Pixinguinha: um genial sopro de vida

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O mês de abril de 2017 marcou os 120 anos de nascimento de Pixinguinha, um dos mais geniais nomes da música popular brasileira. Instrumentista, compositor, maestro e arranjador, a sua importância para a música brasileira transformou a data de seu aniversário, 23 de abril, em Dia Nacional do Choro. A obra grandiosa de Pixinguinha encontra-se no patamar das melhores criações artísticas das massas populares em nosso país.

Pixinguinha: um genial sopro de vida

Alfredo da Rocha Vianna Filho nasceu no bairro da Piedade, no Rio de Janeiro, em 23 de abril de 1897, filho de Alfredo da Rocha Vianna e Raimunda Maria da Conceição. Seu pai, funcionário dos Correios, era também flautista amador e promovia reuniões musicais em sua casa, as quais compareciam renomados músicos da época. O menino teria recebido da avó africana escravizada o apelido Pizindim (cujo significado seria “menino bom”). Há quem acredite que o nome Pixinguinha seja derivado da mistura desse apelido com “Bexiguinha”, pois, quando criança, teve a face marcada pela varíola (chamada popularmente de bexiga).

Ao longo de sua carreira artística fora muito incompreendido, pois na condição de pesquisador incansável de sonoridades até então desconhecidas, misturava ritmos e sons afros (frigideiras, tamborins, cuícas e gogôs usados marginalmente nos terreiros de umbanda e nos morros cariocas) com a música negra estadunidense. Fundia ritmos de Ernesto Nazareth com Chiquinha Gonzaga numa mistura dialética que culminaria em “Choro” nos moldes modernos. “Choro” ou “chorinho” remonta às antigas festas que reuniam escravos nas grandes fazendas em danças denominadas “xolo”, que com o passar dos anos assumiu a corruptela de “Choro”, ritmo pesquisado e estudado a fundo por Pixinguinha.

Musicalidade de Pixinguinha

Esta imensa qualidade musical foi herdada de sua família que o influenciava diretamente durante sua infância no bairro de Ramos, no Rio de Janeiro.  Fora conduzido muito cedo à vida noturna de bares, cabarés, cassinos. Claro, criança, não deixava de lado a bola de gude e as pipas. Como todo moleque, se divertia; seu amadurecimento para a vida foi bastante precoce. Aos 12 anos já tocava com maestria o cavaquinho, mas sua grande paixão foi a flauta que aprendeu a tocar com o pai, sendo ao longo de sua carreira considerado o maior flautista brasileiro. Sua primeira composição foi feita aos 13 anos, em 1911, “Lata de leite”, que reflete o costume dos “chorões” (os membros dos grupos de chorinho) de beberem o leite deixado às portas das casas quando, de madrugada, retornavam às suas moradias. Com 14 anos assumiu a direção de harmonia de rancho carnavalesco e aos 17 tocava em orquestras em casas noturnas do Rio de Janeiro, tornando-se muito conhecido na zona boêmia da Lapa. Sua carreira teve o pontapé inicial, pode-se assim dizer, quando começou a tocar nas salas de espera de cinemas com seu célebre grupo “Os oito Batutas” em 1919, nas quais apenas os melhores músicos se apresentavam, chamando mais atenção do público do que os filmes que passavam nas telas! São desta época as suas primeiras experimentações, cujas melodias hoje são clássicas da MPB: “Rosa”, “Carinhoso” (instrumental) e “Sofres porque queres”.

Logo despertou a curiosidade de empresários ligados aos meios musicais que convidaram-lhe para apresentações pelo Brasil e depois na Europa.

“Os oito Batutas”, assim, chegam em Paris em 1922 para uma temporada de um mês. Contudo, o sucesso fora tão surpreendente que lá permaneceu por seis meses, período em que aproveitou para aperfeiçoar sua técnica e harmonia ao conviver nos meandros da música europeia e com o jazz (muito apreciado na França), experiência essencial para o modo de ser “Pixinguinha” e os moldes modernos do “chorinho”. A partir daí suas composições foram profundamente marcadas por estes elementos, proporcionando que aprendesse a tocar saxofone, o qual trouxe como sua nova paixão em sua volta para o Brasil e que iria ser seu principal instrumento na década de 1940.

Pixinguinha: um genial sopro de vida

Pixinguinha venceu com muita luta todos os preconceitos da época ao introduzir instrumentos desconhecidos na música popular como o pistão, trombone e clarineta. Não foi fácil, nada caiu do céu, pois estamos falando de costumes do início do século XX, de um período bem recente à chamada abolição da escravatura. As classes dominantes queriam impedir que os negros tocassem nos cinemas, pois “o lugar deles é nos cabarés e no baixo meretrício”, afirmavam os detratores; uma “orquestra de negros” era inadmissível. Mesmo com o estrondoso sucesso obtido na França – que a elite branca brasileira considerou desmoralizante para o país, chegando ao extremo de pedir ao Ministério do Exterior que impedisse a viagem –, Pixinguinha e seu grupo foram barrados num grande hotel carioca e obrigados a entrar pela porta dos fundos do mesmo, o que o levou a compor a música “Lamento” (para a qual Vinicius de Moraes fez a letra 30 anos depois).

Um poeta do povo

Pixinguinha, vivendo da música e da criação sonora e artística, sempre esteve junto às massas populares dos bairros do subúrbio carioca. Sofreu duramente com o ódio de classe de quem não entendia a dialética transformadora de Pixinguinha, e tergiversavam ao dizer que ele não fazia música brasileira  Na verdade, concentra em seu âmago a brasilidade e a matriz negra enraizada em obras-primas como “Conversa de crioulo”, “Festa de branco” (com Baiano), e “Patrão prenda seu gado” (com Donga e João da Baiana). Pixinguinha viveu toda a sua vida no meio da massa, convivendo com artistas do povo, quilombolas e moradores dos morros e bairros pobres do Rio de Janeiro. Recebeu na canção “Ao Velho Poeta, Pixinguinha”, do grupo Originais do Samba, uma bela e significativa homenagem.

A obra musical e artística de Pixinguinha não se encerra em si mesma. Nestes tempos de ofensiva ideológica do imperialismo que visa destruir tudo que representa de resistência cultural de raízes, está na ordem do dia para todos os democratas e intelectuais honestos conhecer e divulgar a obra grandiosa de Pixinguinha para as novas gerações, cuja juventude hoje está cada vez mais empurrada para o lixo cultural do sistema capitalista.

O resgate dos aportes e senso criativo da obra de Pixinguinha auxiliará em muito na criação de uma nova cultura, tão necessária na luta pela libertação do nosso povo e da nação.

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