Chegou o filho do General da Banda ..... chegou

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Blecaut Jr, ou Ubirajara Henrique de Campos é o único dos seis filhos de Blecaute a seguir os passos do pai, de uma maneira bem independente, é claro. "Para mim o Blecaute foi um só e não quero imitá-lo. Não adianta alguém ir ao meu show para me ver trajado de general da banda, cantando músicas de carnaval. Esse é meu pai, sou o Jr", expõe com firmeza mostrando a foto do famoso carnavalesco.

O seu estilo é música romântica, mas, devido aos 19 anos de experiência tocando nas noites do Rio, apresenta um repertório bastante eclético. "Quando trabalhamos nas noites, nos bares da cidade, somos levados a cantar de tudo um pouco. O público é quem escolhe o repertório. Uns pedem MPB, outros pagode e sertanejo", argumenta.

Curiosamente, Blecaut Jr era chamado pelo pai, na infância, de atleta e começou sua vida profissional jogando futebol. "O último time em que atuei foi o Taguatinga, de Brasília, em 1982. Tive que parar para voltar aos estudos. Mais tarde, trabalhei como modelo, chegando a viajar para a Alemanha e França", relata.

A idéia de se tornar cantor veio através do incentivo de um amigo. "Eu costumava levar meu violão para festinhas ou reuniões em casa de amigos e cantar. Foi assim que alguém me fez pensar em me profissionalizar. Gostei da idéia e já são 19 anos de carreira", conta lembrando ainda que apesar do tempo de trabalho, somente agora se sente seguro para gravar o seu primeiro CD.

A idéia de usar o nome de seu pai veio também por parte de um amigo. "A principio não queria, por achar que estaria imitando-o, mas, depois comecei a enxergar como uma homenagem, apesar do nome não ser o mesmo, pois o dele é Blecaute e o meu Blecaut", brinca.

Segundo Blecaut Jr, usar o nome do pai famoso tem dois sentidos: positivo, quando as pessoas imediatamente lembram do Blecaute, e negativo porque muitos pensam que o Jr. não precisa de ajuda para gravar seu CD. "O mercado fonográfico está muito restrito, fizeram uma cúpula e não dá para atravessar", se entristece.

O cantor, que também é compositor, tem encontrado dificuldades para realizar o seu sonho de um CD, já pronto à espera de patrocínio. "Hoje as gravadoras só querem os artistas de nome, que tenham vendagem certa. Ou então, investem em alguém descartável, para ficar somente dois ou três meses e depois ser substituído. Não desejam trabalhar novos talentos", se queixa.

O poder das gravadoras

Blecaut diz que as gravadoras têm o poder nas mãos e fazem o que querem com os artistas. As músicas são produzidas somente com o intuito comercial. "Não existe um critério de qualidade nas músicas. Acabaram com músicas do tipo: Maria Candelária, que traziam críticas do povo, e estão copiando os ritmos estrangeiros, sem respeitar a nossa própria identidade. Acredito que o povo tem sensibilidade para saber o que é bom. É por isso mesmo que vemos muita gente regravando Cartola e Pixinguinha, por exemplo, e conseguindo bons resultados de vendas", assegura.

O que acontece com o artista nacional, hoje, é que as gravadoras pagam para as rádios tocarem seus lançamentos, por isso não se interessam em gravar CDs dos que não entram num padrão definido por elas e, quando o artista lança um CD independente, não tem espaço para tocar as suas músicas, pois as rádios estão com os horários comprados. Além do lançamento do seu disco, Blecaut Jr, tem outro projeto: Fazer algo para lembrar a memória de seu pai. Para isso, espera lançar no próximo ano, um livro biografia sobre Blecaute, um filme e um grande show de nome Vinte Anos Sem Blecaute, com participação de amigos, como Marlene, Cauby, Emilinha e outros, Isso tudo deve acontecer em 19 de novembro de 2003, em comemoração ao aniversário de Blecaute. Em 2003 completa 20 anos de falecimento do artista que morreu dois dias antes do carnaval, no dia 9 de fevereiro de 1983.

O livro, que deverá receber o título de: O Nosso Eterno General da Banda contará a história da vida do artista, da infância pobre em Pinhal até à fama. Além de muitos depoimentos de amigos e as dez músicas de maior sucesso. "Meu amigo Luiz Fernando Vieira, que é musicólogo e trabalha no museu do carnaval, se prontificou a escrever. Para não ficar uma visão de filho, procurei ouvir muitos amigos do meu pai e pessoas que conviviam com ele na cidade. Pretendo também lançar, junto com o livro, um CD com as melhores músicas. Quem comprar o livro, ganha o CD", diz.

