Carne podre num Estado em decomposição

A- A A+

No dia 17/03, fiscais do ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e executivos e funcionários de empresas do ramo alimentício foram presos em decorrência de um grande esquema criminoso para burlar a fiscalização sanitária e comercializar carne estragada e podre a população.

http://anovademocracia.com.br/186/15a.jpg

“Operação carne fraca”

As prisões são decorrentes da “Operação carne fraca” da Polícia Federal, que após dois anos de investigação constatou que fiscais do ministério da Agricultura, pertencentes às Superintendências Regionais dos estados de Goiás, Minas Gerais e Paraná recebiam propinas para facilitar a comercialização de alimentos adulterados, emitindo certificados sanitários sem a realização de fiscalização dos frigoríficos, além de falsificar documentos para liberar a carne para exportação para a China, Europa e Oriente Médio.

A investigação descobriu que as empresas utilizavam uma série de práticas ilegais, tais como: o uso de ácido ascórbico para disfarçar o sabor da carne estragada, substância esta que se consumida em excesso pode, a longo prazo, provocar sobrecarga renal e, consequentemente, câncer; a mudança da data de validade; a substituição de carnes nobres por carnes mais baratas e até mesmo farelo de soja na fabricação de salsichas; injetar água na carne para aumentar o seu peso; o uso de papelão no frango, entre outras.

No Paraná, carnes estragadas foram fornecidas a estudantes da rede pública estadual.

Ao todo, 29 empresas foram investigadas, incluindo as duas empresas que monopolizam o mercado de carnes no país: a BRF e a JBS. A BRF é proprietária de marcas como Qualy, Sadia e Perdigão. A JBS é dona de marcas como Doriana, Friboi, Seara, Swift e Vigor.

A operação resultou na prisão de 20 pessoas, entre elas executivos da BRF e da JBS. Além disso, três frigoríficos foram interditados: um da BRF, em Mineiros (GO), e dois da Peccin em Curitiba (PR) e Jaguará do Sul (SC).         

Da podridão das carnes à podridão do velho Estado

A “Operação carne fraca”, tida como a “maior operação” da Polícia Federal, nos revela: a pugna entre os grupos de poder das classes dominantes reacionárias, que se manifestam em campanhas e operações com o intuito de dar ares de sanitização e assim proporcionar sobrevida às instituições do velho Estado tão desmoralizadas e deslegitimadas; a relação profunda entre a fração burocrática da burguesia com o latifúndio, que se unem para cometer seus crimes contra o povo; o caráter de serviçais do imperialismo daqueles que ocupam postos dentro do velho Estado; a essência do agronegócio, com suas bases semifeudal e semicolonial.

Conteúdo exclusivo para assinantes do jornal A Nova Democracia

A “Operação carne fraca”, inspira-se na pirotecnica midiática desatada pela Operação “Lava Jato”, que tem o intuito de “limpar” a imagem das instituições do velho Estado burguês-latifundiário, tão desmoralizado e desgastado pela profunda crise econômica, política, ética e moral que o atinge. Essas operações se fazem de tempos em tempos para passar imagem a opinião pública de “combate a corrupção”, de sanear as instituições para continuar a roubalheira e os crimes contra o povo.

Diferente do que alegam os membros do velho Estado e do monopólio da imprensa, o esquema de corrupção descoberto antes de ser uma “anomalia”, um desvio de conduta de “alguns servidores”, é um problema estrutural e endêmico engendrado pelo capitalismo burocrático. O que foi descoberto é uma ínfima parte dos negócios escrupulosos praticados pelo agronegócio. A podridão não é apenas da carne, mas de todo o sistema que a produz, o sistema do latifúndio, com suas bases semifeudais e semicoloniais, seja na sua forma “tradicional”, seja na forma de agronegócio.

A operação revelou ainda mais os vínculos entre o agronegócio e a fração burocrática da burguesia, principalmente ao se levar em consideração a atuação dos latifundiários – direta ou indiretamente – dentro do parlamento e dos ministérios.

