120 anos do fim da Guerra de Canudos

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A luta armada camponesa que estremeceu o sertão

Em outubro de 2017 completaram-se 120 anos do fim da Guerra de Canudos, uma luta armada que estremeceu o sertão da Bahia entre novembro de 1896 e outubro de 1897, demonstrando a bravura indômita do campesinato brasileiro.

Flávio de Barros/Acervo Museu da República
Conselheirista, ao lado de membros do Exército, não se curvou frente à morte, em 1897 (Foto: Flávio de Barros/Acervo Museu da República)
Conselheirista, ao lado de membros do Exército, não se curvou frente à morte, em 1897

É importante resgatar a relevância desse episódio histórico, um levantamento de massas armadas contra o velho Estado, que poucos anos antes assumia a forma de “República”. A mistificação histórica em torno de Canudos enfatiza o fanatismo religioso, ignorando as suas causas profundas.

As causas de Canudos

A Guerra de Canudos tem como essência um fundo material, terreno, que foram as condições de vida dos sertanejos, submetidos à mais ignominiosa exploração e opressão por parte de latifundiários e políticos locais, mergulhados no mais completo atraso, sob diferentes aspectos: educação, saúde, cultura, moradia, saneamento básico, alimentação etc. Canudos foi o produto da insubmissão dos pobres do campo, que se revoltaram contra as suas precárias condições de vida e a quase inexistência de direitos básicos. É sobre essa base material que o misticismose desenvolverá.

O misticismo cristão serviu de manto para a indignação do povo, sendo a aparência assumida por esse movimento de massas. Os camponeses de Canudos, segundo Rui Facó (estudioso do tema), foram a “expressão da rebeldia sertaneja à prepotência dos latifundiários, reflexo de uma luta de classes em sua fase superior – a luta armada”.

A ordem contra a qual se insurgem os camponeses é a ordem dominada por uma oligarquia latifundiária, cuja base do poder econômico e político assenta-se no monopólio da terra, o que possibilita a exploração e opressão dos camponeses. Nesse sentido, os camponeses cometeram um dos piores “crimes” possíveis dentro de um país de capitalismo burocrático, de base semicolonial e semifeudal, ousaram se levantar, com armas na mão, contra a monstruosa e secular opressão latifundiária, questionando o monopólio da terra.

O crescimento do arraial de Belo Monte atemorizou as classes dominantes, alarmando tanto “republicanos” como restauradores monarquistas. Os reacionários utilizaram a tática de lançar povo contra povo, difundindo uma imagem negativa e distorcida sobre Canudos. As classes dominantes e os seus porta-vozes da imprensa da época, tentando justificar a repressão a Canudos, apresentaram os canudenses como “fanáticos” e “reacionários monarquistas”, concepção que permeou o pensamento historiográfico durante muito tempo, sendo ainda comum tais concepções nos dias atuais.

Expedições e resistência

O pretexto para a deflagração de uma expedição militar do velho Estado contra Canudos foi o pânico gerado pela divulgação de um boato de que os canudenses iriam invadir a cidade de Juazeiro (BA) para buscar madeiras que foram compradas para a construção de uma igreja, mas não foram entregues.

O velho Estado lançou quatro expedições de aniquilamento contra Canudos entre novembro de 1896 e outubro de 1897. As forças armadas subestimaram os camponeses e a sua organização, sofrendo derrotas fragorosas.

No período entre a 1ª e a 2ª expedições (dezembro de 1896 e janeiro de 1897), a população de Canudos cresceu consideravelmente ao receber milhares de camponeses pobres sem terra ou com pouca terra, bem como pequenos proprietários que, esmagados pelo peso do latifúndio, vendiam os seus parcos patrimônios e refugiavam-se em Canudos.

Com o uso de táticas guerrilheiras, os canudenses derrotaram os seus inimigos. Os camponeses fustigavam, encurralavam e aniquilavam os soldados. Armas e munições abandonadas foram tomadas para compor o armamento da resistência. Todos os acessos que davam a Canudos estavam devidamente vigiados e nas cidades e vilas existiam informantes, tudo para evitar ataques surpresas. Os canudenses conseguiram inclusive infiltrar homens disfarçados de comerciantes nos acampamentos das tropas do velho Estado.

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Na 3ª expedição (fevereiro e março de 1897), os combatentes feriram o comandante da expedição, o coronel Moreira César - que viria a morrer no dia 6 de março em decorrência dos ferimentos, aniquilaram o seu substituto imediato no comando da tropa, o coronel Tamarindo, e ainda o comandante da tropa de artilharia, o capitão Salomão da Rocha. Nesta expedição, os canudenses, em resposta às atrocidades praticadas contra eles pelas tropas do velho Estado, decapitaram e queimaram os corpos dos oficiais e soldados, além de alinharem as cabeças nas margens das estradas.      

Entre março e outubro de 1897 ocorre a 4ª e última expedição contra Canudos, contando com homens do Exército de diferentes estados, além de policiais militares do Amazonas, Bahia, Pará e São Paulo.

Muitos moradores de Canudos preferiram resistir a ser aprisionados. Eles demonstraram uma bravura e firmeza inabaláveis frente ao inimigo. Homens e mulheres, crianças e idosos, todos que podiam empunhar uma arma integraram o combate. Os casebres restantes se tornaram trincheiras e túneis foram escavados para se abrigar dos constantes bombardeios. Na ofensiva final, os soldados praticaram crimes bárbaros, como a degola dos moradores - a chamada “gravata vermelha”, incluindo crianças e idosos, a queima dos corpos em grandes fogueiras, além de incendiar grande parte de Canudos.

A heroica luta armada dos camponeses de Canudos foi derrotada militarmente no dia 5 de outubro de 1897, após quase um ano de confronto, com mais de cinco mil baixas nas forças do velho Estado e cerca de dez mil canudenses. No local onde se desenrolou a Guerra de Canudos se construiu, entre 1951 e 1968, o Açude de Cocorobó pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), como se buscasse afogar as memórias da heroica resistência armada das massas.

A atualidade de Canudos

O significado de Canudos para a história do Brasil está em escancarar o problema da concentração da terra, controlada por latifundiários, problema esse que permanece atual. Toda a ofensiva militar do velho Estado visava manter os latifúndios sob o controle das oligarquias e evitar que as chamas da rebeldia das massas se espalhassem para outros lugares.

A cada derrota das tropas do velho Estado, os latifundiários, não apenas os das vizinhanças de Canudos, mas também de outras regiões, tremiam de medo de perder os seus domínios. A conformação e a resistência armada empreendida pelos combatentes de Canudos foi um alerta para as classes dominantes do que a organização camponesa pode fazer. Os latifundiários da região forneciam abrigo, alimentação, animais e homens às tropas do velho Estado. Os latifundiários necessitavam do esmagamento de Canudos para que as suas sementes de revolta não germinassem em outros solos do país. O “mau exemplo” não poderia se alastrar e ser conhecido pelos explorados do campo.

A Guerra de Canudos com a resistência indomável das massas camponesas, ressalta Rui Facó, demonstrou “a enorme importância do movimento camponês no Brasil. A epopeia de Canudos ficará em nossa história como um patrimônio das massas do campo e uma glória do movimento revolucionário pela sua libertação”.


Referência

FACÓ, R. Cangaceiros e Fanáticos: gênese e lutas. Editora Civilização Brasileira, 1965. 226p.

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