Um outro projeto de Blecaut Jr é conseguir um local para colocar o acervo de seu pai e liberá-lo para visitação pública.

Blecaute: O Eterno General da Banda

Otávio Henrique de Oliveira, ou Blecaute, assim como ficou conhecido o menino que nasceu no interior de São Paulo e veio para o Rio realizar o seu sonho de ser artista.

Blecaute nasceu no dia 19 de novembro de 1919, na cidade paulista de Pinhal, local onde passou a infância e adolescência como a maioria dos meninos de família pobre. Na adolescência foi engraxate, depois trabalhou em mecânica.

No final da década de 30, Blecaute chegou no Rio e começou a ver de perto a chance de se tornar um artista famoso. Primeiramente foi trabalhar na Rádio Nacional, ainda não como artista, em serviços internos. Lá mesmo, posteriormente, começou a sua carreira, cantando em programas de calouros.

Dentro das repartições da Rádio Nacional ganhou o apelido de Blecaute. "Um dia ele entrou na repartição e exatamente neste momento faltou luz. Então os amigos começaram a brincar e dizer que deu blecaute por sua causa. E daí por diante seu nome virou Blecaute", conta Jr.
Blecaute também era conhecido como o General da Banda. "Ele gravou a música General da Banda, um samba assinado por Sátiro de Melo, José Alcides e Tancredo Silva. A música fez um enorme sucesso e igualmente a maneira como aparecia em público para interpretá-la, vestido de general, com uma bela farda", lembra o filho.

O que pouca gente sabe, entretanto, é que essa música foi inspirada em uma outra, da Umbanda, religião afro-brasileira. Lá é general da umbanda. A letra passou de general da umbanda para general da banda .... Chegou o general da banda ê, ê.... E a música foi um
dos maiores sucessos do artista, que costumava aparecer à frente da Banda dos Pequenos Jornaleiros, fundada por ele, no carnaval da cidade.

O que também pouca gente sabe é que o próprio Blecaute foi um menino jornaleiro da Casa do Pequeno Jornaleiro, criado por Darcy Vargas. Mais tarde cresceu e virou artista famoso, porém manteve sua ligação com os meninos, sem esquecer ou esconder o seu passado. Muito pelo contrário, na primeira oportunidade que teve, quando foi lançado o seu grande sucesso General da Banda, começou a sair na frente da Banda dos Pequenos Jornaleiros, devidamente fardado de general.

A Casa do Pequeno Jornaleiro era uma instituição criada na intenção de ajudar o menino vendedor de jornais. Lá, além de vender jornal, os meninos recebiam aulas, inclusive de música, o que acabou levando à criação da Bandinha do Pequeno Jornaleiro.
O artista abria o desfile, um momento bastante simpático que o Brasil daquela época, décadas de 40 e 50, apreciava muito.

Brasileiro e Internacional

Além de participar dos shows da Rádio Nacional e desfilar como o General da Banda, Blecaute fez quase todos os filmes da Atlântida, e trabalhou ao lado de artistas famosos da época, como: Grande Otelo, Oscarito, Carmem Miranda, Emilinha, Marlene, uma de suas melhores amigas. Nos Estados Unidos esteve presente em um show do Frank Sinatra, fazendo uma participação especial na abertura. Durante a copa do mundo de 1970, Blecaute foi para o México e gravou um vinil de nome: Dom Henrique Dolores Boleros, uma raridade que poucas pessoas possuem.
"O Blecaute foi um dos artistas que enfrentou um forte racismo e conseguiu fazer sucesso, tanto no Brasil quanto no exterior. Realizou trabalhos nos Estados Unidos, Argentina, México, e outros paises, conseguindo furar as barreiras do racismo, ainda mais acentuado, das décadas de 40, 50, e se hospedar no Copacabana Palace, um local onde o negro dificilmente poderia entrar, a não ser para fazer faxina", conta o filho cantor.

As portas começaram a se fechar para Blecaute a partir do início das mudanças no mercado fonográfico, com a entrada dos disk jóquei e depois que os monopólios das gravadoras padronizaram a canção e não deixaram espaços para a música e músicos de carnaval, como de resto para a cultura nacional.

Foi nesta transição que começaram a entrar as músicas norte americanas. "Eles mudaram o gênero musical da moda e ninguém mais quis investir nele. Com isso foi perdendo espaço", relembra Blecaute Jr.