Parte do dinheiro de propina pago pelas empresas destinavam-se a políticos de duas siglas do Partido Único: PMDB e PP. Este último é o partido ao qual pertence o latifundiário Blairo Maggi, o ministro da Agricultura. Salas deste ministério tiveram diligências de buscas e apreensão pela Polícia Federal.

Em decorrência da operação, Blairo Maggi foi obrigado a mostrar “serviço” a opinião pública e afastou 33 funcionários do ministério da Agricultura.

E Maggi têm responsabilidades diretas no problema das carnes estragadas, já que no dia 24 de agosto de 2016, em Brasília, no lançamento do “Plano Agro+” disse que reduziria a fiscalização sanitária em certos setores como parte das benesses concedidas ao latifúndio. “O Estado brasileiro não tem mais condições de ficar contratando centenas de técnicos para essas posições burocráticas. Temos de confiar mais nas empresas que fazem. Quem vai penalizar as empresas, uma vez erradas, pegas numa infração, é o sistema de fiscalização, mas [é] principalmente o mercado [que] tem de punir aquele que faz as coisas erradas”, afirmou o ministro. Mas o que o mercado “autorregulado” oferece ao povo é carne estragada.

Outro ministro que teve o seu nome envolvido no esquema criminoso foi Osmar Serraglio (PMDB-PR). O Ministro da Justiça teve uma chamada telefônica sua com Daniel Gonçalves Filho, ex-superintendente do ministério da Agricultura no Paraná entre 2007 e 2016, tido como um dos líderes do esquema, interceptada pela Polícia Federal. Na conversa, o atual Ministro – na época deputado federal – solicita informações a Gonçalves Filho sobre uma fiscalização no Frigorífico Larissa, pertencente a Paulo Rogério Sposito – que foi preso preventivamente pela operação –, no município de Iporã, que estaria tendo problemas com a fiscalização do Mapa. No diálogo, Serraglio chama Gonçalves de “grande chefe”. 

Frente à suspensão da compra de carnes brasileiras por vários países, Temer foi obrigado a se pronunciar. Mas, ao fazer isso, demonstrou todo o seu caráter vende-pátria e de lacaio do imperialismo, revelando sua maior preocupação em oferecer explicações e respostas aos embaixadores, de um lado, e aos latifundiários, do outro. Para o povo brasileiro apenas o silêncio.

A revelação do esquema deixou claro também que o agronegócio, apenas nas aparências mantêm um caráter moderno, mas que na sua essência desenvolve-se sobre uma base semifeudal, que se utiliza de diferentes mecanismos – incluindo práticas ilegais e criminosas – para reduzir os custos de produção visando sempre obter o lucro máximo. Setor este que, por exemplo, apresenta uma dívida bilionária com a Previdência Social, que seria capaz de sanar o seu suposto déficit. E, comprova também a prática semicolonial que já é amplamente conhecida pelo povo: que a grande burguesia oferece os produtos de maior qualidade para exportação (para os imperialistas) enquanto os produtos de qualidade inferior são destinados  para a mesa do povo brasileiro.

Apesar de todo o espetáculo e pirotecnia das operações dos órgãos do velho Estado, a verdadeira mudança que o país precisa é o fim do latifúndio, que apenas pode ser alcançado de maneira revolucionária, por meio da Revolução de Nova Democracia, que se inicia com a Revolução Agrária, com a tomada de todas as terras do latifúndio e sua distribuição entre os camponeses pobres sem terra ou com pouca terra.

Endereços


Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
CEP: 20.921-060
Tel.: (21) 2256-6303

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Tel.: (11) 3104-8537

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

EXPEDIENTE

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas
Fausto Arruda 
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto 
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond 
Sebastião Rodrigues
Vera Malaguti Batista

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja

A imprensa democrática e popular depende do seu apoio

Leia, divulgue e conheça. Deixe seu nome e e-mail para se manter informado
Please wait