Operações policiais prosseguem extermínio nas favelas

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No dia 2 de julho, representantes de mais de 40 favelas do Rio de Janeiro se reuniram na Praia de Copacabana, na Zona Sul da cidade, e realizaram uma manifestação contra o genocídio nas favelas e pelo fim das operações da polícia em horário escolar, tema que foi denunciado na última edição de AND (191)  pelo repórter Patrick Granja, ‘A vida das nossas crianças não tem valor para essa polícia’. O ato se concentrou em frente ao luxuoso Copacabana Palace. Próximo ao local, no Morro Pavão-Pavãozinho, uma nova operação policial cercava a população da comunidade no momento em que os manifestantes denunciavam o extermínio da juventude pobre e negra.

Sandro Vox / Agência O Dia
Ônibus incendiados no Catumbi após assassinato de morador do morro São Carlos
Ônibus incendiados no Catumbi após assassinato de morador do morro São Carlos

Em 6 de julho, mães e familiares de vítimas do velho Estado organizaram, no Centro da cidade, um protesto contra o genocídio nas favelas que exigiu justiça para seus filhos. O ato ocorreu em frente ao 1º Distrito Policial da Praça Mauá, prédio em que também funciona a Corregedoria da Polícia Civil.

Conforme denunciamos na edição 191 de AND, no dia 30 de junho, mãe e filha – Marlene Maria da Conceição, de 76 anos, e Ana Cristina da Conceição, de 42 – foram assassinadas no morro da Mangueira. Revoltados com os covardes crimes, os moradores incendiaram um ônibus. Nesse mesmo dia, Claudinéia dos Santos, grávida de nove meses, foi atingida por um tiro na Favela do Lixão, no município de Duque de Caxias. O recém-nascido teve uma lesão na vértebra que pode deixá-lo paraplégico. No dia seguinte, mais duas pessoas foram feridas na mesma favela pelo que o monopólio de imprensa chama de “balas perdidas”.

Na primeira quinzena de julho, mais operações policiais prosseguiram o derramamento de sangue do povo em ações que sempre são noticiadas pelo monopólio de imprensa como “troca de tiros entre PMs e traficantes” e sob o hipócrita pretexto de “combate ao tráfico de drogas”. Porém, tudo isso não passa de parte do incremento do genocídio praticado pelo velho Estado como parte da guerra civil reacionária desencadeada pelas classes dominantes contra o povo no Brasil, que tem contornos dramáticos para os pobres no Rio de Janeiro.

Protestos por Vanessa

No dia 4 de julho, a menina Vanessa Vitória dos Santos, de 11 anos, foi atingida na cabeça na porta de casa na localidade conhecida como Boca do Mato, no morro Camarista Méier, no bairro Lins de Vasconcelos, Zona Norte do Rio. Ela foi encaminhada para o Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier, mas, infelizmente, não resistiu ao ferimento.

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No dia seguinte, moradores do Camarista Méier e amigos de Vanessa realizaram um protesto exigindo justiça e foram apoiados por moradores da região, que foram às janelas aplaudir os manifestantes. Os soldados da Unidade de Polícia “Pacificadora” (UPP) acompanharam o ato e foram rechaçados pela população aos gritos de “assassinos” e também pela palavra de ordem “Fora UPP!”. Uma moradora carregava um cartaz com a frase “Vanessa, mais uma vítima do Estado”.

Em declarações à imprensa, amigos da família da jovem afirmaram que não havia tiroteio no momento em que Vanessa foi atingida e que os policiais já chegaram atirando no local. Eles relataram a rotina de insegurança derivada de operações policiais que atrapalham a ida para o trabalho, para a escola e até mesmo para permanecer em casa. O pai de Vanessa, Leandro Monteiro de Matos, 39 anos, pedreiro, também disse acreditar que a bala partiu da arma de policiais, que entraram em sua casa e atiraram para dentro da residência.

Revolta popular

Um dia após a menina Vanessa ser morta, a adolescente Samara Gonçalves, 14 anos, foi ferida quando estava no pátio do Colégio Estadual Ricarda Leon, em Belford Roxo, município da região metropolitana do Rio. Com o pulmão perfurado, Samara foi encaminhada para o Hospital Geral de Nova Iguaçu, onde passou por cirurgia. Até o fechamento desta edição, seu quadro era estável.

No dia 7 de julho, o assassinato de Carlos Henrique Olímpio, morador do Morro de São Carlos, no Catumbi, Zona Norte, em uma operação policial, gerou revolta e protestos na comunidade. Dois ônibus foram incendiados.

Já no dia 10 de julho, a idosa Elídia Norberta de Paula, de 82 anos, também foi atingida por uma “bala perdida” na Cidade de Deus, na Zona Oeste, onde o genocida Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) da Polícia Militar realizou uma operação que terminou com dois mortos, seis feridos e quatro presos. Elídia foi encaminhada para o Hospital Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca e , até o fechamento desta edição permanecia inalterada.

Massacre de pobres

O termo “bala perdida” tem sido fartamente utilizado pelo monopólio de imprensa em sua bestial campanha para justificar a matança promovida pelo velho Estado nas favelas e bairros pobres do Rio de Janeiro. O resultado desse conluio entre monopólio de imprensa e forças de repressão a serviço do velho Estado é uma trágica e cruel constatação: o número de pessoas atingidas por “balas perdidas” somente de janeiro ao dia 2 de julho deste ano no Rio é de 632. Dessas, pelo menos 67 morreram, segundo dados oficiais subestimados.

A Baixada Fluminense é a região do estado onde ocorreu o maior número de casos, 154 mortos e feridos. Segundo dados do aplicativo Fogo Cruzado, desde o primeiro dia de 2017 até 30 de junho, ocorreu pelo menos um tiroteio por dia no Rio, sendo que a média tem sido de 14 por dia.

Banda podre ou tudo podre?

Na manhã de 29 de junho, uma operação foi deflagrada para efetuar a prisão de 96 policiais militares acusados de envolvimento com o tráfico de drogas em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro, município que tem a maior média de tiroteios no estado. A operação, que foi realizada por agentes da Polícia Civil, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público (MP-RJ) e da Corregedoria da Polícia Militar, foi transmitida pelos canais de TV, em particular a facção Globo, como se fosse um grande esquema para acabar com a corrupção (a “banda podre”) na PM, quando, na verdade, somente mostrou o quão podre é esta instituição, que, como aparato de repressão do velho Estado, só poderia refletir sua condição de decomposição avançada, a qual relatamos continuamente em nossos editoriais.

Desde que estas prisões foram efetuadas, algumas pessoas já foram assassinadas, no que cogita-se a possibilidade de “queima de arquivo”. A tentativa de “moralizar” e “prender maus policiais” para salvar a imagem da instituição cai por terra diante dos inúmeros crimes cometidos diuturnamente pela PM contra as classes populares. Uma instituição como a PM (e todas as outras polícias), tradicional e secularmente resvalada para o banditismo, quando reprime as massas nas favelas e bairros pobres somente está cumprindo o seu papel social expresso em seu lema: o de servir e proteger as classes dominantes.

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