Sertões secos e a realidade do sertanejo

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O problema do Sertão é, no fundo, uma questão social e agrária

Estúdio Didalí
Transposição irrigada pelo superfaturamento e desperdício de dinheiro público leva água para o latifúndio
Transposição irrigada pelo superfaturamento e desperdício de dinheiro público leva água para o latifúndio

O nordeste seco possui uma área total da ordem de 700 mil km², onde vivem aproximadamente 23 milhões de brasileiros - entre os quais quatro milhões de camponeses sem terra – marcados por uma relação telúrica com a rusticidade física, climática e ecológica dos sertões, sob uma estrutura agrária particularmente perversa. É uma das regiões semiáridas mais povoadas entre todas as terras secas existentes nos trópicos ou entre os trópicos, segundo o geógrafo Aziz Ab’Saber no texto Sertões e sertanejo: uma geografia humana sofrida, de 1999.

A maior parte do semiárido, aproximadamente 80%, possui embasamento cristalino, tendo uma baixa capacidade de armazenamento de água. É formada geralmente pelas rochas granito ou gnaisse, rocha maciça que não possui poros onde a água possa se acumular. A camada acima da rocha, normalmente, é bastante rasa, muitas vezes menos de um metro. Porém, a rocha é atravessada por fendas e rachaduras, de quilômetros de comprimento e em algumas delas existe água. A água se encontra numa profundidade de até 60 metros. Mas, muitas vezes, não vale a pena perfurar, pois a água encontrada é pouca e, na maioria dos casos, imprópria para o consumo humano por causa do alto teor de sais.

Além do clima

O fator climático-meteorológico não é o único responsável pela pobreza e seca no Nordeste, pois existem outros fatores que vão condicionar o problema, como o caso da restrição hídrica, no qual a água é destinada para alguns setores como o agronegócio e mineração, além dos sistemas de abastecimento de água natural (rios, lagos e lençóis) e os artificiais (reservatórios, poços e canais) não possuírem volume suficiente para salvar a safra nem para o abastecimento do consumo humano.

A região das caatingas secas, como já mencionamos anteriormente, tem uma baixa disponibilidade hídrica, os rios são intermitentes e temporários, o rio São Francisco é a grande exceção por sua bacia possuir quatro setores principais hidroclimáticos sub-regionais1 .  Suas águas são de grande interesse de uma diversidade de órgãos e populações ribeirinhas. O gerenciamento das águas do rio São Francisco tem beneficiado os interesses privados, os latifundiários com nova roupagem,  o agronegócio, não envolvendo toda a população, restringindo a água e não garantindo os direitos básicos necessários para a sobrevivência. Assim se mantém os “coronéis no poder” com o problema da terra e da água sem uma solução para as camadas mais pobres dos sertões. Sobre isso, nos alerta a Agência Nacional de Água (ANA), no livro A questão da água no Nordeste, de 2012: “Assegurar que a água esteja disponível para as diferentes formas de consumo implica viabilizar investimentos de distintas naturezas e, sobretudo, gerenciar cuidadosamente sua oferta e o uso. Isso se torna mais complexo diante da realidade climática da Região e dos vários interesses que envolvem desde as instâncias de governo até as diversas categorias de usuários”.

A transposição do oportunismo

A solução que os gerenciamentos de Lula e Dilma do Partido dos Trabalhadores (PT) encontrou para solucionar o problema da seca para os 12 milhões de sertanejos que têm sede foi projetar, planejar e executar a Integração das Águas do Rio São Francisco ou, como é mais conhecida, a Transposição.  

O flagelo dos sertanejos parece mesmo não ter fim. Quando sonhavam em, finalmente, ter água nas torneiras para mudar a dura realidade da seca que, de tempos em tempos, atinge a região, a grande burguesia e o latifúndio mostraram que por aqui a esperteza é de quem ainda manda, da política à economia, do prefeito ao padre, o coronelismo reina com novas roupagens. O grandioso projeto de transposição do rio São Francisco, tão polêmico quanto visionário, esbarrou na corrupção. João Suassuna, engenheiro agrônomo e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) mencionou em entrevista à Folha de Pernambuco na edição de 12/12/2015, que a água do rio São Francisco vai servir para atender as empresas de grande capital e beneficiará o agronegócio em vez da agricultura familiar: “a população que hoje é atendida por caminhões-pipa vai continuar sendo atendida por caminhões-pipa. Não vai chegar uma gota da transposição [...] Parte das empreiteiras desistiu de continuar com a obra porque não sabia onde estava se metendo. Elas pegaram uma região semiárida, com geologia difícil de trabalhar”.

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