Terra para quem nela vive e trabalha!

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Há pouco tempo estive fazendo uma cobertura fotográfica em Pau D’Arco, no Pará (ver edição 190 de AND).

Na estrada, buracos e todo tipo de precariedade fazem o caminho ainda mais longo. Durante o trajeto, uma visão monótona de quilômetros e quilômetros de terras improdutivas do latifúndio. Todas cercadas. Nada além de mato. Em raras vezes um pouco de gado perdido numa imensidão verde.

Antes de chegar ao destino, uma cena chamou atenção: à beira da estrada barracas bem arrumadas emergiram repentinamente, e com elas alguns sinais de plantações. Estávamos no município de Xinguara.

Tomado de sobressalto pelo imprevisto e pelo impulso do ofício, comecei a fotografar mesmo de dentro do carro. Era um acampamento, pensei.

Aproximando-nos mais, avistamos um mastro fincado no portão de entrada erguendo uma bandeira com as inscrições “LCP”, Liga dos Camponeses Pobres. As suspeitas se confirmavam. De imediato pedi ao motorista que nos conduzia que parasse o carro para que pudéssemos visitar o local.

Caminhando sobre o chão de terra batido em direção ao portão uma faixa indicava “Área Revolucionária Osmir Venuto”, uma homenagem ao companheiro Osmir Venuto da Silva. Me interessei pelos motivos da homenagem e mais tarde soube  tratar-se de um valoroso operário da construção, dirigente-fundador da Liga Operária. Osmir dedicou sua vida à luta e atuou decisivamente para a construção e fortalecimento da Aliança Operário-Camponesa, apoiando sem reservas a luta dos camponeses contra o latifúndio, por terra, pão, justiça e uma Nova Democracia.

Na área, onde vivem hoje dezenas de famílias camponesas, ouvimos relatos da vida e luta pela terra e produção. Aquelas terras foram conquistadas depois de muita luta, de muita opressão do latifúndio. Muitos desses camponeses são remanescentes da Operação “Paz no Campo”, na fazenda Forkilha. Essa criminosa operação, ocorrida em outubro de 2007, foi levada a cabo pela então gerente estadual Ana Júlia Carepa/PT e resultou em despejo, agressões e torturas de centenas de camponeses acampados no local, além da prisão de 22 deles.

Os camponeses nos falaram sobre a luta pela produção e tudo que produzem desde que conquistaram o direito de ter seu pedaço de chão para viver e plantar. Como se pode ver nas imagens, a rica produção se dá em apenas 3 hectares (660m2) de terra que é dividida entre cada família. Bem oposto aos milhares de hectares de terra inutilizada pelo latifúndio e diferente do discurso usado pelo monopólio de imprensa que acusa o camponês de desocupado e aproveitador. 

 Mandioca, feijão (mais de um tipo), arroz, milho, manga, caju, banana, acerola, coentro, cebola, salsa, entre outros, são plantados naquela área. Lá, vimos camponeses produzindo e trabalhando muito no pequeno pedaço de terra, produzindo seu alimento e o alimento da cidade.

Precisamos combater as falsas informações produzidas pelo monopólio de comunicação que, junto do velho Estado latifundiário, produzem factóides para difamar o camponês. São milhares de quilômetros improdutivos de terra na mão de poucos e milhões que amam o campo e querem produzir tendo seu direito à terra negado. Com certeza os valores exorbitantes cobrados pela comida que chega na cidade seriam bem reduzidos, sem falar na melhoria da qualidade, se os camponeses detivessem os meios de produção. Essa visita na Área Revolucionária da Liga dos Camponeses Pobres mostra que a luta pela terra avança, criando vida nova para dezenas de famílias da área. A Revolução Agrária é inevitável. Terra para quem nela trabalha!

Logo chegaram as crianças da escola com seus uniformes e pastas sorrindo e brincando. Me chamou a atenção ver a consciência que os camponeses da Liga dão à educação. Todas as crianças frequentam a escola. Depois de caminhar e registrar toda aquela produção fomos presenteados com almoço, tudo produzido no acampamento. No fogão à lenha, um verdadeiro almoço sem agrotóxicos e produzido no quintal de casa. Para uma equipe que foi cobrir a Chacina de Pau D’Arco, ter visitado uma área da Liga dos Camponeses Pobres foi um alento para a situação na qual eu iria me deparar.

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