A bravura camponesa na música sertaneja

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O campesinato brasileiro, principalmente o pobre, esmagado por séculos de opressão do latifúndio, da semifeudalidade e do capitalismo burocrático, desenvolveu enorme combatividade e valentia.

A luta pela terra e contra o latifúndio é e sempre foi marcada pelo heroísmo e destemor dos camponeses, enfrentando o terrorismo sempre empregado pelo velho Estado, latifundiários e seus bandos armados; valentia seja para tomar, retomar ou defender a sua terra, ou ainda contra a exploração semifeudal nas grandes fazendas.

Na cultura popular, particularmente na sertaneja, encontram-se expressões desse intrépido espírito camponês, apesar do bombardeio do lixo cultural do latifúndio concentrado contra esse gênero.

A defesa da sagrada terra

Ao camponês, principalmente o pobre, a terra é tudo que lhe pertence; seu ganha-pão, sua vida. Tomá-la é, dessa forma, tomar a única liberdade que conhece. E quem ameaça torná-lo um escravo, logo esbarra na poderosa torrente do seu ímpeto.

A canção Ladrão de terra, composta por Moacyr dos Santos e interpretada por duplas como Tião Carreiro e Pardinho ou Jacó e Jacozinho, relata a fúria camponesa contra o latifundiário que ousa roubar sua terra.

Meu pai tinha falecido, na carta vinha dizendo
As terras que ele deixou minha mãe acabou perdendo
Para um grande fazendeiro que abusava dos ‘pequeno’
Meu sangue ferveu na veia quando eu fiquei sabendo
Invadiu as ‘terra minha’
Tocaram minha mãezinha
Pra roubar nossos ‘terreno’

A canção ainda relata o conluio do velho Estado e do latifúndio. O camponês recorre ao cartório e constata a trama para tomar a sua terra:

Procurando meu direito eu entrei num tabelião
Quase que também caia nas ‘unha’ dos ‘gavião’
Porque o dono do cartório protegia os ‘embrulhão’

Frente a essa situação, toma sua decisão:

Respondi no pé da letra não tenho nenhum tostão
Meu dinheiro é dois ‘revólver’ e bala no cinturão
Se aqui não tiver justiça para minha proteção
Vou mandar os ‘trapaceiro’ ‘pra’ sete ‘palmo’ de chão
Embora saia uma guerra
Vou matar ladrão de terra
Dentro da minha razão
(...)
Foi uma chuva de bala, só capanga que corria
Foi pela primeira vez que o dinheiro não valia
(...)
Na cerca de minha terra ai ai
Quem mexer ninguém imagina ai ai
Os ‘arame’ são de bala ai ai
E os ‘murão’ de carabina ai ai

Exploração semifeudal

Os camponeses pobres, forçados à condição de sem terra por séculos de grilagem, chantagem e expulsão promovidos pelo latifúndio, são superexplorados e submetidos à condição de semiservidão, em relações de produção arcaicas, trabalhando em troca de comida ou de parte da produção que eles mesmos plantam (relações de meia ou terça, onde a metade ou um terço da produção é entregue ao latifundiário).

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Na canção de Lourival dos Santos, Filhos da Bahia, evidencia-se a semifeudalidade expressa na exploração do campesinato alijado do seu direito à terra.

No sertão do Amazonas, onde a justiça não ia
Lugar que um filho distante chorava e o pai não via
A lei daquele sertão
Era ordem do patrão, só bala que resolvia
(...)
Lá naquele fim de mundo o trabalhador sofria
Igualzinho um cão sem dono, a cor da nota não via
Quem falava em dinheiro só bala que recebia
Os capangas da fazenda deste jeito respondiam
‘Aqui a bala domina
A boca da carabina é a nossa tesouraria!’

A exploração e opressão semifeudal da massa camponesa sem terra, no entanto, gera a resistência e aumenta a necessidade das tomadas de terra. A canção narra um levante camponês:

Pegaram capanga a unha na raça e na valentia (...)
Virou uma praça de guerra, foi só bala que saia
Trabalhadores venceram, a escravidão caía
Receberam o seu dinheiro, patrão pagou o que devia (...)

Superexploração do campo pela cidade

Zé Bentão, alta expressão da bravura camponesa na música
Zé Bentão, alta expressão da bravura camponesa na música

No mundo capitalista, o salário corresponde ao mínimo necessário para o operário sobreviver e reproduzir sua força de trabalho. Hoje, cada vez mais, o salário pago é, inclusive, menor do que o necessário, colocando a massa proletária na miséria.

Mas a sanha da grande burguesia pelo superlucro não se detém. Quando não é mais possível baixar os salários dos operários, sob o risco de que estes morram de fome ou caiam na condição de indigentes, ela recorre à superexploração do campo como via de baixar o salário líquido dos operários, mantendo sua sobrevivência. Assim, o campo fica em condição de atraso com relação à cidade.

Na canção Terra Bruta, de Moacyr dos Santos e Jacozinho, registra-se essa contradição existente entre campo e cidade que, em países como o Brasil, são agravadas pela semifeudalidade. Narrando a história de seu pai, que trabalhou toda a vida em duras condições no campo, o camponês relata e desabafa:

Pra defender esta terra, o velho fez uma guerra
Sem precisar de trincheira
(...)
Dessa história do meu pai, me lembro e pego a chorar
Lutou por uma cidade e não pôde aproveitar
Ele morreu na miséria dentro de um rico lugar
É como diz o ditado,’pra’ vocês eu vou falar
Morre o homem e fica a fama, lutando ele fez a cama
‘Pra’ outros poder deitar

A canção O Sertão e a Capital, também de Moacyr dos Santos, simula uma discussão entre o campo e a cidade, que despreza o sertão.

No meu solo eu recebo pessoas de todo lado
Alguns ‘chega’ ruim de vida mas logo fica arrumado
Indústrias e construções ‘dá’ serviço acelerado
Nos cabarés se ‘diverte’ os homens ‘endinheirado’
‘Pra’ sustentar o meu povo fartura tem no mercado
(...)
O sertão respondeu com palavras ‘acertada’
Eu aqui planto de tudo, pra vocês não faltar nada
Se o governo ajudar lavoura desamparada
Todos seus almofadinhas que leva a vida agitada
Jogava a gravata fora pegava o cabo da enxada
Se meu povo não plantar, não lutar com muita fé
Eu paro seus movimentos, fecho todos ‘cabaré’
Também paro as construções, ‘fumaça’ dos ‘chaminé’
A verdade vem agora acredite se quiser
Eu sou a grande raiz, sustento o Brasil de pé

Urge a Revolução Democrática

A cultura popular expressa que as grandes massas camponesas, principalmente os camponeses pobres, clamam pela Revolução de Nova Democracia que entregará ou devolverá a terra grilada pela dominação latifundiária, a maior chaga do nosso país.

O campesinato nunca foi passivo nem pacífico à gatunagem do latifúndio e do velho Estado.

A cultura popular reflete ainda que estes camponeses são uma força poderosa que, com a aliança operário-camponesa, porão fim aos séculos de sofrimento impostos pelo latifúndio, pela grande burguesia e o imperialismo, através do velho Estado brasileiro. Imporão sua autoridade e seu Poder, construirão uma nova sociedade, livre da opressão e exploração.

isso serve sua intocável bravura.

Tal como na canção do grande dirigente camponês Zé Bentão, Levanta Povo:

Numa crise miserável o Brasil tá se afundando
A terra do povo pobre latifúndio tá tomando
Na política oferece telha e televisão...
Mas o povo não quer migalha, quer Poder na mão!

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