Um legado de músicas do povo

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Compositor, cantor, multi-instrumentista, preferencialmente baterista, o sambista Wilson das Neves, entrevistado na edição nº 68 do AND, faleceu no dia 26 de agosto, deixando um grande legado de músicas genuinamente populares. Deixou-nos muitas ideias e sonoridades gravadas em discos, vídeos e na memória de quem o conheceu. E deixou também uma lacuna no samba, às novas composições e parcerias.

Com mais de 50 anos de carreira como baterista, Wilson das Neves participou em mais de 600 gravações, dentro do melhor da música popular brasileira que foi produzida desde a década de 1960. Acompanhou muitos artistas, entre eles: Tom Jobim, Carlos Lyra, João Bosco, Miucha, Nelson Gonçalves, além de vários cantores estrangeiros. 

Suas participações e parcerias estão registradas em álbuns de artistas como Elis Regina, Cartola, Nelson Cavaquinho, Wilson Simonal, Clara Nunes, Elizeth Cardoso, João Nogueira e muitos outros. Típico carioca, sambista do Império Serrano, escola de samba onde era muito querido. Figura respeitada, Wilson das Neves não escondia de ninguém o que sentia pela escola e pelo samba.

Foi parceiro de Paulo César Pinheiro, Martinho da Vila, Moacyr Luz, Aldir Blanc, Ney Lopes, e com Chico Buarque manteve uma parceria constante, sendo seu baterista por 35 anos, período em que gravou vários discos. Entre suas músicas recentes está Samba para João, que fez para o seu bisneto.

Wilson gostava de falar de aspectos do cotidiano, afeições, lutas e esperanças do povo, por ele mesmo ser um representante do povo, e tinha um bordão que o identificava: “ô sorte”. “Pode ser lá pelo centro / Lá no sul ou lá norte / Se me chamar, tô dentro /Se me chamar, ô sorte”, trecho de sua música Se me chamar ô sorte.

Uma das música de Wilson das Neves bastante conhecida é O dia em que o morro descer e não for carnaval, em parceria com Paulo César Pinheiro, que foi bastante prestigiada durante as manifestações multitudinárias de junho de 2013, quando principalmente a juventude se levantou contra toda a velha ordem do apodrecido Estado brasileiro (letra no box).

Wilson das Neves morava na Ilha do Governador, tinha 81 anos de idade e lutava já bastante tempo contra um câncer.

O dia em que o morro descer e não for carnaval

O dia em que o morro descer e não for carnaval
ninguém vai ficar pra assistir o desfile final
na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu
vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil (é a guerra civil)

No dia em que o morro descer e não for carnaval
não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral
e cada uma ala da escola será uma quadrilha
a evolução já vai ser de guerrilha
e a alegoria um tremendo arsenal
o tema do enredo vai ser a cidade partida
no dia em que o couro comer na avenida
se o morro descer e não for carnaval

O povo virá de cortiço, alagado e favela
mostrando a miséria sobre a passarela
sem a fantasia que sai no jornal
vai ser uma única escola, uma só bateria
quem vai ser jurado? Ninguém gostaria
que desfile assim não vai ter nada igual

Não tem órgão oficial, nem governo, nem liga
nem autoridade que compre essa briga
ninguém sabe a força desse pessoal
melhor é o Poder devolver a esse povo a alegria
senão todo mundo vai sambar no dia
em que o morro descer e não for carnaval.

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