O rap de Brasília: ‘Caligrafia Mardita’

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Vim para Brasília no começo de junho para escapar das dores no corpo que o frio e a umidade de Floripa (onde moro) estavam me provocando.

Depois que sofri um AVC, essas dores me incomodam demais; então ficarei na capital, abrigada na quentura do cerrado e no caloroso afeto dos amigos até a “geladeira” deixar Santa Catarina, lá por setembro ou outubro, mais ou menos.

Logo que cheguei aqui percebi que estava dividindo o espaço geográfico com algumas das piores figuras adultas nacionais, os quadrilheiros mafiosos de terno e gravata, ricos e/ou representantes de ricos, as classes dominantes do nosso país.  Mas, por outro lado (Viva a esperança! Três vezes salve a esperança!), graças às dicas do Matheus Marques Dy Lá Fuente Gonçalves, filho da minha amiga irmã Márcia Marques, eu soube que o espaço também era dividido com algumas das melhores figuras jovens do Brasil, pobres e/ou filhos de pobres, moradores da periferia, artistas estudantes e/ou trabalhadores: os fazedores de Rap.

Assim, em outras palavras, este prestativo jovem me indicou os raperos do Distrito Federal (DF), cujo grupo iniciador se chamava Caligrafia Mardita, por ter ligação também com o graffiti.

Conforme o estudo de Laura Veridiana F. Moreira, Rap e poesia: diálogos urbanos1, o Rap no DF começou logo depois de explodir em SP e RJ nas décadas de 1980 e 1990.

Um dos poemas/raps da primeira fase, digamos, foi Ceilândia – Revanche do Gueto. Aí vai:

Respeito todas as quebradas, becos e vielas
Quebras cabulosas, satélites e qualquer favela
Todas se parecem muito, só que a Cei é diferente
Na nossa quebrada a parada é mais quente
Mais de 500 mil e para eles somos lixo
Lutando para sobreviver, tratados como bichos”.

O movimento cresceu e se firmou, com raperos como Gog, poeta de rua, autor da intensa Brasil com P, que virou um clássico do Rap nacional e até leitura indicada para o vestibular da Universidade de Brasília (UnB).  Só um aperitivo da dita cuja resumida/adaptada para o pequeno espaço do nosso jornal AND:

Pesquisa publicada prova
Preferencialmente preto pobre prostituta pra polícia prender
Pare pense por quê?
Pelos palanques políticos prometem – prometem
Pura palhaçada proveito próprio
Pra periferia pânico pólvora pá-pá-pá
Primeira página
Preço pago pescoço peitos pulmões perfurados
Padres pastores promoveram procissões pedindo paciência pra população
Parábolas profecias prometiam pétalas paraíso
Predominou (o) predador”.

O DF, hoje, sedia várias batalhas de raperos e raperas, como a Batalha da Escada2, além da atividade significativa de grupos como Tribo da Periferia, Hungria Hip Hop, Pacificadores e Um Barril de Rap.

As chamadas batalhas, com plateias numerosas e participativas, são desafios rimados feitos na hora, lembrando os repentes nordestinos, abrasileirando com alta qualidade o Rhythm And Poetry (RAP) dos deserdados do USA, povo pobre e explorado que sobrevive aos trancos dentro do império arrogante, autoritário, assassino e ladrão.

Que o digam Malcom X e Mumia Abu-Jamal, dos Panteras Negras, partido insurreto que já praticava a luta, a denúncia cantada/falada e outras artes rebeldes na Gringolândia desde os anos 1960.

Saudações aos leitores e companheiros do AND!

Rosana Bond, jornalista, em 21 de junho de 2017

*Rosana Bond é membra licenciada do Conselho Editorial de AND


Notas:

1 - Projeto Experimental de Conclusão de Curso, Faculdade de Comunicação/Jornalismo da Universidade de Brasília, 2014. Trabalho disponível em:  goo.gl/jWYvte

2 - Link para o canal da Batalha da Escada – evento que reúne toda quarta-feira cerca de 400 a 500 jovens na UnB: goo.gl/nCa7Ud

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