nos mandou ficar no quarto. Eu fiquei orando, com as mãos pedindo à deus para não acontecer nada. Depois, só ouvi os tiros.

O casal, que já enfrenta problemas de saúde, ficou muito abalado com o crime:

 — Eu estou tremendo até hoje. Não consegui ir trabalhar ontem, não consegui ir trabalhar hoje. Fui no médico, peguei a receita, ele me mandou vir embora para casa. Tá entendendo? Eu fico nervosa, levanto toda hora. Ele [marido] fica nervoso. Eu tomo remédio para pressão, meu marido toma vários remédios  – revelou a moradora.

No local da chacina, os sinais do crime ainda eram visíveis: marcas dos disparos efetuados contra os jovens podiam ser vistos em diversos muros e portões, danificando inclusive carros de moradores estacionados nas garagens; os chinelos ensanguentados das vítimas assassinadas e feridas estavam amontoados em frente à um portão. No chão da rua, marcas de sangue e cápsulas de balas ainda podiam ser encontradas.

Os moradores denunciaram ainda que – ao contrário do que os policiais forjam em seus registros e os monopólios de imprensa alardeiam em suas manchetes – as vítimas da chacina estavam desarmadas e se entregaram prontamente quando abordadas pelos policiais, o que, no entanto, não impediu o bárbaro crime.

Cansados de todas as violações de direitos e crimes contra o povo, durante a manifestação indignada uma moradora desabafou:

— Até quando nós vamos viver marginalizados? Nós temos um governo onde todo mundo rouba. O que vai acontecer com este tal de Eike aí, que tem uma sala com os carros lá dentro e só faz humilhar os pobres? O que que vai acontecer com o Sérgio Cabral? Vai devolver? Ele está é lá dentro [da cadeia] recebendo e sem fazer nada. Quem está devendo é o Pezão, quem está devendo é o Cabral. Vai lá no presídio e mata eles! Agora, vem aqui perseguir os meninos!? Isso é covardia.

A moradora prossegue: — Ser pobre não é desonra. Eu tenho nojo é do Sérgio Cabral, do Pezão, dessa canalha que está lá dentro. São eles que estão tirando o direito do povo. Isso é que é vergonha. Agora, ser pobre é que é orgulho. Chega! Nós estamos cansados disso! Chegar aqui colocando a arma na cara dos meninos, para matar. O que é isso!? Chega, isso tem que acabar!

A manifestação, que percorreu as ruas da comunidade, exigiu justiça e o fim do genocídio – única política permanente aplicada por esse velho Estado contra o povo que vive no Chapadão.

Cada vez mais os moradores, principalmente as mães e familiares que perderam filhos e parentes assassinados pela polícia, veem e compreendem a necessidade de se organizar na luta por justiça e para pôr fim a toda opressão e assassinatos.

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