100 anos da Grande Revolução Socialista de Outubro

Ano XV, nº 187 - 2ª quinzena de Abril de 2017
Grupo de Estudos do Marxismo-leninismo-maoísmo

A crise do Governo Provisório e a Conferência de Abril

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Em 18 de abril (1º de maio)* de 1917, o proletariado revolucionário e o povo da Rússia celebrou pela primeira vez abertamente o dia de solidariedade proletária internacional. Nas numerosas manifestações que desfilaram pelas ruas das cidades exibindo cartazes com as palavras de ordem “Viva a fraternidade dos povos!”, “Paz sem anexações nem indenizações”, “Proletários de todos os países, uni-vos”.

Em celebração à gloriosa data, Lenin proferiu um discurso aos manifestantes no Campo de Marte da capital, explicitando o significado do 1º de Maio e as tarefas da Revolução Russa. E, mais tarde, interveio também no comício do 1º de Maio dos operários das fábricas de pólvora de Okhata, realizado na Praça do Palácio.

Realizaram-se grandes manifestações de 1º de Maio em dezenas de cidades russas como Cronstadt, Reval (atualmente Tallinn), Riga, Ivanovo-Voznesensk, Níjni Nóvgorod, Kiev, Cárcovia, Oriol, Penza, Baku, Mykolaiv, Minsk, Sebastopol, Odessa, na bacia do Donets e em muitos outros lugares por todo o país.

Apesar da principal palavra de ordem das numerosas manifestações ser “Paz sem anexações nem indenizações”, o Governo Provisório prosseguia seus manejos contra o povo. E, através de seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Miliukov, declarou aos aliados, neste mesmo dia 18 de abril, a lealdade aos tratados czaristas que pretendiam continuar derramando quanto sangue do povo fosse necessário para que os imperialistas conseguissem sua “vitória final”.

A notícia chegou ao conhecimento dos operários e soldados no dia seguinte e, em 20 de abril, o Comitê Central (CC) do Partido bolchevique convocou as massas a protestar contra a política imperialista do Governo Provisório.

Nas fábricas e quartéis da capital ocorreram comícios de protesto e maciças manifestações espontâneas surgiram. Nos dias 20 e 21 de abril (3 e 4 de maio)*, saíram às ruas em manifestações mais de 100 mil operários e soldados, movidos pela indignação contra a “nota de Miliukov”. Nos cartazes liam-se as palavras de ordem: ”Que se publiquem os tratados secretos!”, “Abaixo a guerra!”, “Todo poder aos Sovietes!”.

Os operários e soldados marchavam dos subúrbios até o centro da cidade, em direção ao Palácio Mariinsky, sede do Governo Provisório, em frente da qual se concentraram aos milhares.

O Comitê Executivo do Soviete de Petrogrado, em uma vã tentativa de acalmar os manifestantes enviou o menchevique Matvéi Skóbelev e o socialista-revolucionário Gots. As suas intervenções não tiveram êxito. Os manifestantes, dentre eles, soldados do regimento Finliandsky, do regimento de granadeiros, do 1° regimento de metralhadoras, do 180° regimento de infantaria de reserva, da divisão blindada e de outras unidades militares, assim como marinheiros da esquadra do Báltico aprovaram uma resolução exigindo a imediata demissão de Miliukov.

Mais tarde, Lenin escreveu sobre as manifestações: “Em 20 e 21 de Abril Petrogrado ferveu. As ruas transbordavam de povo; grupos, ajuntamentos e comícios de diferentes dimensões formavam-se por toda parte dia e noite; as ações e manifestações de massas sucediam-se ininterruptamente […]”.

Durante os dias 20 e 21 de abril o Soviete de Petrogrado teve toda a possibilidade de tomar pacificamente o Poder, mas a maioria menchevique e socialista-revolucionária no Soviete, revelando seu caráter oportunista pró-burguês, cedeu às chantagens e intimidações do governo, que ameaçou demitir-se coletivamente. Assim, o Comitê Executivo do Soviete de Petrogrado contentou-se com um “esclarecimento” do Governo Provisório, que a nada o obrigava, e tudo fez para extinguir o protesto na capital e no resto do país.

Na nota “A Todos os Cidadãos”, no dia 21 de abril, o Comitê Executivo do Soviete de Deputados Operários e Soldados de Petrogrado, em defesa do Governo Provisório, chegou a lançar o seguinte apelo: “Em nome da salvação da revolução, da desordem que a ameaça, dirigimo-vos um apelo ardente: Mantende a calma, a ordem e a disciplina!”.

Os contrarrevolucionários mais descarados, como o general Kornílov, declaravam que as manifestações deveriam ser dissolvidas a tiros e chegou, inclusive, a dar ordens para a artilharia dirigir-se à Praça do Palácio. Entretanto, as tropas negaram-se a cumpri-las.

