Os vendilhões dos templos – os três poderes

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Arte de Pawel Kuczynski
Arte de Pawel Kuczynski

Sinto-me na pele de todos os patriotas honestos e trabalhadores que há séculos constroem este País, acordando ao raiar do sol, tomando ônibus, trens, carroças de boi ou a pé pelas estradas empoeiradas envelhecendo precocemente ao calor do sol escaldante...

Nós que deixamos nossos filhos em creches ou pagamos a algum vizinho para olhá-los; ou sem o menor recurso, somos forçados a deixá-los entregues às ruas – aprendizes de bandidos e traficantes...

Nós, que com pás e enxadas, trabalhamos sob o sol a pino muitas vezes sem vínculos empregatícios e sem nenhuma garantia, verdadeiros “bóias-frias” comendo farinha, feijão, arroz e tripa de porco assada para camuflar a fome.

Nós, médicos e enfermeiros que trabalhamos em hospitais e ambulatórios sem leitos, sem aparelhagens, sem oxigênio, sem produtos básicos de assepsias  vendo bactérias se proliferarem matando aqueles que foram em busca de cura. Pacientes jogados ao chão, urrando de dor sem o mais barato analgésico. Nós que nos formamos para salvar vidas, somos obrigados, com dor na consciência, a escolher a quem salvar ou deixar morrer como carrascos em campos de concentração. 

Nós, que construímos espigões, sem proteção alguma, despencando dos andaimes e enterrados como indigentes.

Nós, que morremos erguendo pontes e desaparecendo nas águas barrentas ou impetuosas de rios e mares como um pacote de estrume esquecido sem honra e sem glória.

Nós, que levamos alimentos à mesa farta dos que podem escolher, morremos com os pulmões apodrecidos pelos inseticidas.

Nós, que vivemos da agricultura de subsistência, vendo as plantações secarem enquanto choramos a morte do gado sem “palma” para matar a fome e sem água enlameada para matar a sede. Nós, que vendemos o pedacinho de terra para os grandes latifundiários e seguimos para as capitais em paus-de-araras, sonhando com dias melhores. Terminamos moradores de ruas escarnecidos pelos transeuntes.

Nós, crianças e jovens, marginalizados pela família e pela sociedade, sem escolas preparatórias e sem vislumbre de um futuro promissor tornamo-nos iscas fáceis do tráfico de drogas. Terminamos nas Cracolândias – zumbis travestidos de gente a vagar num inferno em vida.  

Nós, pobres crianças, filhos e filhas dos maus tratos e do abandono das Instituições Governamentais, somos obrigadas a vender o corpo e a alma aos predadores sexuais em troca de um prato de comida muitas vezes forçados pelos próprios pais desempregados.

Nós, pequenos empresários, responsáveis por 52% dos empregos formais no país, não podendo arcar com os encargos sociais e os altos impostos, somos obrigados a fechar nosso comércio agravando assim o número de desempregados.

Nós, aposentados e pensionistas, que pagamos o teto máximo e recebemos míseros reais.

Agora pergunto aos que se tornaram “Vendilhões dos Templos” dos Três Poderes: como podem dormir o sono dos justos sem se darem conta que não passam de assassinos, torturadores, amputadores de sonhos e esperanças? 

Os senhores destruíram e continuam destruindo gerações inteiras. Matam nos hospitais quando desviam verbas.

Usurpam quantias destinadas às escolas e vendem nossas crianças, roubando-lhes a infância e a pureza, levando-as a alistarem-se no batalhão do tráfico e usuários de drogas, alistando-se ao futuro do nada.

Os senhores que roubaram as verbas destinadas às moradias, obrigando-nos a ter como teto as marquises, o passeio como a cama e o papelão como cobertor. Jamais saberão o que é não ter um travesseiro para repousar a cabeça.

Os senhores que roubam e dilaceram o patrimônio brasileiro corrompem e são corrompidos escondendo bilhões em bancos estrangeiros.

Os senhores que colocam vossos filhos a sofrerem xingamentos e bullying nas escolas e nas ruas.

Vocês que em ganho próprio se valem da “Indústria da Seca” procrastinando a irrigação das terras, matando de desnutrição homens, mulheres, crianças e animais, aumentando a estatística do Êxodo Rural e enchendo as ruas de moradores e pedintes.

Os senhores, chacais imundos, dilaceram e fazem sangrar a nossa bandeira colocando o nosso País no mais alto pódio da roubalheira e da descrença como Nação.

Os senhores que forçam os nossos jovens, diplomados e graduados a buscar emprego em outros países porque estão sem futuro no seu próprio País.

Os senhores que apertam gatilhos com os dedos dos outros, acham que suas mãos estão intactas e sem manchas?

Tenha certeza, senhores vendilhões, que o povo não dorme, que o sistema global de redes e comunicações tudo vê, tudo rastreia e tudo espalha. Não há mais nada que se possa ocultar.

Os senhores se emaranharam no mar de lama, prenderam-se nas próprias cordas. Delatam e são delatados. Traem e são traídos. Corrompem e são corrompidos.

E, ainda que, continuem vivendo sob o céu do nosso Brasil, o povo já os julgou e os desertou. 
Traíram a nossa confiança. Sangraram a nossa bandeira e já não são dignos do nosso amor, respeito e admiração.

O cinismo estampado nas falsas promessas e a falta de honradez só nos dá pena, repúdio, nojo e total desprezo.

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