Nossa música não conhece rendição

A- A A+

Filho de um dos maiores violonistas do mundo, o grande compositor Baden Powell, o pianista e compositor Philippe Baden Powell, de 25 anos, surge entre os novos talentos da música brasileira. Nascido em Paris, na década de 70, mesmo tendo vivido por 12 anos na Europa, Philippe é irremediavelmente brasileiro. Sem pretensões de sair do país para seguir carreira no exterior, o novo Baden se mostra crítico enérgico em suas denúncias de que, em seu próprio país, os músicos veêm roubados seus espaços de divulgação do melhor da música brasileira.

http://www.anovademocracia.com.br/19/19-28.jpg
Ao fundo, Philippe e seu pai, Baden Powell, à época do CD Powell & Filhos
O mestre Baden Powell de Aquino nasceu em Itaperuna, interior do Rio de Janeiro, em 6/8/1937.

Foi um dos maiores músicos instrumentais e compositores do Brasil. Suas composições com Vinícius de Moraes, Paulo César Pinheiro e outros, foram gravadas por grandes personalidades, como Elis Regina e Elizeth Cardoso, marcando época e fazendo de Baden uma figura conhecida no Brasil e no mundo. Na década de 60, Baden se deslocou para a Europa, consolidando o seu imenso prestígio como músico brasileiro no exterior — intento que foi coberto de êxitos.

Retornou ao Brasil na década de 80 e passou a se apresentar com os filhos pelo país e pelo mundo. Faleceu em 26 de junho de 2000, aos 63 anos, deixando sua obra como memória nacional. "Ele sempre viveu numa ponte Brasil-Europa, e em uma delas conheceu minha mãe, uma brasileira residente na França. Meu irmão, quatro anos mais novo, Marcel, também nasceu em Paris", conta Philippe.

Ainda que do outro lado do Atlântico, Baden jamais deixou faltar o Brasil dentro de sua casa e do seu trabalho. "A nossa primeira língua, minha e do meu irmão, era o francês e mais tarde o alemão, mas nós falávamos o português em casa", confidencia Philippe, acrescentando que falava um português com sotaque francês naquela época. Hoje, nem sombra disso.

Descartando o grotesco

"O Baden tinha versatilidade musical. Fazia sambas e canções com características de serem verdadeiramente sambas e canções. Dizem que geralmente o instrumentista faz música pensando no instrumento. Quer dizer, o violonista, quando compõe, faz temas instrumentais mais violonistas. Mas não o Baden. Ele criou uma escola de violão que beneficiou vários violonistas e foi um grande compositor", declara Philippe que começou a interessar-se por música com aproximadamente três anos de idade.

"A princípio era uma simples curiosidade. Depois, passei a entender que meu pai era um grande músico, mas não tinha muita idéia do que era isso exatamente. Ele nunca fez nenhum esforço para que nós seguíssemos carreira como músicos", diz. Além disso, um verdadeiro mestre não tolera imitações, seja na pele de "herdeiros" ou "seguidores".

É bem possível que a estratégia de Baden fosse radicalmente oposta ao aparente desinteresse de ver seus filhos músicos e na realidade preferisse trocar sua influência pessoal pela vontade própria dos filhos, pela construção de uma personalidade distante das imitações. Não fosse isso, como se explicaria que um músico cuidadoso deixasse ao alcance da curiosidade das crianças, espalhados pela casa, vários e valiosos instrumentos musicais?

O olhar atento do pai e músico, embora conservasse uma democrática distância do "não pode", certamente, sempre observou as mãos das crianças tateando suas primeiras sensações pelos instrumentos, deles se aproximando de corpo e de consciência. Porque — o que mais importa — é preciso desenvolver o humano para armar-se de música e dos objetos dos quais se extraem os "barulhos educados". E desejando tornar-se um instrumentista, ou ter qualquer outra profissão, é necessário aprofundar o humano, sempre, ou se perde tudo.

"Tínhamos instrumentos como pandeiro, mas também violão, bandolim... um órgão pequenino, e eu começei a tirar alguns sons nele. Em resposta à nossa curiosidade, quando completei sete anos — nesta época morávamos na Alemanha — ele colocou a mim e meu irmão na iniciação musical com um professor que também era luthier, pessoa que fabrica instrumentos musicais. Escolhi o piano e nunca mais deixei. Toco outros instrumentos, mas não profissionalmente", explica.

E quando Philippe estava com doze para treze anos, já morando no Brasil, aconteceu que "eu e meu irmão gostávamos de brincar de apresentações musicais e assim, um certo dia, simulamos uma para os nossos convidados — os pais — ao pé da cama. Nessa, eu tocava violoncelo e Marcel, violão. Meu pai percebeu que a nossa curiosidade por música já havia evoluido para o interesse e, assim, finalmente se prontificou a nos ensinar. Mas continuamos com as nossas aulas de música, cada um com os seus professores", lembra.

O irmão de Philippe, Louis Marcel, também é músico profissional, violonista. Juntos com o pai eles fizeram várias apresentações pelo Brasil e o mundo. Tocaram no Japão e na Europa, inclusive em festivais, e gravaram o CD instrumental Powell & filhos, em 1995. "Tocáva-mos de tudo, de música clássica à muita música brasileira", conta Philippe.

Os músicos trabalham

A Europa, explica Philippe, tem sido, ao longo de muitos anos, um lugar acolhedor para a música instrumental, ao contrário do Brasil. Absurdo, mas colonialmente verdadeiro.

"Sempre tivemos grandes instrumentistas, desde Ernesto Nazaré, Jacob do Bandolim, Pixinguinha, Radamés Gnatalli — impossível citar todos, mesmo que apenas os melhores —, até os de hoje, como o Yamandú, Hamilton de Holanda, além de milhares de outros, uma turma forte e muito competente, impedida de divulgar a música brasileira", diz.

Philippe não deseja ir para a Europa buscando fortalecer sua carreira, no que encontraria muitas facilidades. Ele prefere lutar contra as adversidades aqui: "Eu amo o Brasil. Sou brasileiro, tenho certeza disso. É o meu país. Já morei na França, Alemanha e Itália, mas igual ao Brasil não tem. Sou apaixonado pelo Rio de Janeiro", revela Philippe, que já fixou sua residência na cidade, onde nasceu sua filha Raphaela, já com quase dois anos.

"Vivo exclusivamente de música onde ‘jogo nas onze posições’. Tenho necessidade de fazer arte, mas se fizesse somente uma coisa, certamente não daria para sobreviver. A vida de músico, creio que do artista em geral, é cheia de altos e baixos, ainda mais para o tipo de música que eu faço, que é na linha, digamos, marginalizada, por não ser música comercial, consumista", relata.

"Sempre existiu a música comercial apelativa e a boa música, com a diferença que tinham pessoas cuidando do espaço para a boa música e hoje só tem gente assegurando espaço para a música puramente comercial. Isso tira o direito de escolha do povo na hora de ouvir música", expõe Philippe.

"Acho que a música boa e a comercial podem até co-existir, apesar de saber que será difícil para a música apelativa sobreviver nos moldes de hoje se a boa estiver tocando, por ser agradável aos ouvidos, com letras bonitas, vencendo, ‘de longe’, as batidas repetitivas e as letras ruins da música comercial. De repente, se percebe, as músicas ruins de antigamente eram menos ruins do que as de hoje", brinca.

Não entedem, é?

"Na Europa e nos Estados Unidos, os profissionais da música, em toda a área musical, não entendem como é que a música mais rica do mundo, mais admirada, produto de exportação, que é a música brasileira, não é valorizada aqui, digamos, não se encaixa no mercado brasileiro. Ela é muito rica melódica, rítmica e harmonicamente. Temos samba, choro, maxixe, forró, baião, maracatu, frevo, vários ritmos no Sul, entre outros. Essa mistura de sons gera um resultado riquíssimo e também harmonia para os compositores que vão fazer música. A música brasileira é imprevisível", observa.

"Hoje, estamos vivendo uma inversão de valores: quanto menos elaborado, melhor. Se alguém cronometrar o tempo de música em uma rádio, encontrará um ponto muito parecido entre elas, que é de dois minutos e meio, três minutos, se for maior que isso não toca. Muita coisa foi deixada de lado, não só nas artes. Isso também acontece, por exemplo, com a cidade do Rio de Janeiro: existem vários prédios lindos no centro da cidade, que ninguém cuida, estão deixados de lado. Isso porque querem prédios comerciais grandes com salas minúsculas", compara Philippe. "Tem também a questão da falta de espaço para os compositores mostrarem seus trabalhos, sem precisar ser um super cantor. No passado, a parceria importava tanto quanto a interpretação. Quase todo mundo já ouviu falar das parcerias João Bosco e Aldir Blanc, Baden e Vinícius, Antônio Adolfo e Tibério Gaspar etc. Baden e Vinícius, por exemplo, até gravaram música cantada, mas nenhum dos dois era cantor", continua.

"A coisa é tal, que até acontece do compositor um dia gravar sua própria música e alguém pensar que ele está gravando a música do intérprete. O compositor Peninha, por exemplo, sofreu com isso. Nando Reis, é outro exemplo claro: quando foi fazer carreira solo, percebi que cantou algumas músicas que eu não sabia que eram dele", acrescenta.

Contudo, Philippe revela que as boas oportunidades estão surgindo com o aparecimento das gravadoras independentes e os selos. "São pessoas que acreditam em música de qualidade e querem trabalhar com produção. Isso é muito bom, porque acho uma vergonha termos uma música tão rica, consumida pelas pessoas fora do Brasil e aqui, não", diz Philippe.

Além de compositor, Philippe toca com várias formações: sozinho, em dupla, em trio, até quarteto. O trabalho de Philippe também se estende ao fortalecimento de outros instrumentistas e compositores. Como músico, ele acompanha outros artistas e grava. Na parte de produção, faz arranjo e trilha. Também tem o lado de administrador: cuida dos direitos autorais de seu pai e da obra por ele deixada. Ainda não gravou nenhum disco solo, "mas já tenho sete discos prontos na gaveta. Acho que está chegando a hora de colocar para fora", diz.

Na hora de compor, Philippe é bastante versátil e costuma dizer que compõe um pouco de tudo. Nas suas raízes musicais tem música popular brasileira e música clássica. "Gosto muito de compor samba, principalmente na linha da parceria Baden com Paulo César Pinheiro — na minha minha opinião, muito importante, fortíssima. Essa parceria trouxe uma linguagem nova de melodia e de harmonia em samba. É uma mistura do samba tradicional com o choro. Uma riqueza. Eu sempre tive uma influência muito forte do Baden para esse tipo de composição e hoje me deparo com a oportunidae de fazer músicas em parceria com o Paulo César Pinheiro, um letrista fantástico." "Geralmente componho com meus amigos. Creio que sem uma grande amizade não há uma boa parceria. Tenho atualmente três parceiros: o Paulo César Pinheiro, o Rodrigo Alvidir e o Marcelo Moutinho. Esses três giram em torno da música brasileira, entre sambas, canções diversas. Com o Paulinho eu componho uma música mais voltada para o samba, com os dois outros, são canções e coisas brasileiras, mas que não estão na base do samba. Eu tenho um grande carinho por esses autores e muito cuidado com as composições", finaliza Philippe.

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Tel.: (11) 3104-8537

Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

EXPEDIENTE

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas
Fausto Arruda 
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto 
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond 
Sebastião Rodrigues
Vera Malaguti Batista

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja

A imprensa democrática e popular depende do seu apoio

Leia, divulgue e conheça. Deixe seu nome e e-mail para se manter informado
Please wait