Também no dia 21, a assembleia de representantes da guarnição de Petrogrado decidiu só obedecer ao Soviete de Petrogrado, negando expressamente o mando militar de Kornílov, e o Soviete do bairro de Víborg exigiu investigação das ordens dadas pelo general Kornílov que poderiam ter tido consequências lamentáveis nas ruas.

Iniciava-se assim a crise do Governo Provisório, marcada pelos acontecimentos de 20 e 21 de abril. E, embora este Governo contasse com a funesta política oportunista de mencheviques e socialistas-revolucionários, não poderiam seguir enganando o povo por muito tempo, dado seu caráter burguês e atrelamento aos interesses imperialistas anglo-franceses. Era a primeira brecha importante que se abria na política oportunista dos mencheviques e socialistas-revolucionários para o seu desmascaramento frente às massas.

Durante as manifestações, um pequeno grupo do Comitê do Partido bolchevique em Petrogrado (Bagdatiev e outros) lançaram a palavra de ordem de derrubada imediata do Governo Provisório, atitude que contrariava a linha do Partido e que o Comitê Central do Partido bolchevique criticou severamente. Sobre essa questão, Lenin sublinhou na resolução do CC: “A palavra de ordem ‘Abaixo o Governo Provisório’ não é justa neste momento porque sem uma maioria sólida (isto é, consciente e organizada) do povo do lado do proletariado revolucionário tal palavra de ordem ou é fraseologia ou se reduz objetivamente a tentativas de caráter aventureirista”. Lenin considerava ainda que as palavras de ordem fundamentais do momento eram: “1) explicação da linha proletária e via proletária para acabar com a guerra; 2) crítica da política pequeno-burguesa de conciliação com o governo dos capitalistas; 3) propaganda e agitação de grupo em grupo em cada regimento, em cada fábrica, particularmente entre a massa mais atrasada, os criados, os operários não especializados etc., porque foi particularmente neles que durante os dias de crise a burguesia tentou apoiar-se; 4) organização, organização e mais uma vez organização do proletariado [...]”.

Em 29 de abril, Alexander Guchkov anunciou que abandonava o cargo de Ministro da Guerra e da Marinha e, três dias mais tarde também Miliukov foi afastado do Governo Provisório pela grande pressão das massas. E, em 2 de maio os jornais publicaram notícias sobre a demissão de Kornílov.

Frente à crise do Governo Provisório, a reação dos mencheviques foi bem característica. De início censuraram tanto os bolcheviques como os cadetes por serem intransigentes e extremistas, acusando-os de agudizar os acontecimentos, chegando ao ponto de, como assinalou Lenin, “acusar os bolcheviques (por absurdo que fosse isso) dos disparos na Avenida Nevsky; mas quando o movimento terminou, esses mesmos socialistas-revolucionários e mencheviques, no seu órgão oficial, o Izvéstia (mensageiro) escreveram que o ‘movimento popular’ ‘varreu os imperialistas Miliukov e outros’, isto é, louvaram o movimento!”.

Os dirigentes mencheviques e socialistas-revolucionários aceitaram também a formação de um Governo Provisório de coalizão, no qual, ao lado dos burgueses, estavam os mencheviques Skobelev e Irakli Tsereteli, e os socialistas-revolucionários Chernov e Alexander Kerensky, dentre outros. Com isso, passaram assim por completo para o campo da burguesia contrarrevolucionária.

A crise fora superada, mas como escreveu Lenin a propósito da situação, “as causas da crise não foram eliminadas, e é inevitável a repetição de semelhantes crises”.

A Conferência de Abril do Partido Bolchevique

No dia 24 de abril, foi promovida a VII Conferência (Conferência de Abril) do Partido bolchevique, a qual, pela primeira vez desde a sua existência, se reunia abertamente.

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Lenin discursa aos operários da fábrica Putilov, Petrogrado,1917

A Conferência de Abril mostrou o impetuoso desenvolvimento do Partido. Assistida por 151 delegados, representando um total de 80 mil membros organizados, a Conferência discutiu e traçou a linha do Partido em todos os problemas fundamentais da guerra e da revolução: a situação do momento, a guerra, o governo provisório, os Sovietes, o problema agrário, o problema nacional etc.

A Conferência de Abril estabeleceu que uma das tarefas mais importantes do Partido era explicar incansavelmente às massas que o “Governo Provisório é, por seu caráter, o órgão de dominação dos latifundiários e da burguesia” e desmascarar a política oportunista dos  mencheviques e socialistas-revolucionários.

Nesta Conferência, Kamenev e Rykov se levantaram contra Lenin, assumindo a posição menchevique de que a Rússia não estaria preparada para a revolução socialista, propondo à classe operária limitar-se a “controlar” o Governo Provisório. A Conferência rejeitou a proposta de Kamenev.

Zinoviev também interveio contra a proposição da criação de uma nova Internacional Comunista, defendendo a união de Zimmerwald1, que ainda não havia rompido de fato com os defensivistas2 burgueses. Lenin condenou energicamente esta atitude, qualificando-a de “arquioportunista e perniciosa”.

Sobre o problema agrário, a Conferência, após ouvir o informe de Lenin, aprovou uma resolução pela confiscação das terras dos latifundiários para pô-las à disposição dos Comitês de camponeses e pela nacionalização de todas as terras do país. Dessa forma os bolcheviques convocavam os camponeses a lutar pela terra.

O informe do camarada Stalin sobre o problema nacional foi de grande importância. Sobre esta questão, Lenin e Stalin afirmavam que o Partido proletário devia apoiar o movimento de libertação nacional dos povos oprimidos contra o imperialismo. Assim, o Partido Bolchevique defendia o direito de autodeterminação das nações, pela igualdade de direito das nações e pela destruição de todas as formas de opressão e desigualdades nacionais. Piatakov e Bukarin manifestaram uma posição social-chauvinista contrária à proposição aprovada pelo Partido.

A importância histórica da VII Conferência (Conferência de Abril) consistiu em que o Partido bolchevique adotou por completo as Teses de Abril de Lenin não só em teoria, mas na prática. Levantando o programa leninista de passagem da revolução Russa à sua segunda etapa, formulou objetivamente o plano da luta pela transformação da revolução democrático-burguesa na revolução socialista e avançou a reivindicação da passagem de todo o Poder aos Sovietes. Sob esta palavra de ordem, os bolcheviques prepararam as massas para a revolução socialista.

Com base nas resoluções desta importante Conferência foi desenvolvido intensíssimo trabalho pela conquista das massas, por sua educação combativa e por sua organização. A linha do Partido, neste período, tinha por base conquistar a maioria dentro dos Sovietes e isolar das massas os partidos menchevique e socialista-revolucionário, por meio do esclarecimento paciente da política bolchevique e desmascaramento da política de compromisso daqueles partidos com o Governo Provisório.

Além do trabalho no seio dos Sovietes, os bolcheviques desenvolveram gigantesco trabalho nos sindicatos, comitês de fábrica e empresas industriais. Mas o trabalho era ainda mais intenso no seio do Exército, onde trabalhavam incansavelmente nas frentes e retaguarda para organizar soldados e marinheiros. Para a agitação e propaganda em meio aos soldados, o jornal publicado pelos bolcheviques e destinado à frente, intitulado Okopnaia Pravda (Verdade das Trincheiras), cumpriu destacado papel.

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Notas:

* Utilizaremos aqui sempre as datas conforme o Calendário Juliano, destacando sempre nas datas mais importantes sua correspondência também no calendário gregoriano.

1 - A união de Zimmerwald foi resultado de uma Conferência internacionalista que se realizou na cidade de Zimmerwald, Suíça, em 1905, após a extinção da Segunda Internacional social-chauvinista. Tomaram parte desta Conferência delegados representantes da Alemanha, França, Itália, Rússia, Holanda, Suécia, Bulgária, Suíça, Polônia, Romênia e Noruega. O Partido bolchevique tomou parte desta reunião formando um grupo de esquerda, com Lenin à frente. Inicialmente, Zimmerwald serviu ao desenvolvimento de um movimento internacional contra a guerra imperialista, mas com o avançar dos anos de conflito, apesar de propagandear a paz, a organização não logrou romper de fato com os defensivistas burgueses.

2 -  Defensivismo: Posição política adotada pelos partidos socialdemocratas oportunistas da Segunda Internacional que    apoiavam as burguesias de seus países para a manutenção da I Guerra Mundial Imperialista, votando a favor dos créditos de guerra. Aos adeptos desta posição se chamavam defensivistas. Sobre o defensivismo, Lenin afirmou em A Guerra e a Social-Democracia da Rússia, publicado em outubro de 1914: “Num momento da maior importância histórica mundial, a maioria dos dirigentes da atual Segunda Internacional Socialista (1889-1914) tenta substituir o socialismo pelo nacionalismo. Devido à sua conduta, os partidos operários destes países não se opuseram à conduta criminosa dos governos, mas chamaram a classe operária a fundir a sua posição com a posição dos governos imperialistas. Os dirigentes da Internacional cometeram uma traição em relação ao socialismo, votando a favor dos créditos de guerra, repetindo as palavras de ordem chauvinistas (‘patrióticas’) da burguesia dos ‘seus’ países, justificando e defendendo a guerra, entrando nos ministérios burgueses dos países beligerantes [...]”.

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Referências:

– História do Partido Comunista (Bolchevique) da U.R.S.S. Editorial Vitória. 1945. Redigido pela Comissão do Comitê Central do P. C. da U.R.S.S., aprovado em 1938.

– Albert Nenarókov. História Ilustrada da Grande Revolução Socialista de Outubro – 1917 na Rússia, mês a mês. Edições Progresso, Editorial “Avante!”.