RJ: Três chacinas deixam ao menos 17 mortos

A- A A+

Sete das mortes contaram com atuação do Exército, dizem moradores

Ao menos três chacinas banharam em sangue as favelas da capital fluminense e região metropolitana neste mês de novembro, envolvendo polícias militar, civil e o Exército. Em apuração da reportagem de AND, ao menos 17 moradores foram assassinados ao bel-prazer da repressão.

Marcelo, morto em ação criminosa do velho Estado
Marcelo, morto em ação criminosa do velho Estado

No caso que teve maior repercussão, policiais civis fizeram uma operação conjunta com militares do Exército no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, que terminou com sete pessoas assassinadas.

Às 4h da madrugada, 32 homens encapuzados - sendo 17 fuzileiros e 15 policiais da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da polícia civil - invadiram um baile funk, iniciando uma correria pelas favelas do Complexo do Salgueiro. Ao fim da ação, sete corpos estavam espalhados em um trecho da Estrada das Palmeiras.

À delegacia de homicídios, militares e policiais negaram ter disparado um tiro sequer. No entanto, durante os velórios dos jovens mortos, no Cemitério Parque da Colina e no Cemitério Parque da Paz, no Pacheco, ambos em São Gonçalo, era grande o clima de revolta entre parentes e amigos. Procurado pela reportagem de AND, o primo do jovem Vitor Hugo Castro Carvalho, de 28 anos — um dos mortos na ação — disse que não houve troca de tiros e que, da mata, militares e policiais atiraram a esmo contra a massa que estava no baile funk.

— As pessoas corriam sem saber de onde os tiros estavam vindo. Nessa hora ninguém sabia se era invasão ou operação da polícia. Quando tudo começou, o som do baile estava muito alto, então a gente só percebeu que estavam atirando quando um rapaz caiu baleado na entrada da quadra. Só depois que todo mundo viu o pessoal do exército saindo da mata e o caveirão [blindado] na Palmeira. Aí que a gente entendeu quem estava atirando. Meu primo estava curtindo o baile com um amigo depois de terem trabalhado a madrugada inteira dirigindo. Os dois eram motoristas da Uber. Ele era um cara humilde, trabalhador, não merecia isso. Agora esses assassinos nem admitem o que fizeram. Agora ninguém matou. Filho feio não tem pai - protestou o jovem que preferiu não se identificar.

O outro motorista assassinado foi Marcelo Silva Vaz, de 31 anos. Morador da favela Porto da Pedra, ele foi morto com um tiro na cabeça e deixa a esposa e quatro filhos. O corpo do rapaz foi enterrado no dia 12/11 no Cemitério Municipal do Pacheco, em São Gonçalo, junto com outro homem morto na ação, o assistente de mecânico Márcio Melanes Sabino, de 21 anos, que deixa uma filha de três anos.

O caso da Chacina do Salgueiro revela também os efeitos da lei 13.491/17, sancionada pelo gerenciamento Temer, que amplia a competência da justiça federal militar aos crimes cometidos por militares das Forças Armadas em serviço.

Segundo esta lei, um soldado em serviço que matar um civil não irá mais à justiça criminal. Ao invés disso, ele será julgado por um tribunal militar, anulando completamente o controle civil sobre as ações das Forças Armadas. A lei foi criada apenas para vigorar durante as olimpíadas de 2016, mas através de uma maliciosa manobra política para incrementar a guerra contra o povo e encobrir os crimes das Forças Armadas, Temer tornou o texto permanente.

Sendo assim, mesmo que confirmada a participação do  Exército na Chacina do Salgueiro, militares que participaram da ação serão investigados e julgados por uma corte militar. Com a nova lei, investigadores não podem sequer periciar as armas usadas pelos militares na ação.

Os policiais civis que participaram da chacina já foram ouvidos pela delegacia de homicídios de Niterói e São Gonçalo. O Comando Militar do Leste (CML) informou através de um ofício que os militares não vão prestar depoimento à delegacia e que estão à disposição da Justiça Militar. No entanto, o próprio Exército não abriu investigação sobre o caso, pois, segundo o comando das Forças Armadas, “não há indícios de crime militar”.


Cada dia um massacre

Nas últimas semanas de novembro, foram vários os casos de massacres levados a cabo pelo Estado nas favelas do Rio de Janeiro. No dia 20/11, Dia do Povo Preto, policiais do Bope fizeram uma operação no Morro do São Carlos, zona norte da capital, e mataram ao menos cinco pessoas. A reportagem de AND foi procurada por moradores na madrugada do dia 20 para o dia 21, para noticiar o caso.

Conteúdo exclusivo para assinantes do jornal A Nova Democracia

— Era final de feriado. As pessoas estavam na rua bebendo e conversando quando começou a operação. Os policiais subiram a Rua São Carlos agredindo todo mundo, inclusive mulheres e idosos. As pessoas não sabiam para onde correr, com medo de apanharem ou serem baleadas. Foram duas horas de tiros. No final a gente só escutava o choro dos parentes dos meninos que morreram. Nessa hora, todo mundo é bandido, mas isso não é verdade. Eles [policiais do Bope] renderam os garotos descendo o morro e executaram todo mundo. É isso que eles fazem sempre — denunciou uma moradora que preferiu não revelar sua identidade.

Duas semanas antes, dois homens também foram mortos em uma outra operação no Morro do São Carlos.

No dia 21, apenas um dia após a Chacina do São Carlos, outros três homens foram mortos pela polícia em uma operação da Core na Cidade de Deus, zona oeste da cidade. Segundo a assessoria de imprensa da polícia civil, a operação era para o cumprimento de 61 mandados de prisão por roubo e furto de veículos nos bairros da Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes.

Polícia mata mais

Como seguimento da guerra civil reacionária movida pelas classes dominantes contra o povo, as polícias do Rio de Janeiro estão matando cada vez mais pobres em operações policiais nas favelas do estado.

Segundo dados divulgados no início de novembro pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), o número de pessoas assassinadas pela polícia entre janeiro e agosto deste ano supera em 30% o número referente ao mesmo período do ano passado. Foram 720 mortos, 20% do total de mortes violentas no Rio de Janeiro em 2017 (3.485). Desde 2009 que a polícia não matava tanto. Entre 2014 e 2016 o número de casos registrados como “autos de resistência” cresceu nada mais, nada menos que 120%, pulando de 416 casos em 2013 para 920 em 2016.

Somente no mês de novembro, policiais promoveram chacinas em vários pontos da capital e região metropolitana, mas pouco se falou sobre os episódios no monopólio da imprensa. Quando comentado, nenhum dos casos foi classificado como massacre ou chacina, mas sim como “morte em decorrência de intervenção policial”.

tag:

Endereços


Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
CEP: 20.921-060
Tel.: (21) 2256-6303

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Tel.: (11) 3104-8537

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

EXPEDIENTE

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas
Fausto Arruda 
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto 
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond 
Sebastião Rodrigues
Vera Malaguti Batista

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja

A imprensa democrática e popular depende do seu apoio

Leia, divulgue e conheça. Deixe seu nome e e-mail para se manter informado
Please wait