Crônicas da vida do povo: breve história de uma chacina

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Ellan Lustosa/AND
A vendeta sangrenta continuará - Foto: Ellan Lustosa/AND

Num lugar da Zona Norte do Rio de Janeiro, famoso pelos seguidos roubos de carga que por ali ocorrem, um grupo de mulheres protesta contra mais uma chacina perpetrada pela Polícia Militar. Ali não há as formas plásticas da “cidade maravilhosa”, infinitas vezes cantadas em verso e em prosa. Ao contrário, as ruas são assimétricas, os becos sinuosos e estreitos, as casinhas simples amontoam-se umas sobre as outras. Homens fardados patrulham os acessos do morro; adolescentes descalços patrulham-no internamente. Roubos de carga merecem capa dos jornais. A morte de jovens favelados, não.

Direitos, que direitos?

  — O que vocês ‘tão’ fazendo? — pergunta um PM, com um fuzil em punho, para o grupo de mulheres que pinta uma cartolina, na beira da via.

 — Isso é um protesto contra as mortes aqui na nossa comunidade — responde uma das muitas mães que perderam seus filhos em operações do 41° Batalhão da Polícia Militar, o Batalhão mais letal da polícia mais letal do mundo.

 — Vocês sabem que não pode fechar a via, né? Se quiser protestar tem que comunicar ao comando do Batalhão.

Três viaturas, com quatro homens em cada uma, cercam o pequeno grupo que se concentra. Um chefe militar deve ser comunicado para que um protesto civil aconteça. Quantos “autos de resistência” aqueles policiais, preocupados com o fechamento da via, carregam nas costas? Qual a probabilidade de estarem reunidos, nesse breve diálogo, a mãe e o assassino do seu filho?

‘Papai’

Os moradores das favelas ao redor dividem os policiais, basicamente, em três grupos: os que se contentam em pegar o “arrego”1; os negociantes que vendem armas e drogas e, se necessário, sequestram os traficantes locais a fim de extorqui-los; e, finalmente, os matadores, que se orgulham da fama que têm e buscam ampliá-la sempre com novos crimes. Esses três tipos se confundem, naturalmente, e em geral os militares são capazes de cumprir qualquer um dos papéis segundo exijam as circunstâncias.

Um dos policiais-matadores mais famosos do lugar usa um apelido inusitado: “Papai”. Após realizar execuções, costuma pegar o rádio transmissor de alguma das vítimas e dizer para seus pares: “O papai veio buscar mais um filhinho, deixou ele deitado no chão. Hoje papai tá satisfeito, mas logo vai voltar pra pegar mais umSó de ouvirem seu apelido muitos moradores fecham o semblante, repreendem: “tá amarrado, em nome de Jesus!”.

A tocaia

Foi “Papai” quem armou a tocaia. Subiu o morro pela mata, com seus homens à paisana. Já conhecia a casa que queria usar como “base” e a rotina dos seus moradores: um casal na faixa dos sessenta anos e sua filha de vinte e poucos. Esperou até que todos entrassem na moradia simples, fechassem o portão, ligassem a TV. Eram seis ou sete horas da noite. Só então desceu com seus homens da mata para o quintal. Entraram na sala da casa, pelos fundos, empunhando as armas. Ordenaram:

— Todo mundo ‘pro’ quarto. Agora, porra!

Como o cachorro latira, um policial deu-lhe um bico no focinho, mandou a mulher guardá-lo:

— Tranca o cachorro no banheiro, senão eu mato ele à faca.

Não ocorreu aos PM’s que se necessita de um mandado para violar uma residência, nem aos donos da casa reivindicar isto. Uns e outros sabem que esse é um “privilégio” de que não gozam os moradores das favelas.

— Ficamos reféns na nossa própria casa. Eu tive que implorar pra deixarem pegar o remédio do meu marido na sala. Eu só ouvia eles batendo a geladeira com força, comendo as nossas coisas. Uma humilhação, uma humilhação — relatou a mulher, mais tarde, com a voz trêmula.

O desfecho ocorreu por volta das onze horas da noite. A casa invadida ficava em frente à boca de fumo. Os policiais, atrás do muro, podiam ouvir nitidamente as vozes dos jovens que conversavam. Esses, provavelmente, falavam sobre garotas, o último baile, o andamento do “movimento” na região, sem desconfiar que a morte os escoltava. Dos quatro, dois eram efetivamente do tráfico. Um terceiro já havia abandonado aquela vida, trabalhava como boy. Um quarto estudava, jamais “formara”2 na boca, mas era amigo de infância dos demais e parara para bater um papo, já que aparentemente estava tudo calmo. Esta decisão banal custou-lhe a vida.

Ao sinal do “Papai”, os PMs “ganharam” a rua e metralharam os rapazes. Não houve voz de prisão: apenas o fuzilamento sumário. Tampouco houve troca de tiros, porque todos foram pegos de costas para os policiais, sem a mínima condição de defender-se.

— Ainda teve um que gritou “perdi, perdi” — contou outra testemunha da carnificina — e um policial respondeu: “perdeu mesmo”. Depois eu só ouvi a rajada.

enLUTAdas

Dias depois, no local da chacina permanecia o sangue no chão, buracos de balas nas paredes. Os chinelos dos rapazes mortos amontoavam-se num canto, como se fossem cruzes à beira da estrada, recordando ao viajante que pisa uma terra de ninguém.

A vendeta sangrenta continuará, não devido a um código de honra feudal, mas porque assim exige o ciclo de ferro da economia política capitalista, que lucra numa ponta com a venda de drogas e lucra na outra ponta com o “combate” a elas.

Uma mulher simples, com bermuda jeans e chinelo de dedo, disse, enquanto segurava um filho pequeno com uma mão e um cartaz com a outra:

— Cansei de ir em velório. Descobri que é muito mais importante ir à luta.

Àquela altura os policiais já haviam desistido de impedir as mulheres de se manifestarem.

Notas:

1 - Propina paga por traficantes.

2 -  Isto é, participara.

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