Cordel nas escolas

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Poeta cearense envolvido com a cultura popular, o cordelista Moreira de Acopiara tem seus cordéis inseridos nas escolas como material cultural e didático. O nome artístico escolhido pelo poeta é uma homenagem a sua cidade natal, Acopiara, sertão central do Ceará.

Cordel de Moreira é utilizado como material cultural e didático nas escolas

Mais um entre os nordestinos que foram alfabetizados ou tiveram o cordel como importante colaborador na alfabetização, Moreira leva esses momentos agradáveis com crianças de São Paulo.

— Cordel é poesia rimada e metrificada, como a poesia de Castro Alves, Camões e Casemiro de Abreu. É encantamento. E a bem da verdade, qualquer leitura solta a imaginação da criança e faz com que ela melhore o vocabulário, a capacidade de raciocinar, e possibilita grandes viagens imaginárias. O cordel é um facilitador, e por vários motivos — fala Moreira, que já participou da edição 113 do AND.

— Ultimamente tenho trabalhado bastante com crianças e adolescentes. É que tenho alguns livros apropriados para essa faixa etária e muitas escolas têm adotado, o que muito me alegra. O livro que aparece nas mãos das crianças na foto se chama: Cordel em arte e versos, mas, tenho também: A natureza agredida pede pra ser respeitada, e Medo? Eu, Hein? — relata.  

—  Tenho outros prontos que ainda não foram publicados. Vou citar aqui alguns: Um coração para meu filho, A ilha que a princesa salvou, O bicho homem e Sobre diferenças. Cordel é cultura popular, é coisa simples, mais acessível. Leitura é fundamental, e nada substitui o livro — declara.

A poesia do cotidiano contida no cordel faz com que a criança fique mais atenta aos detalhes a sua volta, mais humana e não robotizada.

— Fico triste quando vejo crianças e adolescentes que passam o dia quase todo debruçados em cima de um telefone celular vendo joguinhos sem futuro ou vídeos alienantes. E os pais têm parcela grande de culpa nisso, porque não conversam com seus filhos, não leem nem contam histórias para eles. A criança só não consegue gostar daquilo que não conhece. Quanto mais cedo o cordel lhe for apresentado, melhor — expõe.

— Acho que a literatura de cordel inserida nas escolas é tão importante quanto os demais livros apresentados no ambiente escolar. E como tal, deve ser tratado de igual para igual. Mas é preciso que fiquemos atentos, porque tem cordel bom e ruim, do mesmo jeito que podemos encontrar livros ruins e bons — continua.

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— O cordel teve seu início aqui no Brasil na região nordestina, com Leandro Gomes de Barros, a partir do Recife, ou seja, um centro urbano. Dali se espalhou pelo restante do Nordeste, e hoje está no Brasil inteiro. Foi muito importante na formação da cultura brasileira, e nunca deixou de ser atual, nem deixará, até porque está presente na música, na literatura, no teatro e no cinema — fala.

Moreira diz que a maioria dos clássicos da literatura de cordel são contos populares adaptados para essa linguagem.

— Já adaptei vários, inclusive três livros famosos, que são: “A divina comédia”, “As aventuras de Robinson Crusoé” e “Os sertões”. Outra paixão minha é o “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa, um clássico da nossa literatura que foi escrito a partir de um cordel anônimo que nos chegou juntamente com o colonizador europeu, denominado de “A donzela que foi à guerra” — conta.

— Acabei de trazer de volta para o cordel a história maravilhosa de Riobaldo e Diadorim, que publicarei brevemente. Essas adaptações ou releituras, servem de ponte, têm linguagem mais acessível, e o aluno que a eles tiver acesso vai se sentir instigado a ler o original — continua.

Cordel por toda uma vida

Manoel Moreira Júnior, o Moreira de Acopiara, escreve poesias desde a adolescência. Grande influência e professor foi o poeta Patativa do Assaré, além de outros nomes importantes da literatura de cordel.

— Nasci e fui criado numa fazenda no interior do Ceará, onde não tinha energia elétrica, a luz de lamparina era um encanto. Dormíamos cedo, e nossa diversão era um rádio de pilha, através do qual nos informávamos. Uma vez por semana meu pai ia até a cidade, quase cinquenta quilômetros por uma estradinha de terra — recorda.

Cordel de Moreira é utilizado como material cultural e didático nas escolas
Cordel de Moreira é utilizado como material cultural e didático nas escolas

— A feira era o ponto de encontro dos sertanejos e ali se faziam negócios, e compromissos eram marcados. No finalzinho da rua da referida feira ficava um vendedor de cordel, a quem meu pai sempre comprava ao menos um folheto. Aquilo para nós era uma novidade, uma alegria — continua.

— Era muito comum nós nos reunirmos no alpendre da casa grande para escutar a leitura desse cordel novo, e a releitura de outros. Quem sabia ler melhor, lia em voz alta. Até quem não sabia ler acompanhava atentamente, e em muitos casos acabava decorando — acrescenta.

Moreira se lembra de cada detalhe da época de criança, os acontecimentos da infância: eram muitas descobertas.

— Aquele ritmo já me era muito agradável, e ficou na minha cabeça. Eu era criança e não via a hora de ser alfabetizado para eu mesmo ler aqueles cordéis. Com o auxílio dos mesmos eu rapidamente me familiarizei com a leitura — conta.

— As rimas, a contagem das sílabas, o enredo curto, os poucos personagens, tudo isso facilitava a compreensão e até a memorização. Foi minha escola. Depois li revistas em quadrinhos e livros de bolso, antes de descobrir e me apaixonar por Graciliano Ramos, José de Alencar, Machado de Assis e os clássicos da poesia brasileira. Minha mãe amava os livros e tinha tudo isso na estante lá de casa — continua.

— Manoel Moreira de Oliveira, meu pai, possuía muitas e bem colocadas palavras, e um considerável repertório de histórias, muitas vezes contadas no alpendre da casa grande, sob luz de lamparina — conclui.

Muitas das histórias do pai de Moreira, o Né Rufino, como era conhecido, foram lapidadas mais tarde pelo poeta transformando-se em cordéis.

Com 21 anos de idade Moreira de Acopiara migrou para São Paulo. E mesmo enfrentando muitas adversidades na luta por sua sobrevivência, Moreira conseguiu publicar seu primeiro cordel aos 24 anos. Hoje já são muitos livros, poemas gravados em músicas, peças de teatro e um programa de rádio, tendo sido, inclusive, objeto de estudos em pesquisas acadêmicas.

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