Bandejão da Uerj ocupado

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Estudantes dão mostras de organização e combatividade

Rodrigo Duarte Baptista
Reativação do bandejão pelos estudantes serve centenas de refeições semanalmente
Reativação do bandejão pelos estudantes serve centenas de refeições semanalmente

No dia 26 de setembro os estudantes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) realizaram a ocupação do Restaurante Universitário da instituição, localizado no campus Maracanã, cidade do Rio de Janeiro. O restaurante que estava há mais de um ano fechado pelo gerenciamento Cabral/Pezão/PMDB foi reaberto pelos alunos, que transformaram um prédio no qual se acumulava sujeira em um espaço a serviço da organização, mobilização e politização, com atividades culturais e aulas para estudantes, funcionários e para a comunidade do entorno.

Perpassada por muitas greves e mobilizações a Uerj atravessa uma profunda crise, com o sucateamento e a falta de repasses do gerenciamento estadual. Foi em meados de 2015, após a farra da Copa da Fifa e em meio aos preparativos para mais um saqueio do povo com o Massacre Olímpico, que a sua situação de precarização se aprofundou mais, com atrasos nos pagamentos de bolsas de assistência estudantil e de iniciação científica, o não pagamento dos salários de funcionários terceirizados, técnicos-administrativos e professores.

Os professores, que em assembleia no dia 04/10 deflagraram greve, estão há dois meses sem receber seus salários. Os técnicos-administrativos em greve há mais de um mês também estão com os pagamentos atrasados e, somando-se à ocupação do bandejão, ocuparam a reitoria na manhã de 10/10.

Seguindo a onda em defesa da Uerj, também no dia 10, pais, alunos, professores do Colégio de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (Cap/Uerj) mobilizaram-se no bairro do Rio Comprido, zona norte da cidade, bloqueando ruas. A pauta é em defesa da Uerj e contra o sucateamento do Colégio, que é vinculado à universidade.

Fotos: Ellan Lustosa/AND e Karol Moraes

Combatendo o sucateamento

A limpeza da instituição encontra-se ainda comprometida devido ao não pagamento dos terceirizados, sendo que alguns destes encontram-se de aviso prévio. Os elevadores estão em sua grande maioria em manutenção, entre outros problemas. As bibliotecas não estão funcionando e a alimentação da comunidade acadêmica, que ainda procura manter seu trabalho em meio a situação de completo abandono, não vinha sendo garantida até a ocupação do bandejão.

O reitor da universidade,Ruy Garcia, que até então mantinha a postura de não reabrir o bandejão dizendo impossível fazê-lo perante as condições que se colocavam, comprometeu-se com os alunos a viabilizar a abertura do restaurante.

A ocupação que recebeu o nome de “Ocupação Bruno Alves”, em homenagem ao estudante de história e participante ativo da ocupação falecido poucos dias após a tomada do prédio, tem sido um exemplo de combatividade e organização estudantil na luta por impedir o assassinato da educação pública. Após dois dias no prédio os alunos conseguiram, através da mobilização e doações populares, colocar o bandejão para funcionar, garantido almoço e janta para centenas de estudantes, promovendo atividades político-culturais, como debates, filmes e apresentações musicais, além das assembleias regulares a fim de discutir os novos rumos da luta.

Os estudantes que ocupam o bandejão afirmam perceber que a ausência de alimentação para se manter na universidade é uma das pautas mais urgentes entre os alunos. Em entrevista ao jornal A Nova Democracia uma estudante de pedagogia que ocupa o bandejão e que não quis se identificar, afirmou:

— A ocupação tem sido bastante vitoriosa, o Restaurante Universitário estava fechado há mais de um ano e muito pouco se falava sobre a reabertura do mesmo. Devido ao imobilismo do DCE [Diretório Central dos Estudantes], dirigido pelo PT/PCdoB, o movimento estudantil estava em uma paralisia total, e quando havia greves e ocupações estas traziam poucos resultados concretos e políticos. Com a ocupação realizada de maneira independente, os estudantes passaram a ter uma participação política maior, entendendo a necessidade de radicalização da luta. Só com a luta radical podemos retomar nossos direitos, que historicamente só vem sendo arrancados por esse velho Estado. Em uma semana de ocupação conseguimos servir almoço e janta aos estudantes, beneficiando centenas com essa mobilização.

A ocupação do bandejão vem recebendo amplo apoio de estudantes, professores e funcionários da Uerj do campus Maracanã e também de outros polos.

— Essa ocupação é necessária por conta da situação em que se encontra a nossa universidade, se não fizermos alguma coisa ninguém poderá fazer por nós, já que o governo não tem demonstrado o menor interesse em repassar o custeio da universidade. A Uerj é nossa e é nosso dever lutarmos por ela — afirma Gabriela, estudante de física.

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— Nós professores apoiamos a ocupação do bandejão, o restaurante universitário é uma pauta antiga dos estudantes do campus do Maracanã e também dos estudantes da unidade FFP [Faculdade de Formação de Professores, unidade da Uerj em São Gonçalo] e da FEBF [Faculdade de Educação da Baixada Fluminense em Duque de Caxias], que ainda não possuem restaurante universitário. Essa ocupação representa um passo dos estudantes, no sentido de possuirmos todos os nossos outros direitos garantidos, além da alimentação. A ocupação do bandejão contribui para a mobilização dos outros campus da Uerj e ganha também grande visibilidade externa, para alertar a população a respeito da situação em que se encontra a universidade – firma Frederico Elias, professor de geografia da FEBF, em Caxias.

Estudantes rompem com o DCE

Em nota divulgada na página da internet da ocupação, os estudantes afirmam suas razões para romperem com o DCE no que tange a mobilização política em defesa da universidade. Eles afirmam que essa entidade que deveria representar os estudantes, tem sido um mecanismo de atraso para que a luta em defesa da Uerj avance. Em nota os estudantes afirmam que:

“Basta lembrar da última greve em que o DCE tentou implodir o comando de mobilização, colocando [no comando] dezenas de estudantes de um só curso, não jogando peso nas atividades de mobilização como panfletagens e atos. Essas organizações (PT/ PCdoB) que dirigem a entidade há anos permitiram que a universidade chegasse a esse nível de sucateamento, sem nenhuma mobilização séria”.

Além disso, os estudantes alertam que o sucateamento e precarização da Uerj é um projeto político de destruição do ensino público que está em curso no país para a sua privatização. Apontam que o plano do governo é sucatear o máximo para então afirmar que é necessário entregar a universidade nas mãos de uma “Organização Social” (OS), já que o estado tem sido “incapaz” de administrá-la. As OSs já têm tomado conta das unidades de saúde, como a Clínica da Família, no Rio de Janeiro. Esta também já vem sofrendo com a falta de repasses, atrasos de pagamentos e a precariedade continuada dos serviços prestados.

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