O poeta dos escravos faz 170 anos

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Castro Alves

Celebra-se, em 2017, a passagem dos 170 anos do nascimento de Antônio Frederico de Castro Alves. Filho de Antônio José Alves e Clélia Brasília da Silva Castro, um dos principais poetas da língua portuguesa nasceu na fazenda Cabaceiras, próxima à vila de Curralinho, interior da Bahia, em 14 de março de 1847.

Poeta social, caracterizou-se pela intensidade com que exprimiu em sua obra as causas sociais e também o amor. Castro Alves ficou conhecido principalmente pelos versos presentes em Vozes d’África e Navio negreiro, pertencentes à obra Os escravos, publicada postumamente em 1883.

A fala engajada dessas e outras poesias, centradas na defesa intransigente do abolicionismo e dos direitos do povo, renderam a Castro Alves o epíteto de o “poeta dos escravos”, ou ainda, o “cantor dos escravos”. O primeiro poema contra a escravidão foi escrito ainda aos 16 anos e publicado na revista A primavera em 1863, e intitulava-se A canção do africano.

Escreveu poemas líricos e heroicos, publicados em jornais ou declamados em saraus e teatros, que produziram enorme repercussão nas lutas sociais e nos círculos literários em meados do século XIX.

Vertentes da poesia condoreira

Na poética de Castro Alves, há duas tendências principais: a lírico-amorosa e a épico-social. Na primeira, vê-se o poeta baiano voltado para temas amorosos e sentimentais, expressando-se com erotismo e com particular simplicidade. Diferententemente de seus contemporâneos, raramente idealizava a figura feminina. É o caso do poema Adormecida, presente na obra Espumas flutuantes (1870), em que predomina a descrição de uma mulher real, acessível ao poeta, em tudo diferente das figuras femininas idealizadas pelos ultrarromânticos que o antecederam. “Uma noite eu me lembro... Ela dormia/ Numa rede encostada molemente.../ Quase aberto o roupão... solto o cabelo/ E o pé descalço do tapete rente”.

O poeta, diferentemente dos românticos tradicionais, interessou-se também pelo mundo que o cercava, defendeu a república, a liberdade e a igualdade entre os homens.

Seu viés épico-social é formalmente marcado pelo largo uso de antíteses e onomatopeias estrepitosas, resultando em poemas de dicção grandiloquente, que conferiram singular potência às denúncias das bestiais condições de vida a que eram submetidos os escravos. Em um de seus versos mais conhecidos, ele diz “A praça é do povo/ Como o céu é do condor”. Isso porque Castro Alves os concebeu para serem declamados em locais públicos, como teatros, praças, universidades e comícios.

Engajado às grandes causas da liberdade e da justiça social de seu tempo, o poeta era também um exímio orador. De olhos vivíssimos, voz possante e cabeleira volumosa, Castro Alves era ovacionado em sessões públicas de poesia que ocorriam em Salvador, no Recife e também em São Paulo.

Sua produção poética foi fortemente influenciada pela literatura político-social de Vitor Hugo. Lido e admirado por Machado de Assis, com quem se encontrou certa vez no Rio de Janeiro, também influenciou nomes como Pablo Neruda e Manuel Bandeira.

Representante da cultura popular

Uma das características da terceira geração do Romantismo no Brasil, da qual Castro Alves foi sem dúvidas o nome mais notável, foi a dedicação em recuperar o homem preto como personagem político da história social e cultural do país.

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Se José de Alencar, representante da primeira geração do movimento, excluiu deliberadamente o negro de seu projeto nacionalista-literário, apresentando o povo brasileiro apenas como sendo formado por brancos europeus e indígenas, Castro Alves, em contrapartida, sensível às aspirações revolucionárias do século XIX, transforma-o em herói de sua produção literária, principalmente àquela dedicada a temas abolicionistas.

Em uma sociedade cindida em classes, profundamente desigual e violenta, tal atitude demonstra a enorme coragem e o espírito democrático do poeta baiano, assegurando-lhe um lugar de destaque na história da poesia e da cultura popular brasileiras.

Uma poesia revolucionária

Em um momento político histórico de intensa luta, suas obras foram uma arma nas mãos dos negros e todos que apoiavam suas causas de libertação.

Escravidão. Charge: Latuff

Suas poesias denunciam as condições de mais vil barbaridade e crueldade a que eram submetidos os negros escravizados e expoem as entranhas do sistema escravocrata.

O célebre Navio negreiro (1868), por exemplo, formado por versos épico-dramático, além de atacar diretamente o regime escravocrata em trechos como “Ontem plena liberdade,/  A vontade por poder... / Hoje... cúm’lo de maldade,/ Nem são livres p’ra morrer./ Prende-os a mesma corrente / — Férrea, lúgubre serpente — / Nas roscas da escravidão.”, também recria cenas do transporte ignóbil de homens e mulheres trazidos da África para o Brasil, “Presa nos elos de uma só cadeia,/A multidão faminta cambaleia,/ E chora e dança ali!/ Um de raiva delira, outro enlouquece,/Outro, que martírios embrutece,”. Não obstante a potente denúncia do poema, em sua conclusão, o autor faz um apelo, impelindo o leitor a lutar contra a exploração e opressão da escravidão: “Mas é infâmia demais!... Da etérea plaga/ Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!”.

Já em Vozes d’África mostra a indignação de um povo frente a tamanha injustiça “E que é que fiz, Senhor? que torvo crime/ Eu cometi jamais que assim me oprime/ Teu gládio vingador?!” e denuncia o martírio de todo um continente escravizado e espoliado secularmente por exploradores europeus: “Hoje em meu sangue a América se nutre/ Condor que transformara-se em abutre,/ Ave da escravidão”.

Também a resistência e rebeldia do povo preto ficam expressas nos versos dos poemas A criança (“Amigo, eu quero o ferro da vingança”) e Bandido negro (“Cai, orvalho de sangue do escravo,/ Cai, orvalho, na face do algoz./ Cresce, cresce, seara vermelha,/Cresce, cresce, vingança feroz.”), exaltando o povo negro pela sua força e bravura.

Em sua obra, Castro Alves consegue despertar no leitor toda a repulsa e indignação na intenção de levá-lo a conclusão da necessidade da mudança, da luta pela liberdade e o fim da escravidão.

Sem dúvidas o poeta baiano se destaca como um revolucionário de seu tempo que ostentou o brado de revolta contra a exploração escravocrata, afirmando sua posição em prol das classes oprimidas tanto na vida e na literatura.

Morte precoce, obra grandiosa

Tanto a vida quanto a obra de Castro Alves foram um tanto exíguas. O único livro que teve a oportunidade de ver publicado foi Espumas flutuantes (1870), recebido de maneira muito favorável pelos leitores. Seus escritos póstumos incluem A cachoeira de Paulo Afonso (1876), o já mencionado Os escravos (1883) e Hinos do Equador (1921).

No final de 1868, Castro Alves feriu o pé esquerdo com um tiro acidental durante uma caçada em uma região de várzea no bairro paulistano do Brás. Após inúmeras intervenções cirúrgicas que resultaram em uma enfermidade prolongada, foi convencido por cirurgiões da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro a amputar o membro inferior no ano seguinte. Morreu logo depois, em 1871, acometido por uma tuberculose, com apenas 24 anos.

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