Villa-Lobos: música erudita popular brasileira

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Maestro e compositor, considerado principal nome da música erudita brasileira, o carioca Heitor Villa-Lobos completaria 130 anos em 2017. Considerado um compositor nacionalista, apreciava ritmos populares e muitas vezes usava-os como base para suas composições. Villa-Lobos, em seus 72 anos de vida, compôs peças que são executadas no Brasil e no mundo, inspirando tanto compositores populares quanto eruditos.

Imensa obra de Villa-Lobos foi composta baseada em variados ritmos populares brasileiros
Imensa obra de Villa-Lobos foi composta baseada em variados ritmos populares brasileiros

Com seis anos de idade, Villa-Lobos compôs sua primeira peça para violão, baseada em cantigas populares, e logo começou seu interesse pela música erudita barroca. Ao mesmo tempo conheceu os ritmos do Nordeste, por frequentar com seu pai um local onde reuniam-se cantadores nordestinos.

Assim que teve contato com os músicos de choro, conhecidos como chorões, Villa-Lobos passou a frequentar o Cavaquinho de Ouro, loja tradicional de música, incentivadora do choro. Na época, os chorões eram mal vistos pela sociedade carioca, que os associava com a boêmia, bebida, malandragem etc.

— Penso que Villa-Lobos foi um dos primeiros a perceber que, com o surgimento da música dos chorões, que a partir da década de 1870 floresceu dando destaque a nomes como Ernesto Nazareth e Anacleto de Medeiros, se estabelecia um território entre o popular e o erudito. Uma música com os olhos na Europa e os pés no chão do terreiro — expõe o compositor e cavaquinista Henrique Cazes, entrevistado em AND no 74.

— Ele viveu esse ambiente na juventude, frequentou as rodas de choro e ao mesmo tempo teve a formação de músico voltado para a tradição clássica europeia. Foi a partir dessa dupla formação que Villa-Lobos, com seu inegável gênio e um forte ímpeto de liberdade, fez sua música original, por vezes meio incompreensível até os dias de hoje, mas sempre com grande vitalidade e um toque pessoal que o identifica, que o difere - continua.

No começo da carreira, Villa-Lobos ganhava seu sustento tocando piano, violão, violoncelo e saxofone em teatros e cinemas, e alguns recitais, sendo às vezes criticado por suas inovações musicais, fugindo do padrão. Em 1905, Villa-Lobos viajou para o Nordeste tendo um contato intenso com a riqueza folclórica da região, que o inspirou a escrever a peça para pequena orquestra Os cantos sertanejos.

“Sim, sou brasileiro e bem brasileiro. Na minha música eu deixo cantar os rios e os mares deste grande Brasil. Eu não ponho mordaça na exuberância tropical de nossas florestas e dos nossos céus, que eu transponho instintivamente para tudo que escrevo.”, definiu Villa-Lobos.

Na década de 1920, Villa-Lobos fez a série Choros, cujo ponto de partida é uma peça para violão solo, e no seu desenvolver estão presentes elementos afro-indígenas, sambas, choros, serestas, marchas, cirandas, ponteios e elementos nacionalistas que aparecem nas suas obras. Sua preocupação com uma música genuinamente brasileira, que representa a cultura da nação, o fez escrever obras como: Uirapuru (1917), Choros nº 10 (1925) e Floresta do Amazonas (1958).

Um legado para a música popular

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Durante a Semana de Arte Moderna, famoso evento de 1922, Villa-Lobos ganhou uma projeção internacional como criador original, um artista que faz fusão de ritmos folclóricos e populares com a música erudita. A partir daí passou a viajar para o exterior, apresentando concertos de suas obras e regendo renomadas orquestras. Foi um dos maiores expoentes culturais brasileiros no exterior.

Na década de 1930, ao excursionar por mais de cinquenta cidades do interior de São Paulo, Villa-Lobos compôs O trenzinho caipira, na mesma época que também compôs as suítes Bachianas brasileiras. Villa-Lobos teve muita importância na cultura brasileira, compondo obras com nuances das culturas regionais, e elementos das canções populares e indígenas.

— Em uma palestra em Paris, em 1958, um ano antes de morrer, Villa-Lobos falou bastante sobre o choro. Aqui vai um trecho: “Vem um e toca o tema, e vem o outro e improvisa. No saxofone, eu fazia assim, ó [e cantarolava]. E vem o oficleide e toca um contraponto que é uma maravilha, bem superior a todos os contrapontos clássicos. Isto é o choro. É todo mundo tocando com seu coração, sua liberdade, em regras, sem nada, a liberdade da arte”. (Villa-Lobos, 1958, palestra no Club de Trois Centres, Paris) — apresenta Henrique Cazes.

Heitor Villa-Lobos— Assim ele entendeu o choro. É uma visão muito romântica, muito onírica dessa música, mas a partir dela ele inventou muita coisa. E mesmo satirizou um certo caos sonoro que às vezes ocorre na roda de choro. Tudo isso ele transfigurou em inúmeros momentos de sua obra — fala.

Algumas pessoas fazem uma grande separação entre música erudita e música popular brasileira, como se a música erudita não pudesse expressar o cotidiano do povo, o sentimento do povo. Porém, ela pode expressar tudo isso quando o seu autor assim tem interesse. Villa-Lobos comprovou essa afirmação, tanto que é conhecido como compositor responsável pela descoberta de uma linguagem peculiarmente brasileira.

— Ele foi influenciado diretamente pela música popular e, muitas décadas depois, estaria influenciando nomes como Tom Jobim, Egberto Gismonti e Guinga — afirma Cazes.

— Villa, além de escrever uma obra que o coloca entre os grandes do século XX no mundo da música de concerto, exerceu sua influência no campo da política cultural de formas diversas. Se por um lado dirigiu as concentrações de milhares de jovens no campo do Vasco cantando músicas ufanistas na ditadura Vargas, por outro implantou o canto orfeônico nas escolas do então Distrito Federal - expõe Henrique.

Henrique Cazes se refere ao período em que o Estado Novo se utilizou do sincero espírito patriótico de Villa-Lobos, já reconhecido e respeitado músico popular, para fomentar o ambiente ufanista em favor do regime fascista de Vargas, fato que Villa-Lobos não pôde evitar pela concepção limitada de sua classe.

— E isso deixou de legado ao público da música de concerto até o final do século XX. Foi uma figura polêmica, mas um artista sempre genial — fala Cazes.

O compositor e instrumentista Henrique Cazes está trabalhando no momento na implantação do bacharelado em cavaquinho na Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em paralelo, faz doutorado na mesma escola, pesquisando o samba e o cavaquinho.

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