Bagdá-Rio

O Rio de Janeiro, menos de um ano após a realização das Olimpíadas, vive uma realidade dramática, em que as misérias econômicas e sociais não cessam de devorar nosso povo. Mais ou menos como na Bagdá (Iraque) ocupada pelos ianques, há algumas “zonas verdes”, habitadas pelas classes abastadas, no nosso caso, os bairros da Zona Sul e Barra da Tijuca, cercados por grades, câmeras e policiamento ostensivo (embora aqui, como lá, eles não estejam completamente “seguros”) e as demais zonas empobrecidas, nas quais, em meio a barracos de papelão e crianças descalças, carros blindados circulam semeando a morte. Transitando entre uma zona e outra, os proletários apinham-se nos ônibus caros e precários, em troca dum salário de fome.

Efetivamente, o cenário que vivemos é de uma autêntica guerra civil, e das mais letais que conhece o mundo atual. Entre 2011 e 2015 ocorreram 278.839 assassinatos no Brasil, contra 256.124 registrados na Síria no mesmo período. O caso de Maria Eduarda, como o de Cláudia Ferreira da Silva, Amarildo e tantos outros redundará, se muito, na prisão de alguns praças da PM diretamente envolvidos; assim como o exército ianque volta e meia pune soldados que praticaram crimes contra civis em países agredidos, não para deter, mas para legitimar a guerra de agressão.

Como os chamados “efeitos colaterais”, que os agressores imperialistas esgrimam para justificar seus bombardeios assassinos, conhecemos aqui a infame expressão “bala perdida”, já integrada ao senso comum. Contudo, como falar em “balas perdidas” quando suas vítimas obedecem a um padrão muito bem determinado, por todos conhecido? Quando há uma geografia política bem definida das tais “balas perdidas” – matam sempre nos mesmos lugares? De fato, não há qualquer aleatoriedade em tais disparos, como a expressão quer fazer crer, e sim alvos claramente pré-estabelecidos.

Quanto aos “inimigos”, temos em Bagdá o combatente islâmico, ao passo que aqui o preto favelado é estereótipo do “soldado do tráfico”. Embora morem em extremos opostos do mundo, esses tipos assemelham-se quanto à pobreza, à juventude, à pouca instrução e às reduzidas chances de conseguir um emprego. Aqui, como lá, também existe a “indústria dos direitos humanos”, ONGs que recebem polpudas verbas para escrever relatórios e pronunciar palestras sobre a situação lastimável vivida nos lugares “críticos”, e que teriam de fechar as portas se as causas dessa situação fossem resolvidas.

Nesse cenário dantesco, contudo, floresce a resistência. Em Bagdá, ela aumentou quando o agressor declarava a guerra ganha. Por aqui, com um estoicismo quase heróico, que muitos confundem com conformismo, nossa gente enterra seus mortos e segue em frente, sem esquecer jamais os que ficaram para trás: endurecido pela desgraça, o povo curte pacientemente seu espírito, como se afia uma faca. Os seus agressores serão, mais cedo ou mais tarde, surpreendidos em seus castelos, como aconteceu sempre na História.