A ciência ameaçada: desqualificação do interesse público e corte de verbas

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No dia 22 de abril deste ano, a comunidade científica internacional, e aqueles que sabem da importância da ciência para a sociedade, fizeram manifestações em mais de 500 cidades de mais de 60 países. O ato foi convocado como parte da luta que se passou a travar, particularmente nos Estados Unidos, em defesa do respeito à ciência, como fonte do conhecimento. A ciência como meio de acesso à verdade e ao desenvolvimento parecia um aspecto sem questionamento, mas Trump pôs isto em dúvida.  O presidente dos EUA tem se insurgido contra as pesquisas que demonstram o aquecimento global e até mesmo contra a teoria do evolucionismo da espécie. Não será surpresa se ele determinar a revogação da Lei da gravidade. Ao assumir a presidência, Trump revogou regulações ambientais e designou Scott Pruitt para a direção da Agência de Proteção Ambiental (EPA) – ele que, dentre outras coisas, rejeita a avaliação climática compartilhada pela comunidade científica.

No Brasil, várias cidades, algumas de pequeno porte, mas sintonizadas com o mundo científico, aderiram ao ato.

No Rio de Janeiro, a manifestação ocorreu em frente à Biblioteca Nacional, em uma manhã chuvosa, que não impediu a presença de mais de uma centena de pesquisadores, professores e apoiadores do movimento em defesa da ciência.

As manifestações têm como ponto de partida as tentativas de descrédito da ciência, promovidas pelo presidente Trump em relação a questão climática. No entanto, cada país e cada cidade envolvidos na manifestação do dia 22 tinham algo mais a dizer ou a reclamar.

Mesmo nos EUA, não é só Trump e seus discursos arquirreacionários que motivam a manifestação dos cientistas daquele país. Segundo o presidente da Associação Americana pelo Avanço da Ciência (AAAS), maior associação científica do mundo, Rush Holt, os cortes no orçamento para a ciência e a tecnologia vêm fazendo com que o volume de verba para a área se reduza à metade daquilo com que se contava nos anos 1960. Ainda que se possa lembrá-lo de que àquela época havia uma corrida espacial e a guerra do Vietnã consumindo milhões de dólares a título de pesquisa científica, o fato é que os cortes de verbas orçamentárias públicas têm abalado os grupos de pesquisa nos Estados Unidos.

O orçamento proposto por  Trump para 2018 tem cortes nas despesas das agências de ciência, além da redução de 31%  para a Agência de Proteção Ambiental, objeto central de seu ataque.

No Brasil, orçamento em queda

No último dia 30 de março foi anunciado um contingenciamento de verba para a ciência e tecnologia no Brasil da ordem de 44%.

O gráfico aqui apresentado, divulgado pelo Tribunal de Contas da União (TCU), demonstra a evolução crescente do orçamento para Ciência e Tecnologia até o ano de 2014, quando passa a cair.

Para 2017, este orçamento está fixado em R$ 2,8 milhões, com o contingenciamento já referido.

O presidente da Academia Brasileira de Ciência (ABC), Luiz Davidovic, diante da situação criada com a medida do governo Temer, disse terem os membros da Academia ficado “perplexos com o corte anunciado na semana passada”. Fazendo uma rápida avaliação do significado desse orçamento, Davidovid comentou se tratar de “um orçamento menor até que o de dez anos atrás, e na época não havia comunicação no ministério”.

No segundo semestre do ano passado, 2016, o Globo entrou em contato com cem membros da ABC e a sua enquete revelou que 23% deles planejavam sair do país, 76% denunciavam a falta de apoio dos governos às pesquisas, enquanto 64%  acusavam a dificuldade na aquisição de insumos para os laboratórios.

Simbolizando a crise, a neurocientista Suzana Herculano-Houzel largou seu laboratório na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e foi trabalhar na Universidade de Vanderbilt, na cidade estadunidense de Nashville. Com Trump, sua decisão a fará ver que o problema não é nacional. É do capital.

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