O artista tinha características próprias e não mudou o seu estilo. Fazia especificamente músicas de carnaval e foi, com o tempo, colocado de lado, juntamente com os bailes simples e a fantasia, marchinhas e os concursos. Ele participava de todos os concursos e shows do carnaval e recebia a chave da cidade.

"Naquela época o carnaval era bem popular e não uma indústria. Era uma coisa que fazia parte do cotidiano das pessoas, como aquelas músicas críticas, como: Pedreiro Valdemar e Maria Candelária. O que pouca gente sabe é que Natal das Crianças, gravado recentemente pela cantora Simone e pelo grupo de pagode, Negritude Jr, é uma composição do Blecaute", revela Jr.
As Gravadoras do Cara-Pálido

Depois de algum tempo esquecido, ele reapareceu, já na década de 70, quando a TV. Globo promoveu uma convocação geral para um festival. "Nesta ocasião ele já estava para escanteio, não só o Blecaute, mas, a própria música brasileira", desabafa um amigo do artista. Na verdade, já naquela época as músicas de natal, São João e carnaval, já haviam sido sufocados pelas gravadoras estrangeiras que monopolizam o mercado de disco no Brasil, que precisavam de músicas que servissem para o ano todo. Por conta disso, as rádios do Brasil substituíam as músicas brasileiras por canções estrangeiras.

Na década de 50, por exemplo, dois meses antes do carnaval, as rádios do Brasil paravam de transmitir fox, canções francesas e outras e destinavam todo o horário para as músicas de carnaval.

Quando entraram as gravadoras multinacionais, e os negócios de música se tornaram muito lucrativos, envolvendo milhões de dólares, a música brasileira ficou para trás. Isso porque as gravadoras não mais permitiam que em um país, se parasse de tocar as suas músicas, em favor de uma que não as interessava, as músicas nacionais, expressões de cultura nacional. Na verdade, tudo começou a ficar difícil para o artista quando entraram os disk jóquei, exigindo que o artista pagasse para ter sua música executada, e ficou pior ainda quando, por sua vez, o disk jóquei foi engolido pelas gravadoras multinacionais, "Se eles escolhiam entre três artistas nacionais, qual pagava mais, para poder tocar sua música, as multinacionais do disco desempregaram esses três e nos bombardearam com os seus enlatados", conclui Blecaut Jr.

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Letras de músicas

General da Banda
(esta é uma música com duplo sentido. Fala do político que está no poder, mas se for cutucado pode cair e perder o poder).

Chegou General da Banca ê, ê,...
Chegou General da Banda êa, êa.
Morão, Morão, vara madura que não cai....
Morão, Morão catuca por baixo que ele vai.

Maria Candelária
(Uma crítica ao funcionalismo público fantasma)
Maria Candelária é alta funcionária, caiu de paraqueda, caiu na letra ó, oooo....
Trabalha de fazer dó
À uma vai ao dentista
Às duas vai ao café
Às três vai à modista
Às quatro, assina o ponto e dá no pé....

Chora Doutor
(Fala do milionário que tem dinheiro, mas não tem felicidade. Vive constantemente escravo da sua própria condição de milionário).

Chora doutor ... Chora....
Que eu sei que o medo de ficar pobre lhe apavora.
O senhor tem palacete para morar ...
Eu barracão e um amor......
Ai, ai, ai doutor... Ai doutor ....
Eu só não quero ter a vida do senhor.

Pedreiro Valdemar
(uma crítica social. O trabalhador que não tem lugar na sociedade).

Vocês conhecem o pedreiro Valdemar?
Não conhecem, mas eu vou lhes apresentar.
De madrugada toma o trem da circular ...
Faz tanta casa e não tem onde morar

Maria escandalosa
(é uma crítica sobre a aparência que conta ponto. Bonita, não importa o seu caráter).

Maria escandalosa, desde criança sempre deu alteração.
Na escola não dava bola
Só aprendia o que não era da lição.
Depois que a Maria cresceu
Juízo que é bom encolheu.
A Maria escandalosa é mentirosa, é muito prosa
Mas é gostosa.

De Jr. em homenagem ao pai

Recordar

Hoje venho recordar, com grande emoção,
da alegria contagiante, do carnaval do rádio, cinema e televisão......
É a do general da banda, que comandava com empolgação,
cantando alegremente ao som deste refrão:
General da banda ê, ê.
Chegou general da banda êa